Não fale alto, não desperdice água e conheça uma cadeia alimentar. Quando alguém te abandonar, não se atire da janela, não corte seus pulsos. Se alguém te humilhar, não dê um tiro na testa e nem corte-o em pedaços e coloque em malas. Viva uma vida simples, deixe a literatura ser o fora do comum. Lanço uma campanha: Não faça literatura dos teus dias, deixe a literatura fazer literatura. Para conquistar é liberado mandar flores, poemas, tentar escrever os teus, ler os dos outros. Contudo, saiba esperar, guardar um amor em segredo dentro de si, afinal, amores serão sempre amáveis e Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela. Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro, do que de um pássaro sem voos. Leia. Muitos já devem ter lhe dito isso e é óbvio que o mundo lhe oferece muitas outras coisas: seriados, milkshakes, aplicativos para o ipod, café com sabores variados, baunilha em essência silvestre, mel de flor de lotus, disco novo da Cat Power, filmes do Almodóvar, exposição de fotografia, a morte de Carlos Reichenbach. Mesmo assim, Leia. Um poema por dia, um conto antes de dormir, três páginas no banheiro, um parágrafo na fila (se você ainda enfrente fila). Perca o seu tempo com absurdo, o fantástico, com amores impossíveis, inclassificáveis, inviáveis, com as mazelas alheias, com aquilo que vai falar mais de você do que qualquer coisa ou pessoa. Não perca a capacidade de evasão (entreter-se é um direito que lhe cabe). Às vezes ser professora de literatura parece a coisa mais sem noção do mundo. Coisa mais chata que falar de um livro para aqueles que não leram, nem vão ler, e ainda ter que pensar no bendito do exame no final do ano e a universidade no próximo. Mas, eis que entre brutamontes, gnomos, perdidos, sonolentos e insolentes (há de tudo, de todas as mitologias), um olhar, um alguém que diz: gostei disso. Que percebeu que a vida, essa mesma que se vive, floresce, mesmo que não se plante, não se molhe, não se goste. Encontrei uma mulher, certa vez, que me disse que já foi um gigante. Transformou-se em um dia comum, de uma hora para outra, sem nem saber o motivo. Se é loucura ou se é verdade, tanto horror perante os céus, não serei eu a julgar. Fiz um conto da história dela, tentando explicar minha misantropia de outrora. Eu inventei métodos para sobreviver como gigante. Sim, gigantes precisam de categoria, definição e identidade. Para ser um é necessário imensidão. Alem, há alguém, mesmo que imaginário, que o gigante sempre espera que retorne. Esse é o ponto em que tento não falar. Mas, o ponto principal do método é falar com esse alguém, através da literatura. É fazer literatura com a vida alheia, transformando em ficção o que poderia ter tudo para ser verdade. Soa estranho o contrario (deixar real o que tinha de tudo para ser de mentira), por isso insisto que leia, antes de decidir-se por qualquer coisa. Pensei em colocar um trecho do conto, sobre gigantes, para encerrar a crônica e lembrei-me do caso da busca, do e-mail. Pensei que, talvez, essa pessoa (que me enviou o e-mail) esteja fazendo literatura com a vida dela e queira que eu faça com a alheia. Não farei. Não desta vez. A mulher, que se tornou gigante, me disse ainda que tinha uma teoria sobre a aflição e a mistura das três raças tristes que formaram o Brasil. Ela passou um bom tempo sem despir nenhum pelo do seu corpo, não depilava suas partes íntimas, deixou seus pelos crescerem alem do necessário. Diante disso, constatou que nenhum outro povo teria tantos pelos pubianos, quanto temos. São pequenos detalhes, ou coisas muito grande para se esquecer. Eu não sei como escrever e trazer um amor de volta. Eu não sei como escrever. Eu não sei. Eu não. (Citações: Chico Buarque e Antonio Cícero) *Juliana Curvo é professora de literatura e colabora com o DC Ilustrado (
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