NA HORA
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Cuiabá MT, Sexta-feira, 12 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 11 de Julho de 2009, 12h:40

RESENHA

O Lobo inacabado

Luiz Moreno*
Especial para o Diário de Cuiabá
Passados mais de 25 anos sem vir ao Brasil, Antonio Lobo Antunes parecia dever explicações a nós, brasileiros, e a si mesmo: visto que cá deixou parentes e lembranças. “Por que tanto tempo sem vir aqui?” Perguntou Humberto Werneck, o mediador da conversa na FLIP 2009, “o outro é mais assíduo hein?”, referia-se a Saramago, antípoda do autor. Calmo, Lobo Antunes respondeu: “O Brasil não é um pais. São os cheiros, os bolos de minha avó, o jeito de meu avô falar”. Resgatou lembranças doces e tristes. Onde estará o Brasil de Antunes, senão em si mesmo? Disse ter medo, medo de quando voltar, não encontrar mais nada. Dada a explicação de sua ausência, Lobo Antunes contou sua trajetória e refletiu sobre o momento de criação. Enquanto falava, Paraty silenciou. Cada frase sua, suas pequenas histórias anedóticas, foram dignas de nota, davam epígrafes. E nós, na platéia, talvez o lembrássemos os versos de Sophia Andresen (os quais Antunes cita em seu livro de estréia, Memória de Elefante): Esta gente cujo rosto / Às vezes luminoso / E outras vezes tosco. Assim se portou Werneck, que oscilava entre perguntas interessantes e futilidades. Via-se que se tratava de um autor de fato, é um dos grandes. Com 21 romances publicados em 30 anos, hoje é um dos escritores contemporâneos mais premiados. Antunes falou. Deixo ao leitor algumas de suas passagens: “- Ouvi dizer que escreve versos, você é viado? Eu não sabia que era, então disse: Não, não.” (em conversa com seu avó ainda garoto). “- Como está saindo seu livro? Uma merda. – Então fico contente.” (em conversa com o editor) “O escritor é um trapeiro, trabalha com as pequenas coisas.” “Quando se está escrevendo bem se tem a impressão que há alguém ditando”. “Não há profundidades. Há infinitas superfícies. Quem estuda o problema a fundo, sai do outro lado.” “Escrever é, sobretudo, reescrever. Ter uma relação humilde ao material.” “Fiel a honra de estar vivo.” “Todo grande livro é, entre outras coisas, uma arte reflexiva e profunda sobre a linguagem.” “Vou escrever um livro para corrigir o anterior, corrigir o anterior... O que nos move é a insatisfação. Quando um livro está enjoado de você, não agüenta mais suas correções: o entregue ao editor. Está definitivamente inacabado.” Ao final, depois de ovacionado, Lobo Antunes volta ao palco para dizer: “Gostaria de agradecer o carinho e a ternura com que me receberam aqui: - Deus lhes pague.” Não há o que temer, reencontrou aqui o seu Brasil, o de suas lembranças. E nós encontramos um escritor, com a força que carrega esta palavra e com a definitiva incompletude necessária. *Luiz Moreno Guimarães Reino é formado em psicologia pela Universidade de São Paulo, psicanalista, estudante de lingüística (USP) e colabora com o DC Ilustrado

Edição EDIÇÃO 16961




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