NA HORA
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Cuiabá MT, Quarta-feira, 17 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 22 de Setembro de 2012, 14h:09

CRÔNICA

Matula

Juliana Curvo*
Especial para o Diário de Cuiabá
Afinal de contas, qual é o motivo mesmo? Eu via que não havia uma direção certeira. O sol já estava no local certo de onde é a hora exata. E nada dele dar um sinal de parada. Eu bem que insistia, vamos matulá que já é a hora, primo. Ele sempre: “que isso parente. Mais ali na frente tem uma água fria onde a gente para, hum?” E nada de parada. E nada de água fria. Eu já vinha com o pensamento que ele era um homem ruim mesmo. Judiou do filho até onde pôde. Tinha trauma disso e ninguém que tivesse numa empreitada como essa, devia comentar nada com ele sobre o assunto. A boiada já devia estar sem rumo certo mesmo e o sol dando toda demonstração da sua força. Devem ter inventado o relógio bem na hora da matula. Não existe hora mais sagrada para um homem. Você anda o tempo que for preciso, mas a matula é assim, de importância. Eu perguntava que a água fria vinha chegando. Qual nada. Nem devia ter água fria mesmo. Era ruindade. Tanto homem pra tocar essa boiada comigo e foi logo ele. E ia no silêncio, olhando sempre adiante. Homem estranho esse. Conta que ele já se apaixonou por uma moça distante. Ele esperou o quanto os dias duraram. Ficou acordado o quanto de noite foi preciso. Ele jurou que iria buscá-la nem que fosse andando, ou no lombo de um cavalo. Ninguém por aqui, nunca viu nem foto da moça. A alegria dele foi mudando aos poucos. E foi fechando a cara para tudo o que fosse visível. E foi ficando igual tronco retorcido de árvore do cerrado. E vai ver que assim ele tinha mais resistência para o calor e para a falta de água. O cantil só tinha um gole e que a gente passou por córregos e por cacimba, a gente passou. Que tinha árvore com sombra fresca, isso tinha. Qual nada. Ele não parava mesmo. Insistia que mais adiante tinha uma água fria, onde a gente pararia. Eu fiquei pensando nisso, de um homem ser ruim e ainda ter amado uma moça. Por isso que eu digo que essa coisa de amor a gente não sabe o porquê dá na gente. É igual a praga de laranjeira mesmo, não sobra uma fruta inteira. Eu acho que nunca quis ser assim levado para sempre. Não sei se isso é bom ou se é mal. Sei que nunca quis. Pelo menos eu não fico atrasando a matula alheia. Resolvi tomar uma atitude séria. Se ele queria ficar andando com a boiada desembestada por conta de uma água fria, que ele fosse. Eu avistei de longe um tanque de gado, ainda com água. Era quase um milagre nessa época um tanque desse com água. Fui bem perto dele, passei a mão na matula, sem que ele visse, e avisei: vai indo na frente primo, que eu vou ficar por detrás. Ele concordou sem pestanejar e disse que a água fria vinha chegando. Qual nada. Cansei e parei. Comi mais do que a fome queria. Comi mesmo pra sobrar só a farinha. Agora a ruindade dele ia aprender que é preciso respeitar a hora da matula. Enchi meu cantil de água e fui correndo e de barriga cheia. Alcancei a boiada em dois tempos. Ele nem deu por falta. Devolvi o saco da matula só com a farinha. Até ofereci um gole de água. Qual nada. Ele disse que não queria mesmo. Ia matar a sede na tal da água fria que vinha vindo. Essa água fria, para mim, estava parecendo miragem de velho louco. Vai ver que esse tal amor que ele teve, foi miragem também. E miragem não deve ser coisa boa. Pelo menos, abençoada eu sei que não é. É disfunção das vistas. Minha avó até tem reza para curar esse tipo de coisa. E deu pouco tempo, que ele fala: “chegamos parente”. Eu não entendi nada. A gente estava na subida, no que eu olho na baixada. Lá estava um córrego cheio de água e sombra ao redor. Até pensei: era eu quem estava com problema nas vistas e estava vendo miragem. Qual nada. A boiada foi correndo só num grito dele. Ele desceu do cavalo e eu tive a certeza de que a gente nunca sabe o motivo. Ele olhou pra mim e disse: “eu trouxe ela aqui parente. Eu trouxe ela aqui”. Desceu na beira do córrego abrindo a matula. Eu já virei correndo e ele já vinha me amaldiçoando. Deu nisso não saber o motivo, me enfiou a faca e disse, eu ainda podendo ouvir, “hoje vai ser o dia que eu vou comer farinha com carne humana”. E tudo porque eu não sabia o motivo. *Juliana Curvo é professora de literatura e colabora com o DC Ilustrado ([email protected])

Edição EDIÇÃO 16964




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