ILUSTRADO
Sábado, 25 de Julho de 2015, 12h:52
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PERSONALIDADE
Roberto França é a voz que não se cala
Jogador, técnico e comentarista esportivo, França é uma das personalidades da era de ouro do futebol em MT
JOÃO BOSQUO
Da Reportagem
O radialista, comentarista de futebol, agora apresentador de TV, líder entre todos os programas regionais, batendo de frente com as novelas da poderosa Organizações Globo, Roberto França é um autêntico cuiabano. França nasceu na Rua de Baixo, centro de Cuiabá, e estudou em escola pública, Colégio Estadual de Mato Grosso, Escola Barão de Melgaço e, nas horas de folga, praticava os jogos nos campinhos de pelada. Antes, porém, dois singelos detalhes fizeram o jovem gostar ainda mais do futebol. Na rua em que morava, era vizinho da casa de Baissiri um dos ídolos do Atlético Mato-grossense e, em frente, era a casa de Traçaia, irmão da histórica Preta. José Roque Paes, o Traçaia, pra quem não sabe, lembra Roberto França, foi o primeiro atleta mato-grossense exportação e ultrapassou as fronteiras do Estado. Aqui jogou no Mixto, Dom Bosco e, em 1954, no jogo de despedida de Geninho, estreia no Botafogo do Rio. No ano seguinte transfere-se para o Sport de Pernambuco, clube pelo qual jogou sete temporadas, de 1955 a 1961, tornando o maior artilheiro de todos os tempos do Sport Recife e fez quatro jogos pela Seleção Brasileira. Em 1962 foi para o FC Admira Wacker Mödling da Áustria, clube no qual se despediu do futebol. O Baissari, quando saia para o treino no Atlético Mato-grossense cujo dirigente era Macário Zanacape dos Santos Pires, convidava o guri Roberto para assistir aos treinos e dali nasceu a paixão dele pelo futebol e, quando chegou na adolescência, começa a jogar nas equipes do Colégio Estadual e, um pouquinho mais tarde, foi levado para jogar no aspirante do Mixto Esporte Clube, do professor Ranulfo Pais de Barros. Como todos os iniciantes, sonhava em ser matador e jogava de centroavante, mas perdia muitos gols e o professor Ranulfo, que além de presidente era treinador, com seu olhar clínico, aconselhou-o a jogar de zagueiro central, até para aproveitar a estatura. Logo, como a carreira de atleta não vislumbrava grande futuro, começa a carreira de técnico de futebol, treinando a equipe de esporte amador do Independente e o Santa Cruz, do Bairro Bom Jesus e, na sequência, a seleção amadora de Cuiabá e, depois, o Palmeiras, chamado por todos Palmerinha, do Bairro do Porto, do compadre e amigo Délio de Oliveira, para onde levou praticamente a equipe completa da Seleção Amadora. Não se tinha salários. A remuneração era a divisão das rendas apuradas. O que cabia ao Palmeiras era rateado entre os jogadores, separando uma parte para pagar as despesas como lavar os uniformes e assim o time foi vice-campeão nos 250 anos de Cuiabá, perdendo a final para o Mixto por 1x0. Revelamos grandes jogadores dos bairros de Cuiabá que tem muitos talentos e até então desapercebidos. O Palmeiras, como não tinha dinheiro para contratar gente de fora, aproveitava essas revelações das equipes amadoras e montamos uma grande equipe para disputar o titulo, narra. Depois do Palmeiras, treinou o Mixto e o Operário Várzea-grandense. Toda essa fase de jogador e técnico seria uma espécie de preparação na formação do radialista, do mítico comentarista de futebol capaz de analisar uma partida pormenorizada ao fim de cada jogo, meio assim como João Saldanha que, além de jornalista, foi também treinador e falava do futebol com paixão. Essa transição, de técnico para os microfones, tem a chancela do jornalista Eduardo Rueda Saraiva Filho, de estilo inconfundível, que revelou diversos profissionais do rádio mato-grossense. A história narrada de viva voz pelo próprio Roberto França. Ao final de uma partida, o técnico é entrevistado pelo repórter Saraiva ao qual faz uma descrição pormenorizada de tudo que aconteceu durante o jogo. Boa voz, Eduardo Saraiva não teve dúvidas e sugeriu a contratação do jovem técnico para ser membro da equipe que já tinha, além do Saraiva, o Márcio de Arruda (o categoria que não muda), Antero Paes de Barros, Edipson Morbeck, Pedro Silva, sob o comando de Eugênio de Carvalho, que arrendava o horário na emissora. Sugestão acatada, Roberto França é contratado para ser repórter e fazer a cobertura o esporte amador. No período, o grande ídolo do rádio era Ivo de Almeida dono da Equipe da Peteca cujo ponto forte era justamente o futebol amador e na RVO não tinha esporte amador. Eles precisavam de alguém para abrir a porta do amadorismo e França chegou com essa chave. Mais tarde vai formar a sua própria Equipe 1300, na Rádio Cultura, onde fica por um quarto de século, e por ela passaram nomes como João Dorileo Leal. Roberto França conta que essa equipe cobria os grandes eventos, inclusive nacionais, as decisões dos campeonatos do Rio, São Paulo. E por causa da cobertura que se fazia da seleção canarinho, a Equipe 1300 foi contemplada pela CBF com um convite para fazer a cobertura do jogo da Seleção contra o Chile, no Estádio Nacional. Foi ele e Rui Pimentel no mesmo avião fretado que levava os grandes nomes do rádio nacional: Fiori Gigliotti, Jorge Cury, Haroldo Fernandes, Waldir Amaral, entre outros. A equipe comandada por Roberto França era ousada. No dia 25 junho de 1995 fez uma coisa inédita em termos de transmissão: quatro jogos ao mesmo tempo. A decisão dos campeonatos Gaúcho, Inter e Grêmio com Jota Márcio; Mineiro, Cruzeiro e Atlético, com Ademir Rodrigues; Paulista, Corinthians e Santos, com Edivaldo Ribeiro; e Carioca, aquele que Renato Gaúcho tira o título do centenário do Flamengo com o gol de barriga, com Márcio de Arruda. Os quatro narradores, um passava a bola pro outro, fazendo uma transmissão espetacular. Essa eu não esqueço nunca, afirma. Roberto França nesse período comandava o Musibol Esportivo, aos domingos, a partir do meio dia, até momentos antes do inicio do jogo. Com reprise de gols narrados pelo locutor escalado para o dia, músicas e participação do ouvinte por telefone. Durante os jogos, sorteio de prêmios, tudo isso com o objetivo de atrair a audiência. Com três emissoras Difusora, RVO e Cultura tendo o futebol como foco, com programas diários e cobertura dos clubes que viviam a era de ouro futebol mato-grossense, tendo os estádios Presidente Dutra e Governador José Fragelli, o Verdão, como palcos dos grandes espetáculos.