ILUSTRADO
Sexta-feira, 01 de Novembro de 2013, 19h:11
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A CIDADE VIVE DOS QUE VIVEM E VIVERAM NELA
Odare Vaz Curvo: O líder do Porto que foi vereador, vice Prefeito e Prefeito de Cuiabá
EVALDO DE BARROS
Especial para o Diário de Cuiabá
A União Democrática Nacional - UDN eliminada do cenário político brasileiro pela ditadura militar contava, no bairro do Porto, dentre outras lideranças, com três nomes que ficaram na nossa história: Justino Malheiros, Wilson Pereira Padilha e Odare Vaz Curvo. Um fazendeiro, outro empresário no ramo de auto peças e outro cirurgião dentista e violinista nas horas vagas, formavam o trio que alavancava vitórias do partido do Brigadeiro Eduardo Gomes no importante segundo distrito de Cuiabá. Sim, o populoso Porto era o segundo distrito e o resto da cidade primeiro distrito. Nasci no Porto com muito orgulho e me sinto plenamente realizado em ter nascido no segundo distrito, exatamente aquele onde está o rio Cuiabá. Vamos falar hoje de Odare Vaz Curvo: um homem de bem, sério e bravo mas leal e companheiro! O seu filho caçula Dr. Roberto Tadeu Vaz Curvo, engenheiro civil primeiro e advogado depois, hoje Defensor Público, vai nos relatar com a emoção e o orgulho que tem do pai, a trajetória do Dr. Odare Vaz Curvo. DC ILUSTRADO: Fale-nos, Dr. Roberto, do seu pai. Dr. ROBERTO: Meu inesquecível pai nasceu em Cuiabá no dia 17 de abril de 1917 e era filho de José Vaz Curvo e de D. Aurora de Matos Curvo. Estudou na famosa escola Grupo Escolar Senador Azeredo (Peixe Frito), depois foi para o Liceu Cuiabano e finalmente formou-se cirurgião dentista pela Faculdade de Farmácia e Odontologia do Rio de Janeiro e o seu diploma foi expedido em 29 de março de 1944. Eram seus irmãos: o general Vaz Curvo, José Vaz Curvo Filho, Lauro Vaz Curvo e Mauro Vaz Curvo. DC ILUSTRADO: E o casamento do Dr. Odare? Dr. ROBERTO: Papai casou-se com minha mãe D. Mery Affi Vaz Curvo no dia 08 de setembro de 1945 e dessa união teve o casal três filhos: Ana Teresa Biancardini, José Eduardo Vaz Curvo e Roberto Tadeu Vaz Curvo. O casamento, com uma integrante de outra família tradicional e numerosa, aumentou consideravelmente o nosso círculo familiar e, lógico, as nossas responsabilidades sociais. DC ILUSTRADO: O consultório do Dr. Odare era no Porto? Dr. ROBERTO: Papai sempre teve consultório na Av. XV de novembro onde moravam os Vaz Curvo, quase na beira do rio Cuiabá. DC ILUSTRADO: E a política, como surgiu? Dr. ROBERTO: Atuando na área de saúde pública e atendendo uma clientela cada vez mais numerosa creio que o relacionamento direto com o povo despertou nele a vocação política. Em 1947 papai se elegeu vereador como o segundo mais votado. Em 1954, fazendo dobradinha com o Dr. Garcia Neto, elegeu-se vice Prefeito de Cuiabá. Nessa condição assumiu a Prefeitura Municipal de Cuiabá tendo sido o nosso Prefeito. Papai foi também Diretor da Caixa Econômica Federal, Diretor e Presidente do Instituto de Previdência do Estado de Mato Grosso IPEMAT -. DC ILUSTRADO: Ele era um homem de temperamento forte, não? Dr. ROBERTO: Realmente, o meu pai não ofendia, mas também não aceitava desaforo. Acho que seguia a velha regra cuiabana do bateu levou. Talvez, por isso mesmo, por causa dessa sua maneira de tratar bem as pessoas mas exigir reciprocidade dos outros, papai tenha falecido prematuramente, aos 55 anos de idade, em 12 de março de 1972. DC ILUSTRADO: Mas ele tinha o seu lado lúdico
Dr. ROBERTO: Papai era um homem bom e amoroso. As exaltações, quase sempre, eram respostas às provocações. Ele pertencia ao Conjunto Serenata, tocava violino com Tote Garcia, Hermínio Silva e Nilson Constantino. Esse Conjunto Serenata animou as festas em Cuiabá, fazia apresentações no rádio e até gravou um Long Play produzido pelo saudoso Rabelo Leite, intitulado Rasqueados Cuiabanos. Desse conjunto, se bem me recordo, faziam parte: Vicente, Gigo, Hélio Japonês, Tunta, Paulito, Loly, Costinha, Nany Ourives, Tote Garcia, Nilson Constantino, Hermínio Silva, Odare Vaz Curvo
