Vivo recentemente um ciclo de leitura de passionalidades, de livros pungentes, que começou com o O morro dos ventos uivantes (Emily Bronte). Depois passou para a Libélula dos meus oito anos (Martin Page) e por fim, para a trama do casamento (J. Eugenides). Os três livros do recesso de julho (este último findei apenas em agosto). Em todos, as personagens sofreram grandes mudanças e eram bem jovens (menos de trinta anos). Casamento arranjado e desfeito, descoberta artística e casamento feito e desfeito. Todas as atitudes antes dos 30. E todas repletas de passionalidades e sentimentalismo. É a sentimentalidade hoje que apresenta o obsceno do amor. (Barthes). Como se fossem personagens obscenos, pornográficos por amarem. Amarem no exagero. Como se os passionais erguessem o dedo na cara da correria da sociedade e suas funcionalidades e gritassem: Chega, eu quero descer. O que importa mesmo é amar. É há uma pergunta, pois que como a sentimentalidade é uma atitude obscena, as personagens tornam-se mais passionais por serem mais pornográficas? Pelo amor que invento, vivo e guardo e por achar mais interessante a obscenidade do que qualquer racionalidade, tenho erguido o dedo e dito: Chega (mesmo que seja na leitura dos romances). No livro de J. Eugenides, que recebeu algumas duras críticas (por exemplo que um dos personagens - Leonard Bankhead - seria uma espécie de referência ao escritor David Foster Wallace - concorrente de Eugenides que se matou em 2008), apesar disso, o romance tem como pano fundo os romances vitorianos e românticos (dá-lhe Jane Austen e a própria Emily Bronte do Morro dos ventos uivastes) e traz a mesma questão dos vitorianos: com quem ficar no final? A decisão, como já adiantei, é tomada antes dos 30, como se a vida se resolvesse entre os 21 e 30 anos. Como se depois disso, nunca mais mudaríamos, nunca mais seríamos questionados ou nos apaixonaríamos perdidamente (com um pouco mais de maturidade, é claro). Eu pensei que não é fácil ter mais de trinta e resolver mudar a roupa, ou o estilo do cabelo. Nessa maturidade atingida do reconhecimento (eu sou assim!) que os trinta nos traz, as mudanças parecem bem pouco virtuosas. Mas, um olhar de agosto ou um gole de café pode nos questionar ou sacudir. (Da índole indecisa. Presa da pálida fatalidade). Depois dos trinta, as mudanças e a nossa consciência dela, podem nos verter lágrimas. É possível que alguns não vivam ou deixem de lado as ideias absurdas. Contudo existem aqueles que secam de desejo, os que ardem. Estes, que minha avó diria que não tem sangue de barata, são os que vertem-se copiosamente. Os que invertem escolhas depois dos trinta, mesmo sabendo possuir um corpo mais maduro, ou pés de galinhas, alguns cabelos brancos. Tornam-se, também, estes seres raros, necessitados como crianças de reconhecimento ou acolhimento, do lado de fora da tempestade. Alguém que lhe segure a mãe com certeza (mesmo que seja tudo tão subjetivo para certezas), disposto a estar ao lado (mesmo que a pessoa resolva voltar, pela falta de certezas). Enquanto escrevo estas palavras observo, da janela da sala, uma roldana de madeira, grande e azul, trabalhando presa em cima de um caminhão. Sem saber bem a razão, penso que não lembro qual foi a redação que fiz, quando era estudante, para o teste vocacional da escola. Lembro da psicóloga dizendo: sua área é artes. Artes? A roldana para por um momento. Nunca soube o que fazer com aquela informação. Menti para os colegas que o teste teve como resultado História, filosofia, ciências sociais ou letras. A roldana volta a movimentar-se de forma leve e lenta e para novamente. A roldana tenta continuar os movimentos como se alguém estivesse fazendo força para que ela continuasse. Para novamente. Eu fiz vestibular primeiro para comunicação social para não seguir nem o teste vocacional e nem a mentira dita aos colegas. Fiz letras depois porque eu quis. Fiz mestrado para parar de trabalhar por uns tempos. Casei no segundo estágio (há aqueles que se casam logo após a universidade, ou antes mesmo de terminar o curso - primeiro estágio. Os que tentam seguir a vida sozinhos, achando que não vão se casar e casam-se antes dos 30, achando ser esta a grande revolução - segundo estágio. Os que se casam depois dos 40, cansados de comer comida congelada e assistir seriado na companhia dos cachorros e gatos - terceiro estágio). Não pensei que eu iria mudar muita coisa disso. Mas, houve um tempo em que eu quis mudar, ser outra coisa. Estranhamente havia algo em mim, forçando para continuar. Chorei no colo de alguém que me era quase-estranho (e no desconhecido era onde eu queria estar). Senti-me viva, como se meu sangue estivesse mudando de cor. A roldana novamente volta a girar, mas em sentido contrário. Ela vai mais rápido, fluente, como se agora estivesse na direção que lhe cabe. Antes de eu terminar esta crônica ela para novamente. Não tenho a menor ideia para qual direção ela irá agora. Talvez resida aí a beleza toda da vida: a falta de direção certa de uma roldana. Em tempos, o título desta crônica é de um poema, do Ricardo Reis (heterônimo do Fernando Pessoa), sobre as eternas mudanças passionais. *Juliana Curvo é professora de literatura e colabora com o DC Ilustrado (
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