NA HORA
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Cuiabá MT, Quinta-feira, 18 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sexta-feira, 01 de Novembro de 2013, 19h:10

CRÔNICA

O cotidiano que o modernismo tentou

Juliana Curvo*
Especial para o Diário de Cuiabá
Qual exatamente seria a minha escova de dentes? A branca ou a amarela? Duas escovas iguais, super equipadas, elas fazem 360 na tua boca, te protegem até de supostas gripes. Situações de um casamento: ele foi ao supermercado e eu pedi, “traz uma escova de dentes para mim? A minha está velha…” Ele trouxe duas, com cores diferentes. Fez um pequeno discurso de como aquelas eram ótimas escovas de dentes (engraçado as coisas agora concorrerem entre em si, com a mesma utilidade, alguma acaba tendo mais razões que outra; as vezes acho que deixaram de ser inanimadas). E com as duas escovas nas mãos, às 5:30 de um horário de verão, no banheiro, penso que deveria ter guardado a velha. Pois terei de sair do banho e acordá-lo para perguntar “qual a minha?”. Esqueci-me e acho chato escovar os dentes com a escova alheia. Tudo bem, isso não será o fim do mundo. Ele disse que gostaria de correr comigo, hoje pela manhã, depois de deixarmos nosso filho na escola. Então, tomo banho, não escovo os dentes, acordo o filho, beijo-o, ligo-o-chuveiro-banana-amassada-no-prato-do-chapeleiro-maluco-lancheira-com-suco-de-limão-um-pedaço-de-bolo-e-outra-banana. “Não pode ser maça?” Outra banana, ou nenhuma fruta. Coloco as duas na lancheira, insisto que deveria variar suas frutas e ele me diz: a maioria dos meninos da minha sala comem enrolado com salsicha e coca-cola, da cantina. Meu filho desde cedo faz uso da máxima na relação mãe-filho: podia ser pior. Entro no quarto e faço um outro papel, para acordar outra pessoa: “Qual a escova é a minha?” / “Você vai correr comigo?”/ “Estou indo.” Olho pela janela do quarto e está chovendo e como chove pouco por aqui, não se pode reclamar, devemos agradecer, dentro do possível. Tiro o short-curto-roxo-com-furinhos. Não tenho calça leg, calça térmica ou qualquer coisa própria para correr. Comecei fazer isso - correr - por conta do trânsito. Entenda: para ir praticar yoga eu atravessava a cidade. Os desvios com as construções para essa coisa chamada copa, me fazem atravessar duas cidades e meia. Então, não pratico mais yoga e um dia me disseram: é possível meditar correndo. Experimentei e sim, é possível, bem possível. ponto. Não virarei dessas pessoas que só falam disso. (sic: Autoengano). Como prova do meu descompromisso visto um moletom velho e vermelho, que ganhei da minha mãe quando eu era adolescente. E sempre gostei dele por conta da calça e sua relação com os versos do Wally Salomão: com minhas calças vermelhas, meu casaco de general…eu vou tomar aquele velho navio. Não tomo navio algum, entro no carro para deixar o menino na escola. Beijos. “Te amo”. Você vem me buscar? Volto ao prédio, a chuva aumenta. Ele entra no carro: você vai correr com essa calça? Veja, a questão não é apenas uma situação cotidiana de um casamento. É tudo aquilo que você vem sendo, ao longo dos anos. Essa insistência em personalidade. A negação ao passado formal. Assim, paro, dentro do carro, e antes de emitir alguma resposta para a pergunta, observo um homem e uma mulher que descem a Av. São Sebastião. Ele está com uma sanfona nos braços e segue esbarrando-se nos muros, atrás de marquises inexistentes para desviar da chuva, e ainda tem tempo de parar e arrumar delicadamente a alça do vestido dela, que escorrega pelos ombros, enquanto tenta acompanhá-lo. É uma cena rápida, ele olha para trás, vê a alça como um pêndulo sob os ombros e a retoma ao lugar de origem. Pode ser que essa alça volte a cair, pode ser que o gesto não se repita. Pode ter sido uma reação automática. Pouco importa. Vale dizer que talvez seja o visto, como um gesto doce no meio de uma chuva pela manhã, a literatura que nunca li. Seja o cotidiano desejado do modernismo. Mesmo com as calças vermelhas, ainda fomos correr (sic: autoengano, novamente). E fizemos todo o trajeto até o parque sem pronunciar palavras. Ao chegarmos lá, ele correu ao meu lado, na mesma velocidade que a minha e me olhava com um ar solene e grave de desafio. Acho que nos primeiros instantes da corrida estava seriamente convencido de que eu iria matá-lo, de alguma forma conotativa. Notem tudo isso. Sem dar atenção ao seu olhar assustado, continuei-me, com minhas calças vermelhas, entrando cada vez mais na mata do parque. Ele permaneceu me acompanhando, sem acelerar ou seguir outra trilha. E do hábito e cotidiano se fez metáfora. Eu fiquei esgotada e próximo das 8 horas desisti de correr e sai da pista. Ele me acompanhou e voltamos para o carro. Ligou o rádio, conectou o celular dele na entrada auxiliar e aumentou o volume: tocava The rain song, com Led Zeppelin. Digo, após um silêncio, no momento da música em que não há vozes, “escutei essa música ontem, na internet.” Mas, não estava chovendo. Como eu disse, a questão não é uma situação cotidiana de um casamento. É tudo aquilo que você vem sendo, ao longo dos anos. Essa insistência em personalidade, em tornar-se ficção. E (quem sabe?) fazer da tua vida teus pedaços escritos. Bom estar de volta neste espaço, com um pouco de chuva sem fazer mal a ninguém. *Juliana Curvo é professora que escreve, de quando em quando e colabora com o DC Ilustrado.

Edição EDIÇÃO 16964




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