Meu pai era associado do Centro Artístico e Musical de Cuiabá e foi eleito seu presidente no dia 12 de abril de 1951. Sinto muitas saudades dos meus pais e me orgulho de minha ascendência. Minha mãe D. Mery, chamada pelos irmãos dela de Bimbim, era um doce de pessoa. Aliás foi emocionante a surpresa que o Conjunto Serenata fez ao meu pai no dia 17 de abril de 1971, aniversário dele. O grupo chegou tocando e o papai, de dentro de casa, também tocou o seu violino e foi abrir a porta. Depois entoaram o parabéns a você. Um espetáculo que guardo na memória. Quase um ano depois, o papai nos deixou. DC ILUSTRADO: Fale-nos um pouco da sua vida Dr. ROBERTO: Devo dizer que sou o filho caçula do Dr. Odare e de D. Mery (Bimbim). Minha irmã Ana Teresa sempre foi companheira e amiga além de ser uma das mulheres mais bonitas de Cuiabá. O meu falecido irmão Dr. José Eduardo Vaz Curvo era médico psiquiatra, ex Diretor Clínico do famoso Hospital Psiquiátrico Pinel, do Rio de Janeiro. Retornando a Cuiabá foi dirigir o Adauto Botelho e revolucionou o tratamento, pois criou as festas de carnaval, natal, São João etc. para os internos. O fato está registrado no livro do Silva Freire Na moldura da lembrança, assim:
o jovem médico José Eduardo Vaz Curvo criou o carnaval terapêutico, cujo trabalho virou tese em simpósio internacional. É como disse a Diná Silveira, em sua coluna dO Jornal, no Rio: Só um médico curvo (ele é Vaz Curvo) para criar essa saída tão reta. Nasci em 27 de abril de 1954 e estou bem casado, desde 24 de julho de 1970, com a cuiabaníssima Dra. Rosana Chiavelli Vaz Curvo, que é engenheira agrônoma. Temos dois filhos adorados: Mauro Roberto Vaz Curvo e Renato Tadeu Vaz Curvo. Formei-me em engenharia civil e quando vi que estava fora da minha praia fui estudar Direito. Depois me tornei Defensor Público. DC ILUSTRADO: O sr. já foi o Chefe da Defensoria, pois não? Dr. ROBERTO: Tive a honra de ser o Defensor Público Geral do Estado de Mato Grosso e inscrevi o meu nome na história da nossa instituição. Muito já se fez pela assistência judiciária, mas há muito por fazer. De repente aparece um governador com vontade política e vai fazer chover na nossa horta. Ser Defensor Público não é um trabalho fácil. É preciso que a pessoa tenha, principalmente, amor ao próximo para encarar o desafio. DC ILUSTRADO: O sr. foi Defensor Público Interamericano? Dr. ROBERTO: Com muita honra fui exercer o mandato de três anos de Defensor Público Interamericano. É um trabalho extremamente gratificante. DC ILUSTRADO: Como é essa corte? D. ROBERTO: A Corte Interamericana de Direitos Humanos tem sede em São José da Costa Rica. É composta por sete juízes com mandatos de 6 (seis) anos. Para encampar as defesas dos hipossuficientes a Corte conta com 19 Defensores Públicos recrutados entre os países integrantes do tratado para um mandato de 3 (três) anos. Um desses 19 defensores, para abrilhantar o meu curriculo de vida, fui eu. Criada em 1979 e composta por juristas de elevada reputação moral e reconhecida competência, a Corte Interamericana de Direitos Humanos é uma instituição judicial autônoma da Organização dos Estados Americanos (O. E. A.) e tem a finalidade de aplicar e interpretar a convenção Americana sobre Direitos Humanos e outros tratados. A Associação Interamericana de Defensores Públicos (AIDEF), por meio de um convenio assinado com a Corte, selecionou Defensores de vários países do continente para trabalharem além de suas fronteiras pela defesa dos direitos humanos. DC ILUSTRADO: E como foi a sua primeira atuação? Dr. ROBERTO: Emocionante, em todos os sentidos.O Consultor Jurídico registrou assim o fato: Depois de 33 anos de criada, pela primeira vez a Corte Interamericana de Direitos Humanos vai contar com a atuação de um brasileiro. O defensor público Roberto Tadeu Vaz Curvo vai atuar em processo sobre violação ao estatuto dos refugiados. Ele é professor de Direitos Humanos e já fez parte do quadro docente da Escola Superior do Ministério Público e da Universidade Federal de Mato Grosso. A corte vai analisar o caso da família peruana Pacheco Tineo, que, em 2001, teve o pedido de refúgio recusado pelo governo da Bolívia. Além de Roberto Tadeu, também foi selecionado o defensor público do Paraguai, Gustavo Zapata Baez. DC ILUSTRADO: Como o sr. se sentiu com essa defesa? Dr. ROBERTO: Senti-me muito honrado de ter atuado nesse julgamento que ocorreu em Medellin na Colombia, nos dias 19 e 20 de março últimos e tenho a clareza de minha responsabilidade não só para o caso que foi discutido na Corte Interamericana mas também ao representar todos os defensores públicos da América. Acho que foi uma vitória a minha participação mas há muito