Acordei pela manhã enroscado na noite anterior. Abri os olhos e vi uma cortina desconhecida que bailava descontraída para mim. No silêncio agudo o pensamento saltitava numa libertinagem bandida. Fiquei escutando o odor da safadeza cada vez mais presente em minha vida. O braço esquerdo totalmente esmagado por um peso delicado e ardente que respirava com total sofreguidão totalmente agasalhado em meu peito. Um perfume de fêmea futricava o quarto e estimulava os sentidos. Uma mecha de cabelos negros escorria em meu rosto iniciando uma coceira besta na minha mente maligna. Senti o sangue queimar a veia quando numa displicência feminina a perna macia como o orvalho roçou a minha paciência num carinho quase imortal. Pensei em fugir da cena do crime com apenas um gesto, um banho e um adeus. Era mais uma dama e uma cama que ficaria para trás. Olhei um pé de sapato me olhando numa expectativa inútil apoiado numa meia preta solitária. Poderia economizar o banho e sair à francesa. Olhei ao redor e não consegui alcançar o outro lado do sapato. Certamente estaria envolto em algum esconderijo secreto e eu não estava em condições de perder tempo com uma extensa busca. Desisti de partir no anonimato. Percebi que meu corpo pedia para ficar. Consultei o sentimento e me perdi na resposta. Enquanto o tempo passava numa vadiagem bandida embaralhei na vontade de amar mais um pouquinho. Aquele cheiro de segredos desvendados permitia uma ilusão de paixão. Minha cabeça era um mix de chocolate com ternura. Naquele momento não estava em condições de optar por nada que não fosse parte daquele desejo febril que interpretava outras teorias. Pensei que aquela fraqueza pertinente poderia acabar com o meu sábado. Lembrei que logo mais a noite poderia ser mais estimulante. Novamente aquele cheiro de fêmea afogada em prazer me arrastou para aquela cama onde estava servindo como travesseiro para aquele anjo que dormia embalada pelas nuvens mais coloridas do universo. Escorreguei lentamente a minha mão naquela pele macia em direção daqueles dois picos gulosos que beijavam o paraíso. Um breve suspiro assanhou o corpo que espreguiçou numa sutileza que me deu plena certeza de que mais vale um pássaro nas mãos que mil andorinhas em pleno vôo. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado
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