ILUSTRADO
Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010, 19h:54
A
A
CRÔNICA
Lost
Odair de Morais
Especial para o Diário de Cuiabá
Começo a escrever esta crônica na madrugada de quinta-feira. Espero que dê pra ser publicada ainda neste final de semana. Explico. Como a edição domingueira deste caderno costuma ficar pronta na sexta, o editor me pede sempre pra enviar o texto com certa antecedência. Na quarta, por exemplo. Caso contrário, a publicação é adiada pro outro fim de semana. Sendo assim, esta crônica, que deveria ter sido escrita há dois dias, no mínimo, passa a ser elaborada neste exato momento. Tento evocar na memória um fato corriqueiro, um flagrante de estrada, uma conversa que tive... Qualquer coisa serve, penso, desesperadamente. Vou até a geladeira, apanho uma lata de cerveja. Bebo. Caminho em direção à janela e fico admirando a noite. Petit, único herdeiro a dividir comigo os cômodos da casa após a separação, fareja longamente o friúme da noite antes de se precipitar janela abaixo à procura de outros felinos. Em poucos segundos o avisto caminhando pelo asfalto molhado. Choveu bastante durante o dia. Em vários pontos a cidade ficou parcialmente alagada. É natural, portanto, que eu me sinta agora um pouco ilhado. Estou, digamos, na lanterna dos afogados. Sinto, como diziam os românticos, um frio nalma, ao pensar que preciso de um assunto com certa urgência. Acesso a internet. Vou ler os meus e-mails. (Devo confessar que até o presente momento os e-mails têm me servido de estímulo nessa incansável busca pelo pitoresco. Certa vez recebi um comentário muito afável da poeta Lucinda Persona. E fiquei lúcido. René Dióz, jornalista do Diário de Cuiabá, me disse que com elogios tão bem argumentados, se dirigidos a ele, levitaria. O escritor Marinaldo Custódio também teceu elogios aos meus textos. Grato. Sob sua custódia fui apresentado à imprensa mato-grossense, em 2003.) Mensagens publicitárias ou encaminhadas a mais de uma pessoa vou sistematicamente endereçando à lixeira. Uma, no entanto, dentre todas as que não foram excluídas, se destaca. Pois traz como assunto o título de uma de minhas crônicas: O canto da sereia e a luta de Osvaldão. Foi escrita por uma leitora citada em texto publicado aqui mesmo no Diário, há dez meses! informação que tive depois verificar a data de publicação da crônica no site. Escreveu pra agradecer. Segundo ela, a fiz recordar de um momento muito especial de sua vida, ocorrido há quase vinte anos. É o poder da palavra, penso eu, como dizem os evangélicos. Certamente ficou satisfeita com a descrição que fiz de sua beleza; embora, na época dos fatos, eu não possuísse mais que de oito anos de idade. Por fim, ela me informa que está em Lisboa. Que atravessou o oceano Atlântico. Aproveita a metáfora que eu criara a partir de seu nome: Iara, que, em tupi, quer dizer a sedutora das águas. É uma pena ela não ter explicado como se deparou com o texto. Lamento. Fantasio que, até chegar às suas mãos, a crônica tenha passado por outros leitores. Algum parente, talvez, ao reconhecer a história narrada, teria servido de intermediário. Parece bobo, mas imagino como seria o meu texto sendo lido com sotaque lusitano... Quase amanhecendo... O canto do galo precede a pintura. E a partitura. Petit até agora não voltou. Deve estar equacionando sobre os telhados, em assembleia. Vou chegando ao fim de mais uma crônica. Penso em abrir outra cerveja pra comemorar. Abro. Ao anexar o arquivo que será enviado ao jornal, imagino as crônicas sendo postas em garrafas que, incansavelmente, vou atirando ao mar da web. Um dia, ao se deparar com as mensagens, outros navegantes terão notícias de meus sucessivos naufrágios. E descobrirão que minha história não foi mais bonita que a de Robinson Crusoé. *Odair de Morais é escritor e colabora com o DC Ilustrado (odairdemorais.blogspot.com)