ILUSTRADO
Sábado, 06 de Novembro de 2010, 10h:43
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CD
Milton e a consciência do presente
Ainda bem no início de sua carreira, o artista optou por só compor e cantar coisas em que acredita na hora que estiver acontecendo. Esse tem sido o lance da sua vida
Roger Marzochi
Agência EStado
"...E a gente sonhando", o novo disco de Milton Nascimento, no qual ele reuniu 25 jovens músicos da mineira Três Pontas, cidade onde cresceu, está longe de ser um retorno ao passado, do tempo do Clube da Esquina. Deve-se, sim, à consciência do presente, que em Bituca, como é chamado pelos amigos, cresce exponencialmente à medida que vive novas experiências. Faz parte de sua "magia" perceber novos talentos como Heitor Branquinho, que com o violonista Marco Elízeo, assinam a música "Olhos do Mundo", que questiona: "Quem é capaz de fechar os olhos do mundo, olhar para dentro de si?" Ou conhecer "onde as cores se misturam com facilidade", em "Do Samba, do Jazz, do Menino e do Bueiro", de Ismael Tiso Jr. e Miller Rabelo de Brito, que completa: "Através dos olhos, o infinito é lembrado, mas no chão a sujeira, carrega crianças, entope bueiros", para dar passagem a um belo solo do trombone de Vittor Santos, grande músico que não está sozinho entre os veteranos. Também estão lá Wagner Tiso, que toca piano em 11 das 16 faixas, Nelson Oliveira (trompete), Widor Santiago (saxofone) e Lincoln e Ricardo Cheib (bateria e percussão). A faixa que batiza o disco foi a segunda música completa, com letra e melodia, que Bituca fez na vida, no início dos anos 60, dividindo os vocais com o jovem Bruno Cabral, 19 anos. Abaixo, os principais trechos da entrevista, feita por telefone, em que Bituca fala de sua relação com o presente; dos shows que fará na exposição e de muitas outras coisas. AE - Quando a gente escuta você cantar, com esses meninos... Parece que a música é mais ou menos como uma metáfora da vida, há uma paz que se sente no momento que, por meio da arte, transforma-se em futuro. Como conseguir ter essa capacidade de sentir o presente, ao ponto de se permitir essa poesia que há na vida, nas pessoas, no momento? MILTON - Você agora mexeu comigo, mesmo. Porque o lance é o seguinte. Eu cantava só, tocava baixo nos bares, mas não queria compor. O Marcinho Borges me encheu a paciência até que me levou para ver aquele o filme "Jules et Jim", do François Truffaut. E esse filme tem um lance relacionado com a amizade que me fez lembrar, não a mesma história, mas o tipo de amizade que eu aprendi a vida inteira na casa de meus pais. Porque eu era muito pequeno, e os ouvia conversar sobre algum amigo em dificuldade que, apesar de a gente não ter dinheiro, eles ajudavam. A casa estava sempre com muitos amigos. Então, a amizade foi a pauta da minha vida, na minha casa. E tem outra coisa que, geralmente, as mães não gostam que crianças invadam suas casas porque ou vai sujar, ou vai quebrar alguma coisa, e minha mãe era completamente o contrário. Ela queria que as crianças fossem lá para fazer companhia pra gente. E ela era muito bonita. E teve uma vez que eu cheguei da rua e tinha dois meninos, deviam ter seis, sete anos, que estavam sentados na sala. Eles não me viram e estavam falando da beleza da minha mãe. Aí eu cheguei e falei: "oh, eu vou contar pro meu pai o que vocês estão falando da minha mãe" (risos). Depois contei para ela, ela morreu de rir. E eles ficaram com medo, mas passou logo. Então, "Jules et Jim" é um tipo de amizade que não é uma coisa comum, assim como lá em casa não era uma coisa comum. E eu cresci valorizando a amizade. Quando vi o filme, sai do cinema com o Márcio Borges, e falei: "vamos pra sua casa, eu vou pegar um violão, você um caderno e caneta e nós vamos compor." E, nessa, noite fizemos três músicas. E aí começou a vida de compositor. AE - O filme deu esse insight. MILTON - É. E aí, nunca mais paramos. Foram várias fases Quando comecei a compor, eu disse: só vou compor e cantar coisas que eu acredito na hora que estiver acontecendo. É o meu lance da minha vida. Eu presto atenção em tudo. Esses dias atrás, eu estava aqui com o sobrinho do Lô Borges, que é novinho, tá fazendo seu primeiro CD e veio me mostrar, e a gente ouviu e começou a conversar. Aí eu falei das mágicas, das