NA HORA
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Cuiabá MT, Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 30 de Junho de 2012, 15h:17

CRÔNICA

Rodapé

Luís Gonçalves*
Especial para o Diário de Cuiabá
Quase que este texto não sai. O bruto empacou na curva da cadeira que não desgrudava nem a foice. Confesso sentir dificuldade de continuar a escavar esses escritos. A modernidade derrete o gelo. Mas não oferece aparador para a água que escorre. Antigamente era bem mais fácil. Bastava esfregar as mãos uma na outra. Laçar os dedos e dar uma esticadinha adiante. Quando voltava vinha igual rodo. Até a bica de letra. Caso as letras escapassem era só tamborilar as pontas dos dedos na mesa. Vinha letra que estava enterrada há muitos anos. Chegava rasgando vento igual assombração no cio. Pulavam pra tela sem qualquer cerimônia. Cansei de ficar assistindo letras pipocar no vídeo igual melado em fogo brando. Enquanto isso amolava a ponta do dedo para compor a próxima escrita. Perdi a amizade das letras há pelo menos três anos. Desde que envolvi com a Mídialivre as letras abriram fuga. Cutuco tudo quanto é pé de santo para sair algum padre-nosso. Passo o dia abraçado a prancheta tomando nota de um tudo. Quando vou coar os apontamentos, só decepção. O que está me destruindo, se é que havia alguma construção, é esse lance de pontear texto pra ser pranchado em alta voz em vários arroubos. Tudo é muito bonito, lindo de morrer. Porém, mata a criação no ventre. Dá uma canseira de deixar o dedo completamente traumatizado. Pior, é que tudo que se escreve é viral. Recentemente me queixei de uma zonzeira besta. Falta de companhia feminina especializada. Ótima sacada. Viral brutal. Em seguida, consegui um ótimo acidente e baixei a enfermaria. Foi o viral mais perfeito que produzi. Passei mais de mês fazendo gracinha com a minha própria enfermidade. Nunca mais direi a ninguém quando decidir ficar doente novamente. Viral é um vírus letal. Notaram como quebrei o ritmo. É só pensar na tal virilização que tudo fica virilizado. Se o cabra não tiver sentimento bem cravejado com prego dobrado não vai dois dias. Abraça a loucura e casa com a doideira. Opção é o que não falta. Querem testar o limite da criação e vislumbrar a possibilidade. Tudo é motivo para oprimir. Caso dê ouvido, oprimem dizendo que estavam com a razão. Se fechar os olhos, oprimem dizendo que és incapaz. Poderia aproveitar para vender algo aqui. Esse espaço ficou ótimo para um pequeno buzz. Melhor não. Não vou misturar as coisas. Basta dizer que ando completamente junto e misturado. Sinto falta do tempo que conseguia escrever enquanto voava. Era tão bom. Quase sempre ao cair quebrava a cara. Mas era possível fazer uma letra e viver dela o resto do ano. Exaltavam a grande façanha. Liam, maravilhados aquela letra. Para alimentar a esfomeada Mídialivre o infeliz faz um punhado de letra dia e noite. Um alqueire de letra hoje em dia vale, quando muito, um sopro de apagar chama de vela. Obrigando o infeliz a escrever incansavelmente. Rumo à completa exaustão. Ainda bem que desisti de ser escritor a tempo. Tenho certeza absoluta que não suportaria viver em meio a tantas letras que gritam e cérebros torturados. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado

Edição EDIÇÃO 16959




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