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Cuiabá MT, Quinta-feira, 18 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 21 de Setembro de 2013, 13h:17

A CIDADE VIVE DOS QUE VIVEM E VIVERAM NELA

Moacyr da Costa e Silva: Tradição e progresso não andam de braços dados

Evaldo de Barros
Especial para o Diário de Cuiabá
Moacyr da Costa e Silva é filho de Antônio Caetano e tal qual o pai desenvolveu uma veia poética especial: os versos satíricos. Bancário do Banco do Brasil por 30 anos, fazendeiro depois de aposentado, micro empresário segundo se apresenta, Moacyr é papo agradável, cuiabano roxo que aceita brincadeiras, mas não tolera ofensas ao povo e à terra de Pascoal Moreira Cabral. Empolga-se quando argumenta sobre Cuiabá e se diz Filintista e Garciista, ou seja: fã de carteirinha dos saudosos Filinto Müller e Garcia Neto. Oriundo de família numerosa, cultiva o hábito do guaraná ralado e, escondido, solve alguns goles de teréré à tarde para combater o calor. Um projeto como este que colima resgatar o mínimo que sobrou da cuiabania autêntica e dos que fizeram a nossa história não poderia esquecer desse filho do também inesquecível Antônio Caetano, considerado por Rubens de Mendonça “um dos maiores poetas satíricos de Cuiabá”. Sogro do saudoso Prefeito Vicente Emílio Vuolo, do PSD, Antônio Caetano, que era udenista fanático, não “perdoou” nem o genro. Quando Vuolo anunciou o Secretariado da Prefeitura sapecou: “Vuolo faz a grande renovação na Prefeitura. Nomeia Antero de Barros, Jerci Jacob e Leonidas Mendes”. Na época os três já eram septuagenários. Não é preciso dizer que Vuolo ficou fulo da vida. DC ILUSTRADO: O sr. integra considerável parte de nossa história. Conte-nos do seu início de vida . MOACYR: Sou filho de Antônio Caetano Fontes da Costa e Silva e de D. Octília Gomes da Silva. Nasci em 20 de fevereiro de 1928 e tive nove irmãos que formávamos cinco casais: Anna, Benedito, Lucília, Boaventura (mais conhecido como Neto), Eunice, Octílio, Hildete, Layde e Otino. Estamos reduzidos a quatro: Eu, Hildete, Layde e Otino. Fiz o primário na Escola Modelo Barão de Melgaço, o secundário no Liceu Salesiano onde fiz grandes amigos como o saudoso Padre Firmo e me formei Contador em 1946 pela Escola Técnica de Comércio de Cuiabá. DC ILUSTRADO: O sr. fez carreira como bancário no Banco do Brasil, não é verdade? MOACYR: Realmente, grande parte da minha vida foi dedicada ao Banco do Brasil onde ingressei em 06 de abril de 1951 e me aposentei em 06 de abril de 1981. Antes disso trabalhei na Construtora Comércio Ltda. E ali surgiu a minha grande amizade com o Dr. Garcia Neto que conheci quando trabalhava na Fundação Casas Populares. DC ILUSTRADO: Outro trabalho além do Banco do Brasil? MOACYR: Oficiosamente supervisionava as contabilidades das firmas: Pinheiro que era do meu cunhado e Usina Aricá que pertencia ao meu sogro. Ademais, por três vezes fui cedido para trabalhar no Banco do Estado de Mato Grosso onde criei a Diretoria de Crédito Agrícola e Industrial que teve muito sucesso. Devo enfatizar que no Banco aposentei-me na última letra que um funcionário pode almejar e muito me alegrou as três últimas promoções, todas por merecimento. DC ILUSTRADO: Como filho de Antônio Caetano o sr. herdou a facilidade de escrever versos. Além disso os seus artigos publicados na nossa imprensa são bastante apreciados. O sr. defende, basicamente, Cuiabá e os cuiabanos. Não é excesso de saudosismo? MOACYR: Olha Evaldo, Tradição e Progresso não andam de braços dados. Defendo que nós temos que renovar sem pisar no nosso passado. Precisamos adotar um lema: Tradição que se renova, sem impedir o progresso. DC ILUSTRADO: Mas isso é