ILUSTRADO
Sábado, 05 de Março de 2011, 12h:28
A
A
SODRÉ
Peão do Nada, Rei do Verso
Marinaldo Custódio*
Especial para o Diário de Cuiabá
Certa vez, escrevi numa resenha a propósito do lançamento do livro Empório Literário, de Antônio Sodré, que o autor tinha um ar assim "meio doido". Zeloso pela ordem das coisas do mundo e politicamente correto, como, aliás, costumam ser os editores de periódicos, o editor da revista remendou o texto e omitiu aquele "ar assim meio doido". Hoje, porém, já confortavelmente instalado "do lado de lá", onde não alcança a hipocrisia nem as vãs vaidades do mundo, onde os valores de nosso mundo humano de nada valem, penso que o Sodré nem um pouco há de se importar com esse rótulo, e até mais: certamente estará de inteiro acordo se eu o chamar, aqui, não apenas de "meio doido", mas, sim, de "muito doido". Porque, convenhamos, outra coisa não era aquele amigo: culto sem ter concluído nenhum curso universitário, teimoso como uma mula, mas também às vezes complacente com os outros mortais, poeta genial, filósofo duvidoso, artista plástico temporão, ator, cantor e compositor singularíssimo. Após o seu enterro, bebendo num bar do Boa Esperança com amigos e amigas celebrando a sua memória, como ele mesmo faria se voltássemos do enterro de outro amigo, eu disse, sem nenhuma demagogia e sem nenhuma autocomiseração, que nenhum de nós (Eduardo Ferreira, Ana Amélia, Lorenzo, Eliete, Luiz Renato, Bia, Toninho, eu ou Danilo Fochesato, entre outros) tem nem sequer a sombra do poder catalisador que tinha o Sodré, de fazer gravitar em torno de sua frágil figura todo um mundo de arte e cultura, de atrair num redemoinho criativo todas essas pessoas citadas e "mais trocentas", num vertiginoso movimento incendiado por sua calma aparente. Entre outras coisas, Antônio Sodré gostava de jogar xadrez. Fazia parte, aliás, daquele seu jeito muito zen, muito oriental de ser. Paciente, aceitava o tempo e seu passar inexorável, daí, certamente, seu amor por esse jogo de paciência e de inteligência. Era capaz de emendar, por exemplo, tarde e noite numa sequência de partidas com algum amigo ou amiga, esquecido, até, do seu querido ganha-pão: o comércio de livros na inefável Banca do Sodré, na rampa do Instituto de Linguagens (IL) da UFMT, em Cuiabá. Por mim, ele conservaria, até o fim, a designação original, e extraoficial, do seu sebo: Tapete Voador, quando ainda não tinha balcão nem estante e os livros eram expostos mesmo num tapete estendido no chão dos corredores do IL. Também, por mim, ele sempre seria "Antônio Sodré, El Poeta de La Transmutación", assim, com o título em espanhol, nunca O Poeta da Transmutação que passou a adotar dos anos 90 para cá. Achava-os, ambos (Tapete Voador e El Poeta de La Transmutación) muito mais fortes e poéticos e mágicos que os seus sucedâneos, mas quem disse que ele quis atender alguma vez aos meus apelos? Teimoso como uma mula, seguiu sua luz, impassível como um Buda, imprevisível como uma divindade de nossas matas tropicais. Do jogo de xadrez, tirei o título desta crônica: "Peões do Nada", do persa Omar Kháyyám, é mesmo uma preciosidade (ver destaque). A outra parte do título de meu texto, bem, aí é mais fácil ainda a explicação: pegue os livros publicados de Antônio Sodré (Besta Poética e Empório Literário) e leia. Sem nenhum favor e sem nenhuma necessidade tola de "carregar nas tintas" pelo fato de nosso amigo ter morrido assim de supetão, acho que, ao menos na contemporaneidade, na atual poesia mato-grossense, não tem ninguém que se iguale, em estatura e profundidade, ao bardo nascido em Juscimeira, filho de Seu Jorge e Dona Joaquina, e morador da sugestiva Rua da Paz, no bairro Pedregal, em Cuiabá, Mato Grosso. *Marinaldo Custódio é escritor e colabora com o DC Ilustrado