ILUSTRADO
Sábado, 06 de Agosto de 2011, 12h:53
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RESENHA
Sobre montar banda uma banda no Irã
O filme não deixa a atração por ele cair. Ora tem velocidade de vídeo clip, ora de documentário com roteiro que confunde realidade e ficção
Danilo Fochesatto
Especial para o Diário de Cuiabá
Desejava nesta oportunidade falar sobre um filme ameno, mas faltou mérito e conveniência. O objeto a priori selecionado era de 2004 e, inadequadamente, atendia pelo nome de Innocence. O título, pasmem, dizia pouco; apenas ironizava. Quero dizer, com tal filme a diretora Lucile Hadzihalilovic (casada com o transgressivo cineasta argentino Gaspar Noé) criou apenas uma espécie de Método Ludovico capaz de desmascarar pedófilos entre os espectadores. É impressionante o efeito que certos closes ou enquadramentos têm! Aparentemente essa não devia ser a intenção da parábola, e agora depois de assistir No One Knows About Persian Cats (2009), o desejo de falar sobre tais preceitos morais desapareceu, fiquei curado. Em tempo: o primeiro filme é mesmo uma boa investigação idiossincrática infanto-kafkiana, enquanto que o segundo é ainda mais importante, urgente e atual. Para quem nem viu o trailer, explico: no Irã você não pode juntar os amigos e montar uma banda. Apesar de divertido, dá cadeia. Abre parênteses. Despoticamente pensando: seria ótimo se isso também existisse noutras partes do mundo. Fecha parênteses. Mas Negar e Ashkan não querem saber, já foram presos antes. Agora eles vão tentar com todas as forças e argumentos montar uma banda para tocar fora do país. Nader, uma espécie de produtor que toca tudo, se junta aos dois e os leva a um (mais que fantástico) tour em busca de músicos iranianos que se interessem pela empreitada ilegal. Porém, tirar passaporte falso e conseguir visto para deixar o país não é tão fácil como vemos em outros gêneros. O filme não deixa a atração por ele cair. Ora tem velocidade de vídeo clip ora de documentário com roteiro que confunde realidade e ficção. Nada mais iraniano do que esse modo de atuar como personagem de si, certo Mohsen Makhmalbaf? Na tela, passeia-se por uma variedade de sítios no Teerã onde o telespectador se encontrará embalado diante de ritmos como jazz, pop, heavy metal, rap e indie-rock, cantados tanto em inglês como em farsi (a língua persa). Nessa sintonia reverbera outra pérola do Oriente: Atravessando a Ponte O Som de Istambul, do diretor Fatih Akin, aquele que disse: Se você ama Cinema, você tem que amar a América. Mas voltemos ao Irã. O título escolhido pelo diretor Bahman Ghobadi é uma referência à lei iraniana que impede gatos e cães de serem levados para fora de casa. Tal situação ganhou uma cena no filme. Um tanto melodramática, sem dúvida, mas como é que se poderia sugerir uma medição do nível de absurdez naquele país? De modo que No one knows... obviamente ganhou rótulo do gênero no qual estão as coisas que não são nem isso nem aquilo, isto é, drama. Por outro lado, as palavras-chaves do enredo são bem mais abrangentes e práticas. Se fosse comparado aos outros bons filmes dessa vaga órbita (The Commitments, Buena Vista Social Club, Café de los Maestros, entre outros) seria um modesto avanço de classificação que, entretanto, jamais será resolvido. No mais, nobre amigo cinéfilo, é aumentar o som, balançar a pernoca de acordo com as músicas da vida alheia e tentar se preparar para o final abrupto e inesperado que vai acabar com suas esperanças. Desejo um bom filme a vocês, roadies de aluguel. *Danilo Fochesatto é escritor, estudante de jornalismo e colabora com o DC Ilustrado (http://ababsurdoadextremum.blogspot.com/)