ILUSTRADO
Quarta-feira, 02 de Fevereiro de 2011, 21h:03
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MULTIARTISTA
Obra de Mário Lago é celebrada
Roberta Pennafort
Agência Estado
Não são poucos os nomes da música brasileira que chegam ao centenário com a obra ainda viva, mesmo passadas décadas de sua morte. Ano passado, festejamos Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Custódio Mesquita, Vadico; em 2011, teremos Nelson Cavaquinho e Assis Valente. Mas alcançar essa marca presente no imaginário popular e ainda com material inédito por se revelar, não é algo trivial. Talvez nosso primeiro multiartista, Mário Lago (1911- 2002), compositor, poeta, autor e ator de rádio, fotonovela, teatro, cinema e TV, conseguiu. E graças ao empenho de seus filhos, será revivido de maneira também múltipla: estão previstos documentário, exposição, série de shows, lançamento de dois CDs e reedição de três de seus livros. Para tornar real o projeto "Mário Lago - Homem do Século 20", eles precisam de patrocinadores. Contam que já obtiveram o endosso da Petrobrás, do Sesc e da TV Globo, que empregou seu pai dos anos 60 até sua morte. Também buscaram aprovação para captação pela Lei Rouanet. Talvez a iniciativa mais interessante - e ousada - seja a montagem da peça inédita Foru Quatro Tiradente na Conjuração Baiana, que escreveu nos anos 70. Situada em Salvador no finzinho do século 18, fala da chamada Revolta dos Alfaiates, motivada pelo desejo de independência e de abolição da escravatura. O cenário é o Pelourinho. "Queremos negociar com o governo local e montar no Pelourinho, com um grupo de lá", diz Mário Lago Filho, à frente do projeto. "Ele apresentou à censura e vetaram. Sabia que seria assim, fez para provocar mesmo. Teve só uma leitura, com atores, no teatro Aurimar Rocha (hoje Café Pequeno, no Leblon)." Tendo vivido ardorosamente quase todo o século 20, sonhava pôr os pés no 21. Chegou por pouco. Fumante de garoto aos 77 anos, morreu de enfisema pulmonar aos 90. Dizia - a frase é repetida pelos que falam dele - que fizera um acordo com o tempo: um não se metia com o outro. Driblou-o, tornado-se eterno. Mesmo derrubado com a viuvez (a mulher de cinco décadas morrera em 97), Mário Lago trabalhou até o seu fim, sempre escrevendo à máquina. Ao passar pelo computador da filha, o saudava - "bom dia, excelência!" - e seguia direto.