ILUSTRADO
Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2017, 16h:23
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OPINIÃO CULTURAL
Sebastião Salgado, nosso e do mundo
CRISTOVAM BUARQUE
Especial para o DC Ilustrado
Pela primeira vez, temos um brasileiro na Academia de Belas Artes da França. Um brasileiro que certamente vai honrar essa respeitada instituição. Sebastião Salgado é um dos maiores, senão o mais importante e reconhecido fotógrafo do momento no mundo, possivelmente um dos maiores de toda a história da fotografia. Não apenas pela arte de suas fotos, mas também pela arte de sua vida, pelo seu valor pessoal, por sua aventura. Conheci Sebastião Salgado quando éramos jovens ele e eu estudantes de economia na França. Durante o curso, ele decidiu mudar-se para Londres e trabalhar na Organização Internacional do Café, com o intuito de poupar o suficiente para sobreviver com Lélia Salgado, sua parceira de vida, por alguns meses, durante os quais ele pretendia transformar-se em fotógrafo profissional. Poucos levaram a sério aquela intenção e, sem dúvidas, ninguém imaginou até onde aquela decisão o levaria. Poucos deram a importância que se dá quando algo começa a acontecer. E, de fato, ao longo do processo, ele não só se transformou em fotógrafo, mas no mais reputado e conhecido, com seus livros de fotografia alcançando as maiores vendas no mundo inteiro. Pode ter algum ou outro que se considere no nível de prestígio e reconhecimento em que ele se encontra e com a obra do tamanho da que ele tem, mas não são muitos que se igualam nesse sentido. Eu, pessoalmente, com talvez a suspeição de quem o conhece ao longo desses quase 50 anos, de quem publicou um livro com ele com as fotos dele, obviamente, e com texto meu , posso dizer que se trata do mais importante fotógrafo do mundo e uma das poucas personalidades brasileiras de renome internacional, dos raros da minha geração que ficarão na história. Gênesis deve ser a maior obra de arte fotográfica de toda a história. Mas sua maior obra é sua vida e sua militância na defesa da natureza e dos povos ligados a ela. Sebastião Salgado não apenas fotografou grandes florestas do mundo, ele ressuscitou parte da Mata Atlântica, em Aimorés, Minas Gerais, que havia se transformado em pasto para gado. A área de aproximadamente 900 hectares foi castigada pela degradação e pelo uso como pasto por décadas. Sebastião e a esposa, Lélia, não apenas recuperaram a área, fazendo renascer a flora, como promoveram o retorno da fauna que já andava distante da região. E esse trabalho atraiu o foco de lentes do mundo inteiro, revelando mais uma vez a importância da preservação da Mata Atlântica. É um orgulho para o Brasil ter uma figura como o nosso Tião Salgado e é uma honra saber que é um nome respeitado e reconhecido mundialmente, graças ao seu trabalho ao longo de décadas sistemáticas de cuidado na fotografia da realidade do mundo. Mas não só isso: pelo seu cuidado na proteção da realidade do mundo como a floresta citada acima , e o seu amor aos povos nativos, especialmente os brasileiros, embora não só do nosso país. Também é dele o trabalho de acompanhamento para garantir a sobrevivência e a proteção de grupos indígenas primitivos no Brasil e em outras partes do mundo. E ele faz com um carinho, com uma competência e uma radicalidade que raramente se vê. Anos atrás, Tião me corrigiu em um posicionamento sobre a internacionalização da Amazônia. Afirmei, na ocasião, que a medida só deveria ser adotada quando todos os poços de petróleo do mundo fossem igualmente internacionalizados. Ele foi radical ao me contrapor se o Brasil não é capaz de cuidar bem da Amazônia, ela deve estar à disposição de quem pretende fazê-lo de forma responsável. Já estou convencido. Para merecer a floresta, é preciso cuidar dela.