ILUSTRADO
Sábado, 21 de Agosto de 2010, 11h:56
A
A
CRÔNICA
Terra boa de viver!
Valéria del Cueto
Especial para o Diário de Cuiabá
Quem te viu, quem te vê, meu Mato Grosso. E, apesar do seu ar de surpresa, reafirmo: meu Mato Grosso. Outro dia, fazendo contas, descobri o quanto ele está na minha vida. Alguns pensam que ela, minha epopéia mato-grossense, começa com a chegada a Cuiabá, no dia 24 de julho de 1984. Ancorei e por aqui fiquei até 2000, quando entrei de cabeça no Sem Fim. Rodei o material do projeto e fui pro Rio. Levei 4 anos para terminar o filme e mais um tanto fazendo o curso superior que pedi à Deus: a faculdade de Gestão Carnavalesca. Voltei para MT em 2008 e, de lá pra cá, lá se vão mais 3 anos de amável, feliz e profícua vivência no Centro-Oeste. É tempo! Mas, como disse, isso é apenas um pedaço do bolo. Que, na verdade, comecei a comer muito antes quando, aos 6 anos, minha família deixou o Rio e viemos para cá. O cá para mim era longe para caramba: a fronteira do Brasil com o Paraguai, num tempo em que de lá parecia para mim, uma criança do Leme, um mundo inacreditável. Sem asfalto, telefone e luz apenas de gerador, algumas horas por dia, como pude constatar ao pousar na vila Militar do 11º Regimento de Cavalaria. Ponta Porã foi um incrível choque cultural. A televisão só não fez falta por que não era um hábito muito cultivado e perdia feio para qualquer passeio pelo Rio de Janeiro. Uma idazinha a praia então, nem se fala... Foi nessa época que descobri que o que importava numa mudança eram os discos, livros e só um pouco mais. O vácuo cultural era preenchido com o recebimento do pacote semanal de jornais cariocas: O Globo e o JB. Duro era quando chegava o embrulho. Uma briga de foice pelas notícias de, no mínimo, 20 dias antes. Foram 4 anos na fronteira. Uma infância e tanto. Cheia de peripécias e aventuras em três línguas: português, castelhano e (como lamento não saber falar) guarani. Infância esta, que continuou e terminou no Leme, Rio de Janeiro. De lá, fomos morar no Posto 6, onde soubemos que lá ia papai de novo. Desta vez, para Bela Vista. Ficamos estudando no Rio, mas com a cabeça, o coração e as melhores lembranças da adolescência embaladas ao ritmo de inolvidáveis polcas e guarânias paraguaias. Lá, onde passávamos pelo menos 4 meses por ano - quando as férias de final de ano começavam dia 1º de dezembro e só terminavam no início de março e as férias de julho eram de cabo a rabo - é que a vida era boa! O rio que separa o Brasil do Paraguai, com três letras, em toda palavra cruzada que se preze, o Apa, era nosso clube de natação e volei. Mais os churrascos, bailes e as serenatas... Mesmo quando o del pai pode voltar continuamos, eu e minha irmã, na onda belavistense, abrigadas na casa de amigos queridos que nos recebiam como parte da imensa família de Dom Pompílio e Dona Henriqueta Pedra. No final da década de 70, arrumei um namorado carioca e os verões ficaram mais calientes na beira da praia, na Pedra do Arpoador. Mas, já em 84, meu imã matogrossense me atraiu para o centro geodésico do Brasil e da América do Sul. E, daqui, quando saio, sempre volto. Se tenho saudades do meu Rio? Sempre. Principalmente quando, como ha 40 anos atrás, me pego aguardando, ansiosa, o pacote de jornais (agora só O Globo) enviado por minha avó quinzenalmente, do correio do Leme. De casa, sou a única que mantém este vínculo tão distante, uma referência permanente. É como se o tempo não passasse, já que os jornais e as saudades continuam os mesmos... *Valéria del Cueto é jornalista, cineasta, gestora de carnaval e colabora com o DC Ilustrado. Outros textos da jornalista no http://delcueto.multiply.com