Morreu neste domingo (14) o pesquisador indígena Mairu Hakuwi Kuady Karajá, que fazia doutorado em direito em Paris, na França, e se tornou referência para jovens de povos originários.
A morte foi confirmada pelo MPI (Ministério dos Povos Indígenas). Em nota publicada neste fim de semana, a pasta lamentou a perda do pesquisador, intelectual indígena e defensor da cultura do povo Karajá.
Mairu era natural da Terra Indígena São Domingos -Krehawã, em Mato Grosso. Ele era graduado em Relações Internacionais pela UFT (Universidade Federal do Tocantins), mestre em Direito pela UnB (Universidade de Brasília) e doutorando na mesma área.
O pesquisador desenvolveu parte do doutorado na Universidade Paris 8 Vincennes-Saint-Denis, na França. Ele havia sido selecionado para um programa de mobilidade acadêmica voltado a indígenas da pós-graduação.
Mairu se tornou referência para jovens indígenas de diferentes povos. Segundo o MPI, ele mostrou que a ocupação de espaços acadêmicos e institucionais pode caminhar junto com o fortalecimento das identidades, das línguas e dos conhecimentos ancestrais.
O ministério prestou solidariedade à família, aos amigos, aos colegas de pesquisa e ao povo Karajá. A pasta também destacou o legado intelectual de Mairu e sua atuação na defesa dos direitos dos povos originários.
Mairu deixou a comunidade aos 16 anos para continuar os estudos. Incentivado pela avó, recebeu uma bolsa para estudar em um internato em Abadiânia, Goiás.
O português era a segunda língua dele quando saiu da aldeia. Na comunidade, falava-se principalmente o iny rybé, língua do povo Iny Karajá, usada também na escola indígena.
Para permanecer no internato, ele conciliou as aulas com o trabalho. Mairu realizava serviços no próprio estabelecimento para ajudar a pagar as despesas escolares. "Quando eu saí da aldeia, não tinha perspectiva de ir para a graduação porque achava algo muito distante", afirmou em entrevista publicada pela UnB em 2023.
Mairu integrou a primeira turma de Relações Internacionais da UFT. Depois da graduação, foi aprovado nos programas de mestrado em Direito da UFG (Universidade Federal de Goiás) e da UnB, onde decidiu estudar.
Ele ingressou na pós-graduação da UnB em 2020. Durante a pandemia, retornou à comunidade indígena e permaneceu próximo de seu povo enquanto acompanhava as atividades acadêmicas de forma remota.
Mairu foi um dos quatro indígenas da pós-graduação selecionados no Brasil pelo programa Guatá. A iniciativa da Embaixada da França previa uma permanência de 11 meses na Universidade Paris 8.
A pesquisa dele abordava a participação indígena na política nacional. Outro eixo analisava os conflitos provocados pelo arrendamento de terras indígenas na Ilha do Bananal, no Tocantins.
Mairu alertava que o arrendamento poderia ampliar disputas territoriais e favorecer invasões. A prática consiste na cessão de áreas para uso de terceiros em atividades econômicas e é ilegal em terras indígenas.
Ele relacionava o problema à falta de políticas públicas e de alternativas de renda. Segundo o pesquisador, algumas comunidades recorriam ao arrendamento para movimentar a economia local.