possível? MOACYR: Claro que é. Veja o exemplo de Buenos Aires. A capital Argentina mantém o bairro do Caminito sem nehum engessamento ao modernismo em seu derredor. A engenharia e a arquitetura de hoje têm meios para conciliar situações urbanísticas. Basta que se tenha vontade política e respeito pela história. Há alguns anos escrevi sobre a Praça Alencastro: “A praça Alencastro “Como toda praça que se preza, a nossa Praça Alencastro nasceu ao lado da igreja, hoje Basílica da Capital; este santuário, por sua vez, ocupou o local da saudosa Catedral Metropolitana de Cuiabá. Segundo nos contam os mais velhos, a Catedral foi construída em substituição à primitiva Igreja, edificada pelos bandeirantes, nos primórdios da civilização mato-grossense. “Naqueles tempos o poder emanava da Igreja; por isso, as pessoas tinham que gravitar à sua volta. É muito pitoresco estoriar os primeiros passos do forasteiro da década de 1940, que logo ao chegar em Cuiabá, instalar-se e normalmente após o jantar, vestia-se da melhor maneira e se mandava para o jardim, nome carinhoso com que denominávamos a nossa Praça. “Ali, com pouco tempo se entrosava e ficava sabendo qual a moda da cuiabania, quem eram os manda-chuvas da cidade, como era feita a paquera e qual era o ponto mais estratégico para ver e ser visto. “Nada se gastava para desfrutar daquele convívio; naquela Praça quase tudo podia acontecer. Afinal, era uma miniatura da nata da comunidade que desfilava sob as suas vistas; qualquer deslize de sua parte poderia deixá-lo rotulado pelo resto da vida, com um apelido bem sugestivo e picante, especialidade da nossa gente, ou, quando nada, ser tachado de um mero ‘pau rodado’. Interessante é que, naquele vaivém assanhado os rapazes nunca davam voltas sem a namorada e as moças jamais davam voltas sozinhas. “Quantos casamentos foram realizados graças a essa saudável prática; da praça para a sala de visita da casa da mocinha era um pulo e dalí para o altar da igreja era outro. Infelizmente, essa função social-casamenteira da nossa praça desapareceu. Aos domingos e quintas-feiras havia as esperadas retretas, ora com a banda de música do saudoso 160 BC, ora com a da nossa Polícia Militar. “Finda a retreta por volta das 21 horas, como se o maestro regesse também o ‘footing’, as moças se debandavam concomitantemente com os últimos acordes da música. Como toque final, despedindo-se da noite, a banda executava um pequeno desfile ao som de um dobrado bem marcial, até à porta da igreja, seguida expontaneamente por um grupo de meninos, cerra-fila, marchando com o mesmo garbo e a formação dos militares. “Coincidência ou não, alguns meninos daquela casta tornaram-se oficiais do nosso Exército, a exemplo do Cel. Octayde, Cel. Milton Palma, Cel. Antônio Martins e o Gal. Felipe Jorge, irmão do Cel. Octayde. “Concluído esse ritual, as moças que não quizessem ficar mal faladas já deveriam estar chegando em casa. Fechando a noite, divididos mais ou menos pela faixa etária, os homens formavam grupos em torno de determinados bancos do jardim cativos pelo rotineiro uso de cada grupo; ali batiam papo até adiantadas horas. “Hoje, desse passado todo nada mais resta: a igreja já não é a mesma; demoliram o gazômetro; o coreto e o chafariz cederam lugar à fonte luminosa. Não existe mais a mansão do Cel. João Celestino, o casarão dos Correios e Telégrafos, o velho Palácio Alencastro, o prédio colonial da Delegacia Fiscal, a barbearia do Seo João e posteriormente do Seo Miguel, o bar Sargentine, o Café Suave, o sobradão da Prefeitura e os bares Jardim e do Bugre. “Com a mudança de valores a Igreja perdeu muito a sua posição. E a Praça deixou de ser aquele Jardim da minha idade de