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Sábado, 22 de Fevereiro de 2025, 09h:35

TELEVISÃO

Trump ganhou de forma justa, mas estou preocupado, diz Robert De Niro

Ícone do cinema condena distorção da verdade e afirma que trabalho em minissérie da Netflix foi como fazer três filmes

EDUARDO SOMBINI
Da Folhapress – São Paulo
Robert De Niro

Robert De Niro dá alguns passos no palco e para em frente ao microfone na cerimônia de entrega do Tony. "Vou dizer uma coisa: foda-se, Trump." A plateia se levanta, o teatro é inundado por aplausos e o ator, como o seu Jake LaMotta, o boxeador de "Touro Indomável", ergue os dois punhos em gesto de provocação ao oponente. Era o segundo ano do primeiro mandato de Donald Trump.

Não faltou consistência ao ícone de Hollywood nos anos seguintes: "Aspirante a gângster", "ditador", "idiota do caralho", "palhaço", "vergonha para este país", "queria dar um soco na cara dele". "Foi uma figura de linguagem", contemporizou em conversa com o diretor Michael Moore, sem se conter por mais que alguns segundos: "Queria ver um saco de merda no meio da cara dele".

O republicano, obviamente, contra-atacou: "Robert De Niro, um indivíduo de QI muito baixo, levou muitos golpes na cabeça de boxeadores reais em filmes".

Depois de emprestar sua voz a um anúncio de campanha de Joe Biden, bater boca com trumpistas em frente ao tribunal de Nova York que condenou o então ex-presidente por suborno de uma atriz pornô e subir no palanque de Kamala Harris, De Niro, 81, não quer falar nem de política nem do presidente, ainda que interprete um ex-ocupante da Casa Branca em "Dia Zero", thriller político da Netflix que estreia nesta quinta-feira (20). O repórter indaga as razões dessa reviravolta.

"Estou neste país e estou muito preocupado com o que aconteceu. Trump ganhou a eleição de forma justa. É tudo o que eu posso dizer", De Niro responde em entrevista por videochamada à Folha, logo depois de uma interrupção, devido ao assunto da pergunta, por uma das assessoras que estavam na sessão do Zoom ("Eduardo, desculpa. Temos 30 segundos para terminar. Não sei se quer fazer uma pergunta final"). A reportagem tinha sido avisada que o ator não responderia a perguntas pessoais sobre política.

"Não é o que eu queria, mas, por enquanto, é o que é. Vamos ver. Esperamos que, talvez, algumas coisas sejam boas. Não sei. Só o tempo vai dizer", o ator completa, sem se esforçar em transparecer que realmente espera coisas boas do segundo mandato de Trump.

Em "Dia Zero", minissérie de seis episódios, George Mullen é levado de volta aos labirintos do poder com a missão de encontrar e punir os responsáveis por um ataque cibernético que devasta os Estados Unidos e ameaça romper seu tecido social já tão corroído.

O ex-presidente vivido por De Niro comanda uma comissão de investigação com poderes de exceção e se depara com uma névoa de conspiração, desinformação, oligarcas das finanças e da tecnologia e radicalização política, uma atmosfera tão trumpiana quanto possível.

Apesar do aparente declínio cognitivo, de traumas familiares e de marcas do seu passado político, o herói da série é durão e obstinado, como tantos outros personagens que o ator eternizou no cinema.

Aqui, no entanto, a severidade é de um político à moda antiga, comprometido com os bons e velhos valores republicanos, não de um jovem siciliano que ergue um império da máfia ("O Poderoso Chefão: Parte 2") ou de um veterano da Guerra do Vietnã que se transforma em pioneiro de incel enquanto percorre as ruas de uma Nova York decrépita e grita com o seu reflexo no espelho ("Taxi Driver").

"Estou impressionado com como algo tão simples como a verdade foi distorcida nos últimos anos. Para mim, a ideia do meu personagem era alguém que dizia a verdade sem rodeios. Foi por isso que a presidente o escolheu para essa comissão. Ele era um cara direto, sem enrolação. Tentava dizer as coisas como elas eram, e as pessoas confiavam nele."

