ILUSTRADO
Sábado, 18 de Junho de 2011, 14h:12
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LIVRO
Temática existencial
Pessoas não conseguem ser felizes porque vivem muito ligadas ao passado ou ao futuro, transferindo para fora de si a condição de ser feliz
Martha Baptista
Da Reportagem
Um homem mau Aquele que encontrou a Liberdade, a Paz e a Felicidade é o primeiro livro publicado de Wilson Britto, um mineiro nascido na cidade histórica de Mariana há 68 anos, que mora em Belo Horizonte, é graduado em Administração de Empresas e Ciências Contábeis, especialista em Marketing e mestre em Filosofia. Mas quis o acaso que sua primeira obra como escritor fosse publicada por uma editora genuinamente mato-grossense, a Entrelinhas. Britto atua há mais de 30 anos como consultor de empresas na área de estratégia, marketing e formação de lideranças, e tem entre seus clientes um grupo nascido em Mato Grosso, Canopus, cujo foco principal é o comércio de veículos de quatro e duas rodas. Através desse cliente, conheceu Maria Teresa Carrión Carracedo e, de uma conversa, nasceu uma parceria que deve render muitos livros. A Entrelinhas está se dedicando no momento à edição de Motivação ou cooperação? Afinal, por que se trabalha?, um livro que discute o propósito do trabalho e qualidade de vida. Esta semana Wilson Britto entregou os originais do romance Caravelas O confronto entre a vida e a morte, e já deixou com Maria Teresa um livro de crônicas. O romance é inspirado na vida do cantor e compositor belga Jacques Brel(1929-1978), um dos maiores nomes da música de língua francesa, autor de Ne me quitte pas. Fiel ao seu estilo de trabalhar com temas profundamente existenciais, Britto conta no romance a trajetória de o Astro, personagem inspirado em Brel, que assim como o cantor recebe o diagnóstico de um câncer no pulmão e, diante da perspectiva de ter pouco tempo de vida, decide pegar seu veleiro e viajar em direção à Polinésia francesa. O tema central é a morte, mas da mesma forma que ocorre no livro de estreia do autor mineiro, o romance servirá para se discutir questões vitais para o ser humano, como a busca da liberdade, paz e felicidade. Uma das inovações de Britto é terminar cada capítulo do romance com a alusão a um clássico da música, que pode ser uma composição de Bethoven ou o Bolero de Ravel. A ideia é publicar o livro com um CD. É uma obra para ser lida e ouvida, conta o autor, que antecipa que as últimas três linhas do livro trazem uma reviravolta para a história, num desfecho surpreendente. TRILOGIA Embora considere Caravelas sua melhor obra, Britto tem planos para escrever outros livros, inclusive, de terminar a trilogia iniciada com Um homem mau, com os títulos Um homem de compreensão e Um homem bom. Seu processo de escrita é singular: ele diz que as ideias e até as palavras lhe chegam durante o sonho e às vezes o consultor tem que se levantar da cama no meio da noite para fazer anotações. Quando ele se senta para escrever uma obra já sabe quantos capítulos vai ter, o nome de cada um. É como se o livro estivesse praticamente pronto. Mas o que torna Um homem mau tão especial? Na verdade o homem mau, que é o protagonista do livro e é chamado de o Estranho um personagem autobiográfico -, é bom, mas é considerado mau ao dizer certas verdades numa reunião de líderes de uma cidade do interior, à qual chega por obra do acaso. A sua preleção gira em torno das três grandes buscas do ser humano: por liberdade, paz e felicidade. O Estranho acaba abordando os três obstáculos para a conquista desses bens: o medo, o conforto psicológico perverso e a mentira. O Estranho é um personagem recorrente na obra de Britto que acredita que é possível ter felicidade, que, na sua opinião, deriva da paz que, por sua vez, deriva da liberdade. liberdade. A felicidade está no aqui e agora. As pessoas acham que o que é agradável é felicidade e o que é desagradável é infelicidade, mas isso é um erro. O Código de Isaías, descoberto em 1948, no Mar Morto, diz que Deus antecipadamente já atendeu todas as nossas orações. A felicidade já está aí, você tem que acessar. Ela está dentro de você. Mesmo se você tiver uma doença grave, pode decidir ser feliz ou infeliz, diz. Para Britto, a doença, a perda, a velhice, a morte tudo faz parte da vida. As pessoas, acrescenta, não conseguem ser felizes porque vivem muito ligadas ao passado ou preocupadas com o futuro, transferindo para fora de si a condição de ser feliz. Muito erudito, Britto se considera um agnóstico, ou seja, uma pessoa que não nega a existência de Deus, porém não está preocupado em prová-la. Eu não concebo esse Deus que castiga, que premia, que pertence a uma nação e não pertence à outra, que beneficia uns e não beneficia outros, que precisa de intermediários. Tem pessoas que precisam disso para viver. Eu não, afirma. O autor aposta no que se chama de religiosidade (uma concepção de mundo muito próxima da filosofia oriental) e tem muito a dizer sobre temas como compaixão, ética, vida e morte em seus livros. Se você tem um talento e o associa ao amor, procura deixar o mundo melhor do que você encontrou, você está se aproximando de Deus. O Astro personagem de Caravelas vai entender isso no final.