ILUSTRADO
Sábado, 29 de Março de 2008, 13h:39
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ENTREVISTA
Jean Luc Ponty e seu violino mágico
Há coisa de quarenta dias atrás o nosso resenhista Ney Arruda fez uma aventura
Lorenzo Falcão e Ney Arruda
Da Reportagem
Há coisa de quarenta dias atrás o nosso resenhista Ney Arruda fez uma aventura internáutica. Ele enviou um e-mail em espanhol para Vic Torel, gerente de produção em Nova York, do jazz man Jean Luc Ponty. No que Torel, nova-iorquino nascido e criado nas ruas castellanizadas de lá, entendeu e contestou: Mister Ponty só concede entrevista em inglês ou francês. Sem se sentir derrotado, Arruda convocou sua esposa para traduzir as negociações pela entrevista. Ponty acenou favoravelmente ao inglês. Pois então, a concorrência que se desdobre porque o DC Ilustrado inaugura uma nova fase de entrevistas com artistas internacionais. Jean Luc Ponty (Avranches, 1942) tem formação clássica, pois é bacharel em violino pelo Conservatório Nacional de Paris. É compositor aclamado pela crítica especializada em todo o mundo do jazz. Com 43 álbuns entre CDs e LPs, além de 8 DVDs, teve como influência musical John Contrane e nos anos 70 trabalhou com Frank Zappa. Jean Luc está em turnê mundial lançando seu novo CD: The Atacama Experience, que resultou de viagens em concertos pelo Chile e Índia. Diretamente da cidade de Sttugart, Alemanha, ele enviou seu e-mail generosamente respondendo a uma bateria de perguntas. Eis nossa conversa com o cara. DC ILUSTRADO - Seu pai foi violinista. O senhor, naturalmente, se sentiu atraído pela música e, quem sabe?, pelo violino, ainda na infância. Fale-nos um pouquinho sobre sua iniciação musical e como foi essa coisa de pai pra filho. Vocês chegaram a tocar juntos concertos de Bach e Vivaldi? Jean Luc Ponty - Eu era muito atraído por música quando era bem jovem e meus pais me ensinaram a escrever música antes do alfabeto. Quando eu tinha 5 anos, meu pai começou a me ensinar violino e minha mãe piano. Quando eu tinha 11 anos, eles me pediram para escolher um dos dois. Eu escolhi o violino, mas continuei estudando piano até 14 anos como meu segundo instrumento. Depois comecei a estudar clarinete como 3º instrumento. Sim, nós tocávamos compositores clássicos em trio e duo em casa. DC ILUSTRADO - A crítica musical e os estudiosos da música internacional classificam sua obra de maneira diversa... Jazzrock, fusion, modal-jazz e por aí vai... E o senhor, como classifica sua própria música? É possível, é aconselhável um rótulo para sua arte? Jean Luc Ponty - Eu comecei como um puro violinista de jazz, mas, como eu me mudei da França para os EUA, minha música também viajou por todo o mundo. Minha música engloba experiência de vários estilos musicais. Primeiro, eu desenvolvi uma paixão por jazz por 2 fatores: improvisação e ritmo. E para mim é excitante improvisar em diferentes ritmos originados de todo o mundo. Como compositor, eu retenho a influência das culturas nas quais eu me desenvolvi: música clássica européia, incorporação do lirismo e poesia que estavam enraizadas da minha infância. Então, quando eu escrevo minha própria música, eu inconscientemente misturo todas essas influências e nunca me preocupo com rótulos. Para mim, está tudo bem se me chamarem de violinista de jazz. Músicos como nós geralmente são rotulados de jazz fusion por englobar várias mutações do jazz a partir da tradição original. DC ILUSTRADO - Filho de peixe, peixinho é, diz um ditado brasileiro. Sabemos que o senhor tem duas filhas. Alguma delas está trilhando o caminho da música, e, por acaso, com o violino? Jean Luc Ponty - Sim, uma delas, chamada Clara Ponty. É uma pianista profissional e compositora. Ela também canta agora e escreve suas músicas que já cruzaram a música clássica do mundo. Ela já está produzindo alguns álbuns de sucessos nos EUA e na Europa. No momento ela já está preparando seu próximo álbum. DC ILUSTRADO - O senhor tem convivido com os músicos de sua banda por mais de 10 anos. Existe alguma fórmula ou segredo para manter a banda unida durante tanto tempo? Jean Luc Ponty - Não há segredos nem formula. Eu testo músicos tocando com eles privadamente e eu uso meu instinto. Eu julgo eles pela sensibilidade, pelas suas técnicas, mas, também, pelas suas personalidades. Eu sinto se há afinidade ou não. Na maioria das vezes, eu acerto. Como a banda que eu tenho agora. Guy no baixo