ILUSTRADO
Sábado, 28 de Março de 2009, 13h:02
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LIVRO
Os caminhos para a ópera brasileira
Obra reúne textos de vários autores que, com imaginação, desvendam a harmonia de uma nobre arte
Ubiratan Brasil
Agência Estado
João Luiz Sampaio é repórter do Caderno 2, do jornal "O Estado de S. Paulo", dramaturgo nas horas vagas, e crítico de música erudita, arte que inspira também os comentários de seu blog. Suas palavras são reveladoras - foram elas que provocaram a demissão do maestro John Neschling como regente da Osesp. Também elas apresentaram pela primeira vez as impressões de seu sucessor, o francês Yan Pascal Tortelier. É ainda um wagneriano e um grande entusiasta, como prova o livro "Ópera à Brasileira", lançado recentemente. Trata-se de uma obra em que Sampaio reúne textos de um punhado de admiradores que, como ele, têm imaginação, engenhosidade, senso de cor e ouvido para desvendar a harmonia de uma nobre arte. Mais: disposição para enfrentar uma luta inglória, ou seja, defender uma política governamental que fomente a criação e a difusão da ópera no Brasil. No texto de introdução, ele diz que nunca se produziu tanta ópera e com tamanha qualidade no País como nos últimos anos. "Mas, quanto mais se produz ópera, mais se descobre, no dia a dia das instituições, os entraves a seu bom funcionamento." Sampaio, assim como os demais autores dos textos que compõem o livro, defende que a ópera trata essencialmente de temas universais e, ao reunir qualidades de diversas artes, resulta em uma obra extremamente contemporânea, capaz de dialogar com a época atual - e, principalmente, com a emoção do público. Basta, como exemplo, sua própria lembrança: foi uma ópera de Wagner que deixou Sampaio totalmente apaixonado pela arte. Emoção semelhante vivida pelo historiador e professor Renato Rocha Mesquita que, no texto "O Olhar do Fã", revela como uma apresentação um tanto precária de "O Barbeiro de Sevilha", vista nos anos 1960, foi capaz de lhe despertar nova paixão. Algo tão avassalador que o fã se impõe acumular conhecimentos, buscar detalhes, destrinchar partituras. E, assim, alguns se tornam especialistas, impagáveis em suas análises. É o caso de Lauro Machado Coelho, crítico musical do Caderno 2, que, em seu texto "O Triunfo do Bom Senso", enumera importantes observações sobre erros e acertos dos encenadores, especialmente os que deixam a impressão de não terem lido o libreto da ópera antes de conceber o "conceito" da montagem. "Comédia involuntária é o que os diretores provocam com algumas de suas escolhas abstrusas", escreve. "Colocar o pintor Marcello de camiseta, no primeiro ato da 'Bohème', dependurado num trapézio, cantando Rodolfo, io ti dirò un mio pensier profondo: hò un freddo cane!, só pode suscitar risos." Autor de uma obra seminal, "História da Ópera" (Perspectiva), coleção que já soma 11 volumes e prevê mais 4, Lauro Machado Coelho é elucidativo também ao comentar sobre o sucesso da transposição no tempo de determinadas óperas. Ou ainda ao afirmar que uma produção bonita não é, necessariamente, sinônimo de uma montagem adequada. "Para se fazer uma boa encenação de ópera, basta ter bom senso e bom gosto", ensina. O aprendizado vem tanto do estudo como da vivência, facilitada, no Brasil, pela boa quantidade de montagens, especialmente em espaços especiais. É o caso do Teatro Amazonas, de Manaus, cujo nascimento se confunde com o auge do ciclo da borracha, no fim do século 19, conforme relata Irineu Franco Perpetuo em "Os Novos 'Fitzcarraldos'". A partir do delírio do personagem imortalizado pelo filme de Werner Herzog, ele traça as desventuras de se levar a ópera ao coração da selva amazônica, como o projeto revolucionário de se montar a tetralogia wagneriana "O Anel do Nibelungo", um feito grandioso e à altura de visionários, como os são os autores desse livro. SERVIÇO - "Ópera à Brasileira". Organização de João Luiz Sampaio. Algol Editora. R$ 45, 200 páginas