ouro, certamente para acompanhar a inclinação mercenária do tempo em que vivemos numa falsa ilusão de progresso.” DC ILUSTRADO: Na entrevista que fizemos com o João Balão e que está no Livro “A cidade vive dos que vivem e viveram nela” ( pág. 339 – editora Janina) há uma quadra atribuída a sua autoria. Depois, na entrevista com Adélia Mendonça, consta que a quadra é do Rubens de Mendonça. De quem é a quadra, criticando o governador Fragelli? MOACYR: No livro “Sátira na Política de Mato Grosso”, do próprio Rubens de Mendonça, à pág. 134 fica esclarecido como de minha autoria a quadra: “De braços cruzados/ De papo pro ar/ Se o Pedro fez tudo/Pra que trabalhar…”. Acho que agora não existe mais dúvida sobre esse assunto, pois não? DC ILUSTRADO: Porque o carnaval cuiabano acabou? MOACYR: Acho que os clubes eram mais ou menos fechados e dirigidos por familiares. Com a chegada dos novos conterrâneos que forçavam a abertura perdemos os trabalhos e os entusiasmos de Nini, Maria Vieira, Anna Pinheiro, Avanildes etc que “pagavam” para ser presidentes e os maridos ajudavam. Fato idêntico aconteceu com o futebol. Onde encontrar um novo Joaquim de Assis, Rubens dos Santos e Ranulpho? DC ILUSTRADO: O sr. conhece outras pessoas beneméritas de Cuiabá? MOACYR: Conheço. Clóvis Vetorato foi um boi de carga para o Blairo Maggi. Foi ele quem conseguiu recursos para recuperar Igrejas, o Cine Teatro e o Palácio da Instrução, por exemplo. Bonilha é outro exemplo. A Federação ficaria com Campo Grande e ele conseguiu os votos de Corumbá e Aquidauana e a FMD instalou-se aqui. DC ILUSTRADO: E o Prefeito Mauro Mendes? MOACYR: Mauro Mendes é a revelação mais impressionante de Cuiabá. Tudo o que ele faz dá certo e ele merece ser apoiado. Um dos meus maiores arrependimentos é não ter votado sempre nele. O partido do Mauro é o trabalho, incansável e bem feito. Agora mesmo há dois projetos: o centro histórico e a obra do rio Cuiabá. É a tradição que se renova! DC ILUSTRADO: Alguma mágoa, tristeza ou alegria? MOACYR: Minha grande tristeza, a maior de minha vida, foram as perdas de minha esposa Mercedes, do meu irmão Neto e do meu compadre Rabelo Leite. Doem muito essas ausências. O Neto era o irmão com o qual eu mais me identificava e foi, sem dúvida, um dos maiores boemios de Cuiabá. Já a alegria inesquecível foi ter erguido a taça que consagrou o Mixto nosso campeão de futebol. CONCLUSÃO: Moacyr da Costa e Silva está casado com Maria Felismina de Moura, uma potiguar de contagiante simpatia e que de tanto católica que é tornou-se Ministra da Eucaristia. É síndico do prédio onde mora e realiza aplaudida administração. Possui três filhos: Mário Márcio que é engenheiro civil, Maria Auxiliadora Ochove e Márcia Maria Coutinho. Afirma com convicção que Cuiabá teve cariocas com alma de cuiabanos: Cássio Veiga de Sá, João Pinheiro e Edgar Vieira. Aliás, sobre João Pinheiro, que era seu cunhado, casado com D. Anna Pinheiro diz que foi ele quem ensinou o Bugre, pai do Dr. Gabriel, a fazer picolé e que o Nei ficou com o apelido de Nei picolé porque o pai era exímio fabricante desse produto. Moacyr não sabe explicar porque a compensação de cheques está sendo feita em Campo Grande/MS mas garante que já foi em Cuiabá. O senador Pedro Taques vai resolver isso… Mas Moacyr sabe que foi o colonizador Enio Pepino quem não deixou Cuiabá ficar sem a Superintendência do Banco do Brasil. Moacyr da Costa e Silva é um baú de lembranças de muitas coisas sobre Cuiabá. Na reta dos 90 anos de vida ainda tem muito por fazer pela terra do seu coração. É só procurá-lo como nós fizemos que ele fala com o maior prazer.

Edição EDIÇÃO 16964




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