e Taffa da percussão estão comigo há 17 anos. DC ILUSTRADO - Onde o sr. mora? Onde é sua casa, atualmente? Jean Luc Ponty - Minha vida está entre Estados Unidos, França e Suíça, agora. Isto pode mudar este ano, fiquei uma espécie de nômade moderno. DC ILUSTRADO - Pode nos contar um pouco de sua rotina diária? Você se reserva um tempo diariamente para tocar violino todos os dias? Jean Luc Ponty - Eu tento praticar todo dia entre uma hora e meia a 2 horas, mas, quando eu viajo, isto nem sempre é possível. DC ILUSTRADO Dos seus 7 instrumentos de concerto, o sr. gosta mais de tocar o violino tradicional (Barcus Barry) ou o violino elétrico (Zeta)? Aos 13 anos você desejou ser um violinista clássico concertista? Conte-nos um pouco sobre essa história... Jean Luc Ponty - Me diverti com o Zeta por um longo tempo, especialmente com o sistema MIDI. Mas, eu sempre trabalhei muito com o EQ para um fazer som morno e rico. É um bom instrumento se você quer um som eletrônico, fechado como trompete ou um sax superior a um violino tradicional. Agora eu prefiro tocar no violino eletro - acústico que é um instrumento tradicional com um captador interno, para obter um som granulado do violino tradicional. A amplificação me dá um grande e moderno som. E agora o cinco cordas de acabamento de madeira feito por Barcus-Berry em 1980 é meu favorito. Respondendo à sua 2ª questão: eu não era atraído pela idéia de me torna um virtuoso clássico. Minha vocação era me tornar um regente clássico. Aí eu comecei a estudar regência, e também a tocar jazz. Daí, vocês sabem o resto. DC ILUSTRADO Quando nos conhecemos em sua turnê Rite of Strings de passagem pelo Brasil, foi na cidade de Curitiba, em 1995. Perguntei o que você estudava como exercício de manutenção técnica do violino. O sr. entrou em seu camarim e trouxe um livro de técnica clássica para violino do professor Ottakar Sévick. O que poderia ser considerado para o sr. os exercícios diários de um violinista de jazz? Jean Luc Ponty - Na minha opinião, qualquer livro de técnica é um bom estímulo para as nossas conexões cerebrais entre nervos e músculos. Isso faz você estar mais preparado para assumir riscos quando for improvisar. Mas você deve também tocar jazz em casa para manter ritmo nas frases, especialmente cuidado com o arco do violino. DC ILUSTRADO Você ouve música clássica em casa? Haveria violinistas clássicos prediletos no passado? E hoje, existe algum? Existe algum violinista de jazz que o sr. goste de ouvir? Jean Luc Ponty - Sim, na minha juventude meu favorito era o violinista russo David Oistrakh. Então, em 1970 eu encontrei Itzhak Perlman nos USA. Também a violinista Viktoria Mullova da Rússia. E agora eu estou muito impressionado com a arte de Vadim Repin, da Sibéria. Eu também gosto da violinista norte-americana Hilary Hahn e de Joshua Bell, com quem eu também já me encontrei. DC ILUSTRADO Você ainda toca música clássica em casa? Jean Luc Ponty - Eu sigo tocando as sonatas solo de Bach. Algumas vezes, durante muitos anos, um concerto dele. Mas agora eu tenho muita coisa para fazer todos os dias. Além de compor e praticar, eu apenas pratico técnica para tocar minhas músicas e improvisar. DC ILUSTRADO Como é seu processo criativo musical? O sr. usa o violino ou o piano para compor, isto é, criar uma nova obra musical? Jean Luc Ponty - Principalmente piano. Se estou em uma turnê e ouço música na minha mente e não tenho acesso ao piano, então eu uso o violino até obter o teclado. Mas, geralmente, eu tenho apenas escrito poucas peças ao violino, apenas aquelas que podem ser influenciadas pelo instrumento. DC ILUSTRADO Com que freqüência (semanal ou diariamente) lhe ocorre os temas musicais? Jean Luc Ponty - Às vezes um dia, na semana, etc. Sons são como uma questão de sexo, (ha, ha, ha,...!). Inspiração musical não é como uma questão de desejo sexual. A inspiração vem muito irregularmente. DC ILUSTRADO O sr. já disse que está planejando escrever um livro. O que você diria diante do fato de que isso seria bom para as novas gerações de violinistas que te admiram? Jean Luc Ponty - Eu digo isso porque vários jornalistas e amigos sugerem que eu escreva um livro sobre minha vida. Isso depois que escutaram minhas estórias sobre os anos 60 e os músicos que eu encontrei. Mas, isso seria um livro para fãs e músicos em geral interessados em aprender como foram as influências na minha evolução. Para os violinistas