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ILUSTRADO
Terça-feira, 24 de Março de 2009, 20h:28

DVDs

Os Coen estão mais doidos do que nunca

De volta aos holofotes num pique total, os premiados irmãos Coen estão mais endiabrados do que nunca com “Queime Depois De Ler”, filme que reúne um grande elenco

Juarez Compertino
Especial para o Diário de Cuiabá
Com bateladas de Oscars nas mãos pelo pesado e brutal “Onde os Fracos Não Têm Vez”, havia quem esperava que os irmãos Joel e Ethan Coen (“O Homem Que Não Estava Lá”, “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, “O Amor Custa Caro”), se tornassem cineastas sérios. Com o sucesso do filme, a dupla de diretores/roteiristas poderia pegar o embalo e mandar outro thriller no estilo (do insuperável) “Fargo”. Mas, eles estão pouco se lixando para a fama. Ainda bem. De volta aos holofotes num pique total, os Coen estão mais endiabrados do que nunca com “Queime Depois De Ler” (Burn After Reading, EUA, 2008/Universal), um thriller de humor negro movimentado por uma galeria de personagens tão excêntricos quanto disparatados, personificados com atuações brilhantes e impagáveis por um elenco estelar e muito charmoso e com o mínimo de apelo hollywoodiano. Aqui, os idiotas têm vez. Cada um deles é um poço de estupidez ao seu modo. Repleta de surpresas, a trama, tão absurda quanto envolvente, é um emaranhado de acasos emendados com genialidade. O foco está num CD encontrado por dois amigos e funcionários de uma academia de ginástica, Linda Litzke (Frances McDormand), mulher obcecada por fazer plásticas que vive tentando encontrar marido pela internet, e Chad Feldheimer (um surpreendente e notável Brad Pitt), sujeito bom samaritano, chorão e abobado. Nele, o ex-agente Osbourne Cox (John Malkovich, sempre de roupão por cima do pijama) faz revelações supostamente comprometedoras da CIA – demitido por alcoolismo, ele quer se vingar ao relatar os podres da agência em um livro de memórias. Com o segredo do ex-espião descoberto, Linda e Chad decidem usar o CD e chantageá-lo para ganhar uma grana extra. Não sabem, porém, a encrenca que vão se meter. Para piorar o interno astral de Cox, ele descobre que sua enfastiada mulher, a pediatra Katie (Tilda Swinton) o traí com outro, Harry Pfarrer (George Clooney), um agente federal casado que, além de Katie, sai com mulheres que garimpa pela internet. Uma delas é Linda. Os fatos crescem como uma bola de neve e pode ter conseqüências que afetam radicalmente os personagens envolvidos. O roteiro amarra as idas e vindas dessas distintas pessoas em um novelo de burrice. Para rir do próprio absurdo da trama, os Coen coloca dois agentes da Agência de Inteligência (David Rasche e J.K Simmons, em diálogos engraçadíssimos) analisando o desenrolar da situação com a mesma perplexidade de quem está do lado de cá. Confuso? Certamente. Aleatório? Jamais. A intenção é entreter. Mas em cada piada há uma alfinetada na sociedade americana. A CIA é retratada como um órgão obsoleto, perdido em meio a teorias conspiratórias. O culto excessivo ao corpo e o sexo virtual também não escapam do olhar critico dos cineastas. Os Coen dirigem com aquela energia e ritmo das comédias alopradas de outrora enquanto, aqui e ali, deixam aflorar a tristeza intrínseca de seus personagens, corroídos pela solidão, falta de romantismo e uma boa dose de frustração. Hilariante, “Queime Depois de Ler”, com sua história banal sob um viés original, é uma pequena obra-prima que comprova que os Coen ainda são brisa rara entre tantas mentes esmorecidas de Hollywood. A edição em DVD traz farto e interessante material extra sobre a produção do filme.

Edição EDIÇÃO 16964




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