ILUSTRADO
Sábado, 05 de Fevereiro de 2011, 15h:02
A
A
CRÍTICA
Natalie Portman pronta para o Oscar
Algo se passa no cinema de Aronofsky. Você percebe, de cara, na abertura de "Cisne Negro". A câmera parece possuída por uma vertigem naquele número de dança
Luiz Carlos Merten
Agência Estado
Ele chegou lá - Darren Aronofsky finalmente acertou. O marido de Rachel Weisz tem dividido a crítica com seus trabalhos. O excesso visual culminou com o desastre de "A Fonte da Vida", o descontrole sobre os personagens o levou ao "O Lutador", mas tem gente que gosta do filme com Mickey Rourke. Algo se passa no cinema de Aronofsky. Você percebe, de cara, na abertura de "Cisne Negro". A câmera parece possuída por uma vertigem naquele número de dança e, antes mesmo de saber sobre a trama, você antecipa um desdobramento, um conflito dilacerando a personagem de Natalie Portman. Ela vai ganhar o Oscar. Natalie, lançada por Luc Besson em "O Profissional" (Leon), está num momento especial de sua vida - e carreira. No filme, é excepcional. Está grávida - exibiu a barriga de gestante ao receber o prêmio de melhor atriz do SAG, o sindicato dos atores. Numa entrevista por telefone, de Paris, Vincent Cassel, que faz o coreógrafo da companhia em que a personagem de Natalie dança - ela será a estrela de uma nova versão de "O Lago dos Cisnes", mas ele não está muito seguro de que ela conseguirá encarnar o cisne negro -, disse que não se surpreende com o triunfo da colega. "Natalie não é só uma atriz dotada, ela é muito aplicada e o papel exige bastante. Ela foi fundo na complexidade psicológica, mas também passava o tempo todo treinando. Dançava sem parar. Por causa disso, não chegamos a ter uma relação calorosa no set. Ela estava sempre focada no trabalho. Terminei me divertindo muito mais com Mila (Kunis)." O papel do coreógrafo francês é decisivo - pivotal, como dizem os norte-americanos - na trama. Quando escolhe a personagem para ser a protagonista de "O Lago dos Cisnes", ele sabe que ela será perfeita na parte do cisne branco. Mas e a do negro? "Para levá-la ao limite, sou obsessivo, ditatorial, sedutor, chego até ao abuso (físico). É um papel muito rico, pelo qual só tenho a agradecer." Vincent Cassel conta que tudo ocorreu rapidamente. "Não conhecia o Darren pessoalmente, mas admirava seu trabalho, principalmente os primeiros filmes. Um dia, tocou o telefone, era ele me oferecendo o papel. Darren me falou do personagem, enviou o roteiro. Em um mês, eu já estava totalmente dentro. Ele é um diretor muito interessante. E gosta muito dos atores." Vincent Cassel fala um português cada vez mais perfeito. Ator de "À Deriva", de Heitor Dhalia, ele já é brasileiro honorário. Adora o mar da Bahia, onde pratica esportes náuticos. Ele anuncia - "Estamos indo passar o carnaval no Brasil." O plural envolve a mulher - "minha esposa", como ele diz, a deslumbrante Monica Bellucci. "Vamos filmar no ano que vem, no Brasil, Monica e eu." Será uma coprodução franco-brasileiro-italiana. Cassel tem outro filme pronto, The Monk - "Le Prêtre", acrescenta, em francês, O Padre. O diretor é Dominik Moll. O repórter lembra de outro filme do cineasta, "Harry Chegou para Ajudar", a que assistiu em Cannes. "A expectativa é de que a gente volte ao festival." Independentemente da seleção de The Monk, Vincent Cassel deve ir a Cannes com outro filme que tem estado na mira da imprensa francesa. Ele integra o elenco de "A Dangerous Method". O filme de David Cronenberg trata da conturbada relação entre Sigmund Freud e Carl Jung na aurora da psicanálise. Viggo Mortensen e Michael Fassbender são os protagonistas. Cassel faz o psicanalista austríaco Otto Gross, discípulo dissidente de Freud e que se tornou anarquista. É o segundo filme de Cassel com Cronenberg, e com Mortensen, após "Os Senhores do Crime". Como é trabalhar com ele? "David é fantástico. Muito calmo, muito controlado. Você vê os filmes deles e forma uma ideia, mas o set de um filme de David Cronenberg é peculiar. Ele sabe exatamente o filme que está fazendo." De volta a "O Cisne Negro", Cassel confidencia. "Para mim, este filme tem um lado muito particular, como se fosse uma volta para casa. Fiz balé clássico durante sete anos e sou filho de um bailarino. Conheço os bastidores desse universo e foi como retomar um fio abandonado da minha vida."