jovens, escutar minhas gravações e assistir a um DVD irá dar a eles mais clara visão do que ler um livro. Eu dei muitas master class (= aula-mestra) e percebi que cada músico requer um diferente conselho ou orientação para desenvolver um estilo pessoal. Algumas vezes escrevo artigos para a revista britânica Strad, que se dedica a músicos principalmente clássicos. Ela também é aberta para outros estilos. DC ILUSTRADO O lendário violinista francês Stephane Grappelli em turnê pelos Estados Unidos em 1978 no Carnegie Hall (New York City) tocou uma música de sua autoria Golden Green. Vocês gravaram juntos the Violin Summit em 1966. Quanto tempo durou sua atividade musical com Grappelli? Como era o convívio com ele? Jean Luc Ponty - Nós apenas gravamos 2 álbuns juntos. Violin Summit, como você mencionou, foi uma gravação ao vivo na Suíça em 1966 com os violinistas Stuff Smith, Svend Asmussen, Stephane e eu. Também gravamos um outro álbum intitulado: Jean Luc Ponty & Stephane Grapelli gravado em 1973 na França. Nós fizemos duas ou três aparições na TV juntos na França e tocamos no Berlin Jazz Festival. Tudo entre 1966 e 1973. Algumas pessoas acreditam que eu estudei com ele ou que ele é meu mentor, o que não é verdade. Ele mesmo publicamente disse que eu nunca fui seu discípulo e sim amigo. Ele percebeu, na 1ª vez em que me ouviu, que eu tinha mudado a concepção do violino jazz rompendo seu estilo e seu tradicional swing school. Ele me disse que me respeitava por isso. Embora ele não fosse uma influência para mim, eu tenho uma grande admiração pelo talento dele. Depois que eu me mudei para os Estados Unidos, nos vimos muito raramente. DC ILUSTRADO Para executar suas apresentações com banda, o sr. prefere tocar mais em opera house, salas de concerto ou em palcos ao ar livre? Jean Luc Ponty - Não é um assunto tão longo quantos trabalhos acústicos para um banda de jazz com tambores e percussão. Salas de concerto e casas de ópera são feitas para a música clássica. Muitas vezes são ruins para tocar com tambores pertencentes à percussão africana. Por outro lado, eu amo locais clássicos para concertos de câmara como o trio Rite of Strings (violin, guitar, bass). Porque eu realmente posso ouvir os tons do meu instrumento e isso é divertido ao tocar, daí eu uso pequenas amplificações. DC ILUSTRADO Parece que o sr. foi um dos pioneiros do videoclipe no mundo? Conte-nos essa história... Jean Luc Ponty - No começo dos anos 80, quando a MTV e o VH1 foram criados nos Estados Unidos, companhias de gravação começaram a produzir vídeos musicais para promover novos álbuns de seus roqueiros e artistas populares. Desde que eu comecei a ser vendido como alguns álbuns como rock e bandas populares, a Atlantic Record passou a ter uma porção de vídeos produzidos por mim. Mas, meu maior vídeo de sucesso foi um feito por um cinematógrafo de Hollywood que inventou uma nova técnica e fez um curta-metragem com várias rápidas imagens de cidades americanas editados com minha música. Isto foi visto muito por todo o mundo. Alguns telespectadores conheceram a minha música desse modo. DC ILUSTRADO Como foi a experiência de tocar com o violinista russo Vadim Repin? Onde e o que vocês tocaram? Jean Luc Ponty - Isto foi em Varsóvia, capital da Polônia. Lá, existe um festival anual de músicas de filmes e eles produzem um concerto apenas com violinistas, tocando músicas de filmes com uma grande orquestra sinfônica. Há diferentes estilos de música, do blues progressivo ao pop, jazz até o clássico. Vadim era o violinista clássico e o arranjador tinha feito arranjado um duo para ele e para mim baseado no tema do filme Gladiador. Cada um de nós teve uma variação. Todas as notas são escritas por Vadim, e claro que as minhas eram improvisadas. Mas, Vadim queria tentar improvisar e pediu-me que eu o ensinasse em um ensaio um dia antes do concerto. Eu o adverti que improvisar em um estilo clássico não era possível para um jazz violinista em 1 dia. Então, expliquei como ele poderia improvisar primeiro com arpejos nas mudanças de cordas. Então, ele entendeu diferentes harmonias para improvisar de forma linear com base em linhas melódicas. Ele é muito inteligente e talentoso. Tanto, que ele foi capaz de improvisar suas variações no estilo clássico no concerto do outro dia. DC ILUSTRADO Diante de toda sua espantosa e numerosa discografia, qual o disco que você mais ama? Qual lhe deu mais prazer em