Sobre o contraste entre a bússola moral de "Dia Zero" e o debate político atual, De Niro afirma, com sua concisão ao mesmo tempo áspera e gentil, que "a honestidade, a verdade e o caráter são especialmente importantes hoje em dia". "Sem isso, teremos desonestidade, desinformação, coisas que tornam tudo muito mais difícil. É muito desanimador."

A própria performance do ator foi transformada em ferramenta de desinformação muitos meses antes do lançamento da série. Em maio de 2024, contas pró-Israel espalharam, no X de Elon Musk e em outras plataformas, um vídeo do ensaio de uma cena de "Dia Zero" em Manhattan.

As imagens do ex-presidente ficcional confrontando manifestantes hipnotizados por uma conspiração negacionista —uma pequena multidão impede o trabalho de bombeiros por acreditar que o ciberataque não tinha sido real— foram transmutadas em registro da indignação do ator com ativistas pró-Palestina. Nem um impassível Jesse Plemons, também ator da série, ao lado de De Niro o tempo todo serviu de ponto de contato com a realidade.

Na entrevista, o ator pede para ser lembrado como o vídeo foi usado e, em seguida, resume o episódio a algo lamentável. "Isso compromete a democracia", afirma, falando mais amplamente da circulação de notícias falsas. Somos todos humanos, ele lembra, incluindo CEOs, congressistas e presidentes, "mas você precisa de integridade para manter as coisas funcionando". "Esse ingrediente deve estar na equação."

O medalhão do cinema americano estrela, pela primeira vez em sua carreira de seis décadas, uma série de televisão de envergadura —De Niro já foi indicado ao Emmy por uma das suas várias participações no humorístico "Saturday Night Live" e atuou na bem-lapidada "O Faz Nada", produção argentina do Star+, em tudo diferentes da ambição, do calendário e do orçamento de "Dia Zero".

"O Faz Nada" o tomou por uma semana, enquanto as filmagens da série da Netflix se prolongaram por seis meses. "Fazer ‘Dia Zero’ foi como fazer três longas-metragens", afirma o ator, que já comparou a experiência a atravessar o Canal da Mancha a braçadas. "Não vejo mais a França e não consigo ver a Inglaterra. Preciso continuar nadando, acompanhando a enxurrada de informações, o ritmo da história", disse ao britânico The Guardian.

De Niro ascendeu ao panteão do cinema mundial em uma época de abertura à experimentação em Hollywood. Na década de 1970, o declínio da produção em massa de filmes, controlada do começo ao fim pelos grandes estúdios de Los Angeles, abriu caminho para jovens cineastas como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Steven Spielberg —e inaugurou uma nova era de ouro do cinema.

Agora, o ator fala de um trabalho "mais estruturado" e de certos limites à sua atuação quando questionado sobre as particularidades de uma produção da plataforma hegemônica dos anos 2020. "Muita informação tinha que ser transmitida. Eu simplesmente não podia me desviar do diálogo, precisava passar essas informações e, aí, [existia] um pouco de espaço para outras coisas ao redor. Havia muitas questões técnicas. Foi bom, mas foi mais confinado, de certa forma, para mim como ator."

De Niro é um dos últimos grandes nomes do cinema a se render à televisão e ao streaming. À BBC, ele afirmou que "fazer uma série ou algo do tipo era uma sentença de morte" nos seus tempos de ator iniciante: "Você esperava não receber uma proposta dessa. Era algo limitante e te tirava do jogo por sete anos", devido aos longos contratos. "Hoje em dia, é um mundo completamente diferente. Há tantas coisas por aí, parece infinito."

O repórter pergunta se "Dia Zero" é uma mudança de rumos da sua carreira e se expressa algum movimento mais substancial. O ator minimiza o enquadramento e parte para uma resposta muito mais mundana: em primeiro lugar, ele não queria ficar longe de casa por muito tempo; em segundo, gostou do roteiro. De qualquer jeito, ele não se prende muito aos detalhes de como tudo aconteceu.

