NA HORA
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Cuiabá MT, Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 12 de Março de 2011, 13h:31

CRÔNICA

Role no Zero Km

Odair de Morais*
Especial para o Diário de Cuiabá
Lorenzo me pediu uma matéria ousada. Lorenzo é editor do DC Ilustrado. Escolha um assunto impactante, recomendou, e escreva numa linguagem elétrica. Pensei comigo: podia, pelo menos, me sugerir um tema. Ande pela cidade a esmo e descubra alguma coisa, ele disse. Tipo João do Rio, mas com uma pegada moderna, estilo punk rock. Acha que consegue? Deixei a redação, cabisbaixo. Entrei em casa, pensativo. Meu primo me avisou que tinha carne nova lá no Zero. Ele, cheio de entusiasmo: Só mina de alto nível, cara, rodando por lá agora... Tem certeza que é mulher? Oxe!, ele encrespou, tá me estranhando? Segundo dizia, era só escolher e levar pro abate. Como não tava fazendo nada, fui dar uma conferida. Mesmo não sabendo ao certo a que ele se referia ao dizer “alto nível”. Nem precisei rodar muito. Encostei a moto ao lado da mina mais gata que encontrei dando mole na avenida. Enquanto estacionava na calçada, notei que lia um Código de Direito Penal. Minto. Carregava numa das mãos o maldito livro. Talvez para compor o disfarce. Na verdade, não sei. Também não ia perguntar logo de cara. Eu: E ai. E ela: E ai. Como é que tá a parada?, perguntei, evasivo. Ela: O programa tá cinquenta contos. O motel ali custa doze, disse. E apontou com as compridas unhas a pocilga em frente. Com direito a tudo?, tornei a perguntar, agora com mais entusiasmo. Menos atrás. Completo quanto é? Eu cobro oitenta, respondeu, sentindo-se superior às outras. Olhei em volta: Só bagaceira. Tinha razão ao exigir um pouco mais. Meu primo tinha dado sorte. Ou rodado noutra freguesia. A quantas horas tenho direito? Desta vez, deixava evidente o meu súbito interesse em contratar os seus serviços. Aqui é por gozada, cara. Gozou, acabou. Só? Só. Hum!, grunhi. Murcho, apesar do vocabulário refinado. Olhei no relógio. 9h da manhã. Precisava finalizar. Falei a primeira coisa que me deu na telha: É cedo, ainda. A essa hora você não fez nada, né? Foi irônica ao me responder: Até agora... só entrevista. Só entrevista... repeti. Quase sem graça. Que zoeira. Eh-eh! Rimos. Você é gozada. Caprichei. Ela soltou uma gargalhada estrondosa... Se der eu volto aqui então, eu disse, descendo o capacete. Mas e ai?, ela falou. Pela primeira vez, tentava prolongar o assunto. Me pegou pelo braço. Acha que não vale a pena?, perguntou, com malícia. Como havia erguido a viseira, nesse momento ela olhava dentro dos meus olhos. Querida, vale a pena, o espanador. Vale até um avestruz inteiro. Foi hilário. Só não vale pena de morte, ela acrescentou. Pois é, concordei com um sorriso. Voltou a folhear o livro. Provavelmente era universitária, pensei. Realmente, outro nível. Superior. *Odair de Morais é escritor e colabora com o DC Ilustrado odairdemorais.blogspot.com

Edição EDIÇÃO 16960




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