realizar? Jean Luc Ponty - Eu sempre prefiro minha ultima gravação, porque ela é o somatório das minhas experiências ao longo do ano em termos de técnicas, improviso e som. Então, minha predileta agora é The Atacama Experience, até haver outro. DC ILUSTRADO Ponty já ministrou master class na Rússia para jovens violinistas do jazz. O sr. mantém uma relação de ensino com algum aluno? Jean Luc Ponty - Sim, com dois deles. Um músico mantém um estilo funky, ele tem uma boa pegada musical. O cara cresceu em uma cidade americana chamada Felix Lahuti. A outra é uma jovem de 19 anos que escreve suas próprias músicas. Ela tem uma técnica espantosa, onde improvisa com sons muito modernos de um jeito que usa os slides e ritmo. Continua estudando no Conservatório de Moscou. DC ILUSTRADO A tecnologia de ponta, como a internet, está revolucionando a comunicação e a própria arte. Fala-se muito da democratização do acesso às artes, mas também da questão da pirataria. Jean Luc Ponty tem uma opinião definida sobre isso? O senhor se sente mais prejudicado ou beneficiado nessa história toda? Jean Luc Ponty - O mundo continua mudando e a música apenas será distribuída na internet. Isto não é uma coisa ruim e pode ser um jeito de jovens artistas produzirem suas músicas gratuitamente, sem ter uma companhia de gravação dizendo o que eles devem gravar. Mas, terá tanta música disponível que será difícil expor para um grande público. Eles terão apenas alguns espectadores. Os anos 60 e 70 foram bons para instrumentistas como eu e outros, porque nós vendemos milhões de álbuns sem ter que lidar com o lado comercial dos negócios. Nós apenas tocávamos e as companhias cuidavam dos assuntos comerciais. Agora os jovens artistas devem se envolver com negócios, e isso é mais trabalho. Então, isto é bom e ruim, ao mesmo tempo nessas mudanças. Agora há a realidade da pirataria. Como os jovens músicos que vivem de música podem comprar seus instrumentos e equipamentos? Se ninguém paga pela música, então eles devem conseguir tudo de graça: comida, apartamento, etc. DC ILUSTRADO O Brasil é um país muito grande, diverso, onde todos os dias acontecem coisas ruins e coisas boas. E que nem sempre são divulgadas de forma apropriada pela mídia. Quando o senhor ouve falar do Brasil, quais são as idéias ou imagens que primeiro lhe vêm à cabeça? Jean Luc Ponty - Minha imagem pessoal do Brasil é de um país grande com algumas das mais belas paisagens do planeta, com uma população miscigenada que produz música com influências do mundo todo. Eu amo a platéia brasileira nos concertos, as pessoas são calorosas. Eu também sei, lendo os jornais, documentários e lendo sobre a história do Brasil, que muitas coisas maravilhosas aconteceram em momentos e situações difíceis. Eu sei que não escutamos coisas boas sempre, mas isto acontecem com outros paises também. DC ILUSTRADO Tudo indica que o sr. retira inspiração para compor novas músicas de suas viagens e turnês pelo mundo, por outras culturas, como, por exemplo, no CD The Atacama Experience. Fale-nos sobre este novo CD. Jean Luc Ponty - Isto está tudo explicado em detalhes no meu web site. Vou só acrescentar que eu não tive influência direta de cada país. Mas, viajando, eu estimulei minha imaginação e isto me fez produzir o álbum num modo que pode ser uma viagem musical. DC ILUSTRADO O sr. acha que o Brasil, um dia, poderá inspirá-lo a compor um novo CD? Dê uma olhada nas imagens do Google.com que selecionamos do Pantanal de Mato Grosso e veja se ele inspiraria o sr. a compor um novo álbum. Jean Luc Ponty - Quando eu estava caminhando no Jardim Botânico do RJ em 1988, eu comecei a ouvir uma peça na minha cabeça, que eu escrevi imediatamente quando retornei ao hotel. Isto se tornou a música The Amazon Forest que está no álbum Storytelling. Então, eu freqüentemente sou inspirado pela natureza e isto pode acontecer na sua bela região também. Mas, isto não acontece automaticamente. DC ILUSTRADO Para encerrar. Jean Luc, o sr. tem consciência de que colocou o violino na Pós-modernidade da Música Ocidental em pleno século XXI? O sr. está contente com sua carreira de apreciado e reconhecido artista internacional? O sr. é feliz? Jean Luc Ponty - Sim, eu sou muito feliz com minha carreira. Mas, há outras coisas na vida que estão ao lado da carreira e que acontecem ao longo do mundo e na política que me deixam muito triste. DC ILUSTRADO Muito obrigado, Jean.