NA HORA
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Cuiabá MT, Quarta-feira, 24 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 01 de Agosto de 2015, 15h:14

CRÔNICA

Na ABI, entre jornalistas

MARTHA ARRUDA
Especial para o DC Ilustrado
Nada ou nadica de nada, no período todo em que moro no Rio de Janeiro, aconteceu de mal comigo. Nunca sofri constrangimento nenhum e tampouco um assalto Ao voltar de Cuiabá para o Rio, em setembro de 1998, sentia-me aborrecida comigo mesma e alguns fatos da vida! Na ABI - Associação Brasileira de Imprensa - no 11º andar, onde os jornalistas se encontravam para bater longos papos ou jogar bilhar, em um dia que estava arrumando chuva¹, discordei de opiniões do colega Arcírio, morador de Nilópolis, baixada carioca e, nem percebi quando disse: - Você mora no Caixa-Prego! - Que termo é esse?!... Desconheço! Sou carioca! Você veio de Mato Grosso, terra de onças, cobras, jacarés, macacos e tudo que é bicho! Além dos índios! - Minhoca tem osso?!... perguntei-lhe, como deboche. - Não entendo o que diz! Faça o favor de não mexer comigo?!... Você é uma colega que acaba de chegar à ABI e não é do meu feitio ofender uma mulher. Sou cavalheiro! Poderia até aloitar² com ele, mas Maurício Azedo, jornalista que conheci na época em que estudava na "Hélio Alonso", pela sua brilhante inteligência, chegou. Foi logo acalmando nossos excessos. Arcírio, alterado³, abandonou a sala e foi embora. Fiquei ansiada(4). Arthur Cantalice, jornalista sobre quem Enock Cavalcanti elogiara e até me recomendou fazer amizade, entrou na conversa e comentou uma palestra que ouvira recentemente no CCBB - Centro Cultural Banco do Brasil. Às gafas(5), a paz transmitida por Arthur Cantalice me agarrou pelos pés. Batemos longo papo e sei lá o porquê, acabei-lhe contando que colecionava sapatos. - Quantos você têm? - Creio que uns cinquenta, mas são sapatinhos de vidro. O primeiro ganhei de uma amiga, depois quando via alguns em quaisquer lojas, entrava e comprava. São baratinhos! - Chega de falar dessa mania! Vou-lhe contar sobre a última reunião do Conselho da ABI, onde aprontei o maior rebu (6). Alguns membros contrariavam-me tanto que, a certo momento, levantei e mandei ver! Disse o que pensava e quase saimos aos tapas! - Quem foi? - Você não conhece e também não vou dizer nomes. Sou discreto! Mas voltando ao assunto de colecionador, um vizinho meu, lá do Méier, tem um jeito estranho de ser. Coleciona asas de boboleta. Convidou-me para vê-la, mas percebi que receava que pudesse tocá-las. Abílio não titubeou e me recomendou: - Não se pode pegar nessas asas! Você coleciona alguma coisa? - perguntou-me. - Só mulheres! - respondi depressa. - Hum! Tem gosto o vizinho! - A mais recente é de Campos, moça bonita e fazendeira, que mora na Avenida Atlântica. Estamos em plena lua-de-mel! - Parabéns! Cantalice comentou sobre a sua mania, e também me avisou que era casado e tinha três filhos (duas moças e um rapaz). Despediu-se rapidamente. De ônibus, retornei a Copacabana. Logo que cheguei preparei um chá de erva-doce, sentei-me a mesa e recordava minha vida em Cuiabá. Pensei nele, que foi meu amor! O que deveria estar aprontando? Também colecionava mulheres. Nunca me escondeu e demonstrava certo orgulho naquilo. Chegou a me revelar sobre algumas delas. Não sei o porquê, mas apressadamente mudei de pensamento. Lembrei-me então das recentes amizades que havia feito com nomes importantes da cultura carioca, depois que vi a peça "Liberdade! Liberdade", com o ator Paulo Autran, nos anos 60. Foi magnífico! Maria Bethânia, em substituição a Nara Leão, estava começando sua carreira no Rio. Eu não saía da Siqueira Campos e nem do teatro. Vi a peça três vezes. Após, íamos tomar vinho com bolinhos de bacalhau numca cantina portuguesa. Bons tempos! Foi-se!... Peguei num de meus sapatinhos e admirava sua delicadeza: doirado, saltos agulha e tão bonito! Foi presente da cunhada Jaci Ribeiro. É especial e amiga! Como vario muito, senti vontade de chupar bocaiúvas, daquelas especiais de Poconé, redondinhas e amarelinhas. Até seu perfume delicioso chegou-me às narinas. Fiquei borocochô! (7). Deitei-me para sonhar! 1.Arrumando chuva = Quando o céu fica cinza e escurece as nuvens. 2. Aloitar = lutar. 3. Alterado = nervoso, agitado. 4. Ansiada = aguardando alguma coisa, apressada. 5. Às gafas = Cansada demais. 6. Rebu = reboliço. 7. Borocochô = tristonha. Martha Arruda, jornalista cuiabana, se divide, atualmente, entre o Rio de Janeiro(RJ) e Florianópolis(SC)

Edição EDIÇÃO 16968




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