a ser feito visando o fortalecimento da Defensoria Pública no Brasil. Neste mês de novembro iremos ter o desfecho do julgamento. DC ILUSTRADO: Com a experiência adquirida na Corte Interamericana há algum pleito em vista? Dr. ROBERTO: Estou estudando a possibilidade de arguir no Sistema Interamericano a revisão das liminares nas justificações de posse. Nós precisamos achar um meio termo: que garanta o direito a ambas as partes. Concedida a liminar, o autor adota providências que, muitas vezes, fazem desaparecer as provas que seriam produzidas. Derrubam-se casas, os réus saem do local e, em muitas vezes, o desfecho da ação é contrário àquilo decidido na liminar. Como ficam os mais pobres nessa hipótese? Já não tinham bens materiais e perderam também, eventual direito. É uma matéria que exige dever de cautela do juiz e não pode deixar de preocupar o defensor público. Sobretudo quando a parte ré é um grupo de pessoas em condições de vulnerabilidade a situação fica mais delicada para ser enfrentada por liminar. Estou pensando nesse assunto que, reconheço, é complexo e não pode ser confundido com invasão criminosa de grilheiros profissionais patrocinada por poderosos inescrupulosos, gerando violência no campo e na cidade. DC ILUSTRADO: Há pouco tempo o sr. defendeu os direitos dos povos indígenas? Dr. ROBERTO: Recentemente fiz publicar um artigo na imprensa envolvendo o conflito com os índios em Suiá Missu. Se você quiser pode publicar trecho dele. Os direitos dos povos indígenas estão presentes na Constituição de 1988, quanto à sua organização social, costumes, crenças e tradições, além dos direitos originários sobre as terras, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens, entre outros. Aqui, cabe destacar que os direitos originários sobre a terra remontam à formação do Estado brasileiro; estes são reconhecidos pela Carta Política e pelos tratados internacionais dos quais o Brasil é um dos signatários, entre eles destaca-se o atinente à propriedade da terra comunitária, que serve tanto para a subsistência como para a preservação de suas identidades. O fato de impedirem os Xavantes de retornarem à sua Marãiwatsédé tem privado a comunidade às suas práticas, como por exemplo, a de enterrar os seus mortos, conforme os seus ritos e crenças, afetando gravemente sua identidade cultural. É lamentável que o governo do estado de Mato Grosso e alguns políticos não querem reconhecer que é de fundamental importância para esses indígenas viverem em suas terras ancestrais, necessária para sua reprodução física e social, o cultivo e a preservação de seus valores culturais. Violam-se os Direitos Humanos dos índios, submergindo todo um rico patrimônio de saberes transmitidos pelos seus antepassados tais como: a língua materna, religiosidade, medicina, arquitetura, culinária, música, dança, pinturas, atividades esportivas, conservação do meio ambiente e a convivência comunitária pacífica entre eles, em detrimento dos interesses de uma economia excludente e equivocada o agronegócio nos faz lembrar a degradação do meio ambiente, desmatamentos, poluição por inseticidas, mortandade de peixes, trabalho escravo e outras mazelas. Quanto aos poucos posseiros que lá se encontram, tudo leva a crer que foram enganados para cerrarem fila com os mais influentes, servindo de massa de manobra para justificar invasões; poderíamos até dizer que se encontram de boa fé, devendo ser remanejados para projetos de reforma agrária do Incra, ou indenizados, se for o caso, porém devem deixar o local para restabelecer a paz e a dignidade dos índios Xavantes. CONCLUSÃO: Falar do Dr. Odare Vaz Curvo e de sua família foi um prazer enorme. Seguindo os passos do pai o Dr. Roberto Tadeu Vaz Curvo vem brilhando na Defensoria Pública e no magistério superior. E seguindo os passos do pai e do avô, os filhos brilham: Renato Tadeu no serviço público e na internet e o Dr. Mauro Roberto Vaz Curvo, Juiz do Trabalho de Parauapebas/PA, na magistratura. Ainda agora condenou a Vale S/A e uma subsidiária Top Geo a pagarem indenização por danos estéticos a uma trabalhadora atacada por uma onça no trajeto entre a sede da empresa e o refeitório. A decisão teve repercussão nacional, afirmou a presença da Justiça do Trabalho e notabilizou o seu prolator. Gradualmente Cuiabá exibe seus filhos ao Brasil e vamos marcando presença na história contemporânea.