ILUSTRADO
Sábado, 11 de Julho de 2009, 12h:40
A
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RESENHA
O Lobo inacabado
Luiz Moreno*
Especial para o Diário de Cuiabá
Passados mais de 25 anos sem vir ao Brasil, Antonio Lobo Antunes parecia dever explicações a nós, brasileiros, e a si mesmo: visto que cá deixou parentes e lembranças. Por que tanto tempo sem vir aqui? Perguntou Humberto Werneck, o mediador da conversa na FLIP 2009, o outro é mais assíduo hein?, referia-se a Saramago, antípoda do autor. Calmo, Lobo Antunes respondeu: O Brasil não é um pais. São os cheiros, os bolos de minha avó, o jeito de meu avô falar. Resgatou lembranças doces e tristes. Onde estará o Brasil de Antunes, senão em si mesmo? Disse ter medo, medo de quando voltar, não encontrar mais nada. Dada a explicação de sua ausência, Lobo Antunes contou sua trajetória e refletiu sobre o momento de criação. Enquanto falava, Paraty silenciou. Cada frase sua, suas pequenas histórias anedóticas, foram dignas de nota, davam epígrafes. E nós, na platéia, talvez o lembrássemos os versos de Sophia Andresen (os quais Antunes cita em seu livro de estréia, Memória de Elefante): Esta gente cujo rosto / Às vezes luminoso / E outras vezes tosco. Assim se portou Werneck, que oscilava entre perguntas interessantes e futilidades. Via-se que se tratava de um autor de fato, é um dos grandes. Com 21 romances publicados em 30 anos, hoje é um dos escritores contemporâneos mais premiados. Antunes falou. Deixo ao leitor algumas de suas passagens: - Ouvi dizer que escreve versos, você é viado? Eu não sabia que era, então disse: Não, não. (em conversa com seu avó ainda garoto). - Como está saindo seu livro? Uma merda. Então fico contente. (em conversa com o editor) O escritor é um trapeiro, trabalha com as pequenas coisas. Quando se está escrevendo bem se tem a impressão que há alguém ditando. Não há profundidades. Há infinitas superfícies. Quem estuda o problema a fundo, sai do outro lado. Escrever é, sobretudo, reescrever. Ter uma relação humilde ao material. Fiel a honra de estar vivo. Todo grande livro é, entre outras coisas, uma arte reflexiva e profunda sobre a linguagem. Vou escrever um livro para corrigir o anterior, corrigir o anterior... O que nos move é a insatisfação. Quando um livro está enjoado de você, não agüenta mais suas correções: o entregue ao editor. Está definitivamente inacabado. Ao final, depois de ovacionado, Lobo Antunes volta ao palco para dizer: Gostaria de agradecer o carinho e a ternura com que me receberam aqui: - Deus lhes pague. Não há o que temer, reencontrou aqui o seu Brasil, o de suas lembranças. E nós encontramos um escritor, com a força que carrega esta palavra e com a definitiva incompletude necessária. *Luiz Moreno Guimarães Reino é formado em psicologia pela Universidade de São Paulo, psicanalista, estudante de lingüística (USP) e colabora com o DC Ilustrado