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ILUSTRADO
Sábado, 10 de Fevereiro de 2007, 13h:06

RESENHA

O demônio Fiódor

Uma boa olhada em um dos grandes romances do mestre russo Fiódor Dostoievski, Os Demônios, e algumas reflexões sobre a violência

André de Leones*
Especial para o Diário de Cuiabá.
Relendo Os Demônios na tradução de Paulo Bezerra (Ed. 34), tenho a impressão de que a primeira leitura, feita há cerca de três anos e às pressas, espremido numa violenta carga horária de professor do Estado, "não valeu". Normal. Quase toda primeira leitura de um romance de Dostoiévski "não vale": é falha, assustadiça, impressionável pelos motivos errados, desconfiada e incompleta. Os Demônios é um Dostoiévski dos mais violentos. Evolui aos trancos, levado por um narrador-personagem envolvido em boa parte dos acontecimentos e que acaba por refletir a crescente estupefação do leitor. Para além do narrador tradicional, distanciado, Dostoiévski entrega seu romance a um personagem e detona qualquer possibilidade inicial de tranqüilidade por parte do leitor. A turbulência, o horror e a brutalidade não tardam. Adorno: "A violação da forma é inerente ao seu próprio sentido" (idem citação anterior). O choque é tão maior porque o começo do romance é muito engraçado. As intrigas iniciais, ainda que mal disfarçando um desencanto terminal, desenrolam-se celeremente. O contexto histórico é explosivo, mas as idiossincrasias dos personagens a princípio nos distanciam do caos. Quando menos esperamos, contudo, a coisa desaba. O susto não é pequeno. Ainda Adorno: "A reificação de todas as relações entre os indivíduos, que transforma suas qualidades humanas em lubrificante para o andamento macio da maquinaria, a alienação e a auto-alienação universais, exigem ser chamadas pelo nome, e para isso o romance está qualificado como poucas outras formas de arte. (...) Na transcendência estética reflete-se o desencantamento do mundo." Nesse sentido, cabem também, a partir da leitura de Os Demônios, algumas reflexões sobre a violência. O que é a violência? Ora, a violência é o que define o ser humano. O ser humano é definido pela violência. Em que medida? Na medida em que o ser humano é o único animal que, conscientemente, perpetra a violência contra os outros e contra si. No livro de Dostoiévski, podemos tomar como exemplo Stavroguin, um dos seres mais cruéis a povoar as páginas de um romance em qualquer época. Stavroguin é tão mais perverso porque frio e racional ao extremo. Na natureza, apenas o ser humano é dotado de racionalidade. Na natureza, apenas o ser humano é dotado de consciência. Mesmo sendo racional e consciente, o ser humano pratica a violência. Na natureza, portanto, apenas o ser humano pratica a violência de forma gratuita. Praticar a violência de forma gratuita: ferir e/ou matar não apenas para se defender ou para se alimentar. A violência gratuita é caracteristicamente humana. A violência gratuita é o que constitui e forma a nossa humanidade. Ser humano, portanto, é ser violento, e ser violento gratuitamente. Um exemplo disso na narrativa de Dostoiévski? A confissão de Stavroguin, uma das passagens mais chocantes e aterradoras de Os Demônios. Ali, comprova-se que o ser humano, único animal racional presente na natureza, é, ironicamente, o único a praticar, conscientemente, a violência gratuita. A violência gratuita, por definição, seria irracional. O ser humano, animal racional, é o único ser a praticar a violência gratuita. Nisso reside a ironia, e toda boa ironia, em si, já é uma violência. Se a racionalidade compactua com ou permite a violência gratuita, nada mais natural que o ser humano se alimente de suas próprias vísceras - e das vísceras do próximo, é claro. Os Demônios é um livro sobre pessoas se alimentando, figurativamente, é claro, das vísceras de outrem. Um dos pontos mais interessantes em Os Demônios é a sua assustadora atualidade. Os fanáticos e terroristas que povoam suas páginas são os fanáticos e terroristas que povoam o mundo contemporâneo. Dostoiévski, ao pretender escrever um romance panfletário, dissecou a alma esvaziada, os discursos entorpecentes e as ações aterradoras dessa gente. Aqueles demônios são, em essência, os mesmos de hoje. Parafraseando Eugenio Montale, aquele terror é o mesmo terror que temos hoje, variando apenas o cozimento e os cozinheiros. O ser humano em Dostoiévski, dissonante e abandonado, está em nós, e nós estamos, claro, atirados nesse turbilhão feérico - coisa sobre a qual o autor russo nos dá a exata medida. (**) Posição do Narrador no Romance Contemporâneo, ensaio contido no livro Notas de Literatura I, de Theodor W. Adorno, tradução de Jorge de Almeida (São Paulo: Duas cidades / Editora 34, 2003. *André de Leones, goiano de 27 anos, é autor do romance Hoje está um dia morto (Record), vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005 e mantém, dentre outros, o blog Canis sapiens (http://canissapiens.blogspot.com).

Edição EDIÇÃO 16969




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