magias que a música traz. E quando, de repente, o rapaz que toca baixo no disco com a gente, ele desceu a escada aqui, chegou no meu ouvido, falou: "olha, tem uma pessoa aqui que quer conversar com você, não vai demorar muito não, eu posso trazer?" Falei, "pode" Nem sabia quem era. Aí desceu a pessoa com a esposa. Aí, quando eu vi, era o filho do Portinari, a gente se cumprimentou, ele falou: "as coisas que mais parecem com as pinturas do meu pai são as que você faz". AE - Você acabou de provar... MILTON - O Portinari tem duas obras na ONU, apesar de comunista, os quadros dele foram para a ONU. Aliás, o prédio também é do Niemeyer. E ninguém pode tocar nesses quadros, nem o filho dele. Até que eles vão fazer uma reforma no prédio e emprestaram os dois quadros, que é "Guerra e Paz", que foi a última coisa que o Portinari fez. Ele não podia mais pintar, porque aquela tinta da época estava acabando com ele. Aí ele falou assim: "se eu parar de pintar, vai ser uma morte pra mim. Então, vou pintar, e não importa se eu morrer depois." Estava conversando com uma das minhas irmãs, que mora aqui no Rio, e ela me disse: "eu sei o que você tem a ver com Portinari. Cê sabe?" Eu falei: "ué, a música, a arte". Ela disse: "Não. Presta bem atenção, olha nos quadros que tem aqui." Mas antes de olhar, falou. "Teve um quadro que fizeram teu que embaixo tinha escrito uma coisa que você disse. Você pode estar na paisagem mais bonita do mundo e se passar pessoa na sua frente, seu olho vai direto para a pessoa." A pessoa é mais bonita, mais linda. Mas tudo do que qualquer coisa é o ser humano. E ela falou: "presta atenção nos quadros do Portinari." Aí que fui olhar. Todos ...são pessoas. Ele pinta o ser humano. É mais do que qualquer coisa. AE - E você vai tocar nessa exposição? MILTON - Eu vou! Ah, vou! Vou lá. Depois vai para Paris, que também é uma delícia. Depois volta para o Brasil, vai para várias capitais, e depois vamos sair pelo mundo. Fiquei sabendo de uma cidade que a gente vai que é Hiroshima. É uma coisa muito linda. Então essas coisas, por exemplo, de saber a hora que vai acontecer, que dá inspiração... nem sempre eu procuro, às vezes vem, sem eu estar esperando. AE - Você se inspirou no sorriso de um menino em Três Pontas e fez a música "Sorriso", que está no novo disco. Qual foi a reação dele e da família ao ouvir a música? MILTON - Olha, o lance foi aquele. É uma coisa que não faço. Foi um dia na fazenda lá em Três Pontas, que teve lá um tipo de festinha para as crianças. E tem, entre elas, um sobrinho meu que é um azougue, né. E estavam as crianças todas mexendo com o gado, aquela correria. Tinha um pessoal, uns músicos, tocando rock and roll, tinha eu e minha família, e passou o rapaz com um sorriso que nunca tinha visto igual, comentei com a minha irmã. AE - E a outra música, "Amor do Céu, Amor do Mar", em que você cita a Elis Regina? MILTON - Teve uma época que aconteceu uma coisa comigo nos Estados Unidos que mexeu com o meu sistema nervoso e comecei a ter diabetes. Fui aos médicos lá e eles começaram a me dar comprimidos para não deixar avançar tanto a diabetes. E comecei a tomar, mas eles me tiravam a vontade de comer... Até eu arrumar médicos no Brasil pra ver o que estava acontecendo comigo, eu emagreci muito. E começou a confusão, por parte da imprensa, que você não faz parte disso, eu sei. Começaram a falar, é Aids, é isso, aquilo, uma confusão danada. E o negócio foi tão feio, que eu tinha dois médicos, e a imprensa conseguiu arrumar outros médicos para desmentir os meus. Foi terrível. Passou um tempo, queria vir para casa, não queria ficar em hospital nem nada. Mandaram aqui enfermeiros. Fizeram aqui uma unidade móvel em casa e aconteceu o seguinte, comecei a sonhar com a Elis todas as noites, mas era mais que sonho. Então eu ia encontrar com ela. Ela estava fazendo um jantar, dava um jantar para todo mundo que estava lá. Eu pedia para ela cantar, ela nunca cantou. Então isso foi sempre. E teve, quando eu fiz o show "Tambores de Minas", um pai chegou com neném no camarim e falou: "olha, meu filho falou que viu dois anjos com você no palco." Aí, ficou aquele negócio. E aconteceram mais coisas com relação a eles... e aí, eu tive bem mal. E foi com esse negócio da Elis e dos dois anjos eu fui melhorando.