ILUSTRADO
Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009, 08h:33
A
A
DVDs
Pulsante criatividade, algo raro de ver
O premiado Valsa com Bashir (melhor filme estrangeiro/2008), Lady Chatterley; baseado em D.H Lawrence, e Luz Silenciosa, são avaliados
Juarez Compertino
Especial para o Diário de Cuiabá
Um dos projetos mais originais dos últimos anos, recompensado com o Globo de Ouro e indicado ao Oscar 2009 de Melhor Filme Estrangeiro, Valsa com Bashir (Vals Im Bashir, Israel, 2008 / Sony) mescla documentário e animação para criar uma experiência diferente de tudo que o espectador já testemunhou, ponto final. Inspirado em fatos reais, o filme aborda o conflito entre Israel e Líbano sob um ponto de vista muito particular, pessoal mesmo, do seu diretor Ari Folman, um veterano israelense da 1º Guerra do Líbano e, hoje, escolado especialista no cinema-verdade, que conta o seu retorno ao próprio passado, há muito esquecido, como forma de exorcizá-lo. E faz isso de um jeito muito criativo com uma mistura bem alinhavada do real com o surreal, o pessoal e o político, animação e realidade. Folman partiu de uma situação muito especial. Um dia, um amigo contou que sempre tinha o mesmo sonho, em que era perseguido por 26 cães. Toda vez, esse mesmo número. Ambos concluem que o pesadelo estava relacionado com uma missão que tiveram no Líbano, no começo dos anos 1980, quando estavam no exército. Folman percebeu que não tinha nenhuma recordação do período, que tinha apagado quaisquer memórias, certamente marcantes daquela fase. Começou, então, a buscar amigos e companheiros da época, na tentativa de tecer uma memória completa e preencher o vazio que o atormenta e, em ultima instância, investigar sobre si próprio em meio ao Massacre de Sabra e Shatila, em Beirute, quando forças da Falange Libanesa invadiram campos de refugados palestinos para, na falta de uma definição melhor, praticar limpeza etnia. A cada novo depoimento, sua memória é reconstruída numa experiência que traz inúmeras e dolorosas lembranças à tona, levando-nos do passado ao presente nas imagens fluídas e estranhamente melancólicas deste inovador e devastador documentário-animação visualmente impactante sobre os horrores de um conflito que, a lembrar o noticiário dos 95 corpos encontrados nos escombros de um prédio destruído por militares israelenses na Faixa de Gaza, na invasão de dezembro e janeiro últimos, está longe de abandonar aquela região do planeta. A formidável técnica de animação feita de cores fortes e traços expressionistas cria um efeito lúdico, de distanciamento, como se tudo aquilo que desfila na tela fizesse parte de outra realidade, algo impossível de acontecer na vida real. Quando finalmente a vida real invade o mundo de sonhos de Valsa de Bashir, já no finalzinho do filme, a força de sua contundente condenação à estupidez da guerra se torna ainda mais forte. A edição do DVD traz farto material extra sobre a produção (making of., entrevistas com o diretor e a equipe técnica, a construção das cenas-animatics, entre outros).