"Estava conversando há alguns anos com o meu agente, e falamos sobre algo que eu poderia fazer em Nova York. Não sei se surgiu a ideia de um tipo de minissérie, mas pode muito bem ter sido assim. Ele pode ter dito: 'Que tal uma minissérie? É um período mais longo' e assim por diante. Ele me apresentou a Eric Newman, e conversamos sobre fazer algo juntos. No fim, nos decidimos por essa ideia."

Newman, produtor de "Narcos" e "Griselda", vinha trabalhando no roteiro de "Dia Zero" com Michael S. Schmidt, repórter do New York Times em Washington, e Noah Oppenheim, presidente da NBC News de 2017 a 2023. Oppenheim é mais lembrado pela acusação, negada por ele, de Ronan Farrow, que alegou que a direção da emissora barrou a divulgação da reportagem em que que expôs denúncias de mulheres contra Harvey Weinstein.

De Niro pode ter chegado aos 80 e preferir trabalhar em Nova York nestes tempos, mas está longe de diminuir o ritmo.

Ele volta em março às salas de cinema com "The Alto Knights", em que interpreta dois mafiosos em guerra —personagens sem parentesco entre si—, é sócio de uma produtora e de uma rede de restaurantes, está à frente do Festival Tribeca, que fundou na sua vizinhança depois do 11 de Setembro, é um dos investidores de um complexo de estúdios de US$ 1 bilhão no Queens, vai inaugurar um resort de luxo no Caribe e, ainda mais importante, é pai de uma bebê de menos de 1 ano —Gia é a sétima da sua prole.

"Já está de bom tamanho, é muita coisa", brinca ao falar sobre os planos para os próximos anos. Algo, porém, parece fazer falta. "Queria ter um filme que eu quisesse de verdade fazer. Seria ótimo [ter] uma história que me fizesse sentir que vale a pena passar dois anos da minha vida escrevendo, dirigindo, talvez até atuando. Não tenho nada como isso, e nada cruzou meu caminho."

"Sempre acredito que você tem que criar as coisas. De vez em quando, você espera que as coisas venham até você. Elas podem nunca vir. Estive envolvido nesse tipo de projeto com o Scorsese", continua o ator. (De Niro dirigiu e atuou no policial "Desafio no Bronx", de 1993, e em "O Bom Pastor", drama de espionagem de 2006. Em retrospectivas da sua trajetória, os dois longas têm espaço incomparavelmente menor que suas atuações mais icônicas.)

"Esse é o tipo de coisa que penso que eu queria fazer, mas, você sabe, uma coisa é pensar em querer fazer e outra é fazer de fato. Você precisa achar a coisa em que está disposto a se envolver, evoluir aos poucos até o ponto de filmar e depois editar. Juntar tudo leva um tempo. Eu não tenho nada. Queria ter."

 

Robert De Niro, 81

Nascido em uma família de ascendência italiana em Nova York em 1943, obteve seu primeiro papel de destaque em um longa-metragem em 1968. "Caminhos Perigosos" (1973) inaugurou sua parceria duradoura com o diretor Martin Scorsese, que inclui "Taxi Driver" (1976), uma das performances mais consagradas da sua carreira, "Touro Indomável" (1980), filme pelo qual venceu o Oscar de melhor ator, "O Irlandês" (2019) e "Assassinos da Lua das Flores" (2023). Sua interpretação do jovem Vito Corleone em "O Poderoso Chefão: Parte 2", de Francis Ford Coppola, rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante a De Niro, indicado pela Academia em seis outras ocasiões.

 

DIA ZERO

Onde, na Netflix

Elenco Robert De Niro, Jesse Plemons, Lizzy Caplan, Connie Britton e Joan AllenProdução Eric Newman, Michael S. Schmidt e Noah Oppenheim

Direção Lesli Linka Glatter

Link: https://www.netflix.com/title/81598435 


Edição EDIÇÃO 16961




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