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ILUSTRADO
Segunda-feira, 05 de Maio de 2008, 19h:37

STEVIE WONDER

O retorno a New Orleans, 30 anos depois

Fera da música negra americana e outros nomes colossais participam de festival na badalada cidade do jazz

Jotabê Medeiros
Agência Estado (EUA)
Foi possível comparar com atenção e delícia todas as pontas mais criativas da moderna música negra americana. Na sexta-feira, a primeira chance: o show de retorno de Stevie Wonder a New Orleans, 30 anos após sua última visita musical à cidade. Naquela época, ele estava simplesmente mudando a face da moderna música universal com canções como "Superstition" (1975), base de toda música para dançar que viria depois. Desta vez, Stevie fez de tudo: chorou ao lembrar da mãe (que morreu no ano passado), brincou, discursou, apresentou a filha cantora, Aisha, e até estancou a chuva que desabava sobre Fair Grounds, o local onde acontece o festival. No sábado, outro fenômeno natural varreu o festival: a banda de hip-hop The Roots, da Filadélfia, grupo que injeta no sangue do ‘rhythm and poetry’ do rap furiosas guitarras de rock e uma inesperada tuba de brass band, além de simular tornados performáticos no palco (e na platéia, já que o tubista da banda atirou-se sobre ela com seu instrumento no meio do show). No meio de tudo isso, ainda teve a New Orleans Jazz Orchestra de Irvin Mayfield, que projeta o jazz para o futuro, misturando as sérias partituras da tradição musical com as brincadeiras e o senso de humor original do gênero. Além de tudo, tomou para si o papel de líder e mentor das novas gerações, o que não deixa de ser um tipo de heroísmo. "A música é a razão pela qual precisamos reconstruir New Orleans", disse. Stevie Wonder estava mais roliço, os cabelos brancos já contaminam seus dreadlocks, mas sua voz está mais envolvente e melódica do que nunca. Ele impressiona sempre como uma força da natureza. Tocou, ao piano e ao teclado Yamaha, canções como "Living for the City", "Master Blaster" e "Superstition", entre outras. Tocou também uma canção que fez para confortar os moradores da cidade pela tragédia do Katrina, "Shelter in the Rain". E aproveitou a deixa para pedir votos para Barack Obama. "Façam a coisa certa por nós, pela América, porque, sim, nós podemos", disse, citando o slogan da campanha obamista ("Yes, we can"). " Não estou dizendo isso contra essa ou aquela pessoa, mas a favor da nossa nação." Ele disse ainda que gostaria que sua terra fosse conhecida não mais por Estados Unidos da América, mas por "Povo Unido da América", por supor que todos, "negros, mulatos, brancos, amarelos", estão unidos pelo "amor de Deus", e que as divisões não fazem sentido. Ao apresentar a filha, Aisha, que iniciou o show tocando o teclado, ainda brincou, advertindo os "gaviões" para ficarem longe da garota. O show do The Roots foi, para dizer o mínimo, rock’n’roll. Poucos grupos de hip-hop causam tanto impacto hoje em dia. Liderado pelo rapper Black Thought e pelo baterista Questlove, a banda fez um show que tinha como base seu disco recém-lançado, "Rising Down" (cuja capa estampa um desenho de um negro gigante, caracterizado como um monstro vampiresco, perseguindo cidadãos brancos minúsculos, como anões). Amparados por riffs de guitarra que remetem ao melhor do hard rock, com uma lírica direta, crua, The Roots passa como uma trituradeira pelos ouvidos e pelos quadris, e colocou uma multidão para cantar e dançar na lama que se formou no palco Congo Square, onde tocavam, com petardos como "The Pow Wow" e "75 Bars (Black Reconstruction)". E, parodiando o Obelix, é preciso dizer que esse povo de New Orleans é mesmo muito louco. No meio da semana, quando instalavam o maior palco do festival, descobriram no meio da platéia um ninho de pássaro. Não tiveram dúvidas: construíram um cercadinho para proteger a ave, uma fêmea de marreco, que já estava começando a chocar os nove ovos. Assim, durante os concertos, era preciso desviar da estrutura, que recebeu faixas da polícia de New Orleans e um aviso: "Please, leave the nesting bird alone" (Por favor, deixe o ninho do pássaro em paz). Contudo, a marreca, dona dos ovos, não mais voltou ao ninho, que ficou ali abandonado. Para os freqüentadores, ela teria adotado um comportamento de diva do jazz, e a marreca recebeu até o apelido de Dinah, homenagem à cantora Dinah Washington. E teve o burburinho com o galã hollywoodiano Jude Law. O homem chegou de surpresa - tentou assistir incógnito ao show de Irvin Mayfield com a New Orleans Jazz Orchestra, na tarde de sábado. Ele chegou pelo meio da platéia do show de Mayfield, sem segurança, e instalou-se entre senhoras da comunidade. Estava de óculos escuros, pensou que era um disfarce. Logo foi reconhecido e cercado. Irvin Mayfield e sua Jazz Orchestra fizeram um show inesquecível. Ele iniciou com um discurso ultrapolítico e advogou em causa própria, a de construir o maior centro de referência do jazz em Nova Orleans (o que inclui o primeiro museu do mundo no lugar que justamente inventou o gênero). "A música é a única razão pela qual nós precisamos reconstruir New Orleans", discursou. E brincou com a natureza, que despejou muita água na cidade a noite passada. "Vamos tocar agora "Somebody Forgot to Turn the Faucet Off" ("Alguém Esqueceu a Torneira Aberta"). Para a gente lembrar do que acontece quando chove muito em New Orleans", disse.

Edição EDIÇÃO 16962




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