ILUSTRADO
Sábado, 20 de Outubro de 2012, 13h:24
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CRÔNICAS
Sejam benditos livros que não são lidos
Antecipadamente nosso cronista pediu folga neste domingo e então a página três hoje traz apenas as palavras femininas. Boa sorte, boa leitura
Juliana Curvo*
Especial para o Diário de Cuiabá
Conheci Benedito, em função de meu pai. Aliás, Benedito era irmão mais velho do meu pai e assim, meu tio. Benedito tinha uma tendência para a poesia, sendo capaz de fazer dramas épicos em almoços de domingo, com a família. Sofria escandalosamente, tendo, em certo tempo, estado imóvel, sem andar, por dizer que seus músculos das pernas estavam travados. Tudo pelo simples fato de que uma espinha de roseira havia entrado no pé esquerdo. Ele teve febres, calafrios, pesadelos. Só voltou aos passos depois de umas rezas, bênçãos, arnica e um pouco de pinga. É preciso dizer que em certos dias insuportáveis, Benedito bebia um pouco. Socialmente, ou seja, sempre em companhia de amigos e pouco se importando com o resto do mundo. Benedito foi escritor, de dois livros célebres, que ninguém nunca leu. Não sei nem lhe dizer se ele mesmo, o próprio Benedito, leu suas obras ou apenas as escreveu. Posto que você sabe que escrever é uma coisa e se ler é outra, bem mais complicada. Um dos livros falava de amor e o outro falava sobre o pai. As influências eram poucas e profundas. Os dois livros foram incendiados, criminosamente, mas o crime nunca fora desvendado. Ele dizia que a questão é que essas obras não eram regionais. Veja você, pobre Benedito, acreditavas que fazia uma coisa tão grandiosa. E, quem sabe, fossem mesmo, mas ninguém leu, pra dizer que sim. Dois romances, prolixos, de muitas páginas, um falando de amor e outro do pai (talvez ambos falassem de amor). Benedito passou a viver os intermináveis dias, depois do incêndio, como se não houvesse mais razão alguma. E, quem sabe, não houvesse mesmo, mas ele inventou que era por conta do livro. E ainda haviam os crédulos que diziam: escreve outros. Já escrevestes dois, qual mal há em escrever um terceiro? Quanta bobagem escutava Benedito. Ele sabia da importância em não escrever um terceiro. Residia o fato de não voltar a escrever e terminar um terceiro, pois com isso ele se sentia especial e triste, por ter perdido os dois que dizia que escrevera. Ninguém nunca viu os livros datilografados, mas Benedito tinha uma máquina de escrever. Nenhum parágrafo haviam lido. Mesmo assim, muitos sabiam falar das obras. Eram incríveis, dizia meu pai. Bons romances, minha mãe. Coisa de outro planeta, comentava uns outros por aí. Um dia, Benedito vira um escritor dando uma entrevista sobre um romance, que falava de um amor, de uma obsessão. Benedito gostava de assistir programas de televisão que tratasse de literatura. No meio da entrevista do tal autor, Benedito gritara: meu livro! Esse cara roubou meu livro e está dizendo que é dele! Como um escritor inglês conseguiu roubar um livro escrito em Nossa Senhora do Livramento, ninguém, quem sabe só os irmãos Grimm, consegue explicar. Só que é verossímil. Acredite, se puder. A verossimilhança vem do fato de que Benedito sabia explicar o romance inglês, sem nunca o ter lido. Ele começou a citar o tal romance que ele dizia que havia escrito e que havia sido incendiado e agora, na verdade, havia sido roubado e incendiaram uns pedaços de papel, para entregarem o livro em si para esse tal de Ian, em Londres. Eu sei, eu sei. Você deve estar achando difícil acreditar. E deve estar pedindo, vai me convença, por favor. Escreva alguma coisa que me toque, que me alcance, que me faça acreditar. Vai, vai, escreva logo. Tire-me desse espaço em que estou neste momento, se leio é para isso, para mover-me de alguma maneira. E quanta ingenuidade cabe nos corações? Talvez, seja esta a pequena diferença entre os que dizem fazer literatura e os que dizem escreverem, de quando em quando. A ingenuidade para os primeiros se perdeu, em algum pedaço do caminho. Benedito fez literatura, quem sabe fez da vida mais literatura do que os romances, mas ele fez. E tentou, de todas as formas convencer de que um dos seus romances lhe fora roubado e o outro queimado. É tudo uma questão de ambiguidade, houve romances e não se sabe ao certo se houveram. Aliás, às vezes o amor pode ser isso, ambíguo, sem ninguém saber ao certo o que ocorreu, ou não. Por fim, por mais que você queira qualquer coisa de certo com o que escrevo, o mais próximo que consigo chegar de algum convencimento é dizer: como é quente aqui, como tem estado quente. Você escorre para escrever. E como seria bom carregar alguém que alcance a minha alma. Ao menos uns pedaços. *Juliana Curvo é professora de literatura e colabora com o DC Ilustrado