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Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010, 20h:17

AUDIOVISUAL

Gerações unidas no palco e na plateia

Arnaldo Antunes e muitos amigos, na casa do artista, articularam o show Iê Iê Iê, que teve turnê de sucesso. DVD foi lançado em São Paulo no último final de semana

Lauro Lisboa Garcia
Agência Estado
Há tempos Arnaldo Antunes vinha acalentando a ideia de fazer um show em casa para convidados. Em agosto, juntou a antiga vontade com a comemoração de seus 50 anos. Montou um palco no terraço em cima de seu escritório, na ala do quintal, e registrou o show da bem-sucedida turnê de Iê Iê Iê, um dos melhores álbuns de 2009. O DVD, com direção de Andrucha Waddington, foi filmado em HD, teve patrocínio do projeto Natura Musical, e teve show de lançamento no domingo (21/11), no Citibank Hall. A festa reuniu gente de diversas gerações, bem como canções que versam sobre a questão do tempo, como "Envelhecer", "Sou Uma Criança", "Não Entendo Nada" (de Erasmo Carlos, que cantou com o anfitrião), "Já Fui Uma Brasa" (samba de Adoniran Barbosa e Marcos César que abre o show numa roda de fundo de quintal com os Demônios da Garoa) e "As Melhores Coisas", tema do filme "As Melhores Coisas do Mundo", de Laís Bodanzky, sobre adolescentes Além de Erasmo, Jorge Ben Jor e Fernando Catatau participaram do show como convidados. Com exceção de seu contemporâneo Edgard Scandurra, a banda que acompanha Arnaldo é de músicos mais jovens (Marcelo Jeneci, Betão Aguiar, Curumin, Chico Salem). "Esse convívio entre pessoas mais velhas e mais novas tem uma riqueza bacana. Tem a ver com o fato de ser uma festa de 50 anos É uma reflexão sobre a passagem do tempo." Ao cantar "Envelhecer", ele a dedica a si mesmo, a propósito do aniversário, e a todos "que enfrentam e afrontam o medo de envelhecer". "Várias coisas que falo na música a gente já sente: os filhos crescendo, o cabelo caindo, amigos que morrem. Agora a música eu fiz não impulsionado pelo fato de estar vivendo uma situação de velhice, mas muito pelo desejo de enfrentar o temor da proximidade do que vai vir ainda. É uma projeção futura. Há certa curiosidade para o que será isso e certo temor. A música é feita para responder a esse temor com uma forma de enfrentamento e o desejo de manter certa inquietude. Quero coisas que me façam levantar do sofá, que mantenham a vitalidade dentro dessa perspectiva de confrontamento." Amigos, família, artistas e outras pessoas ligadas à música - como Wanderléa, BNegão, Ortinho, Péricles Cavalcanti, o estilista Marcelo Sommer (que fez o cenário com as camisetas), Marina Lima, Paulinho Boca de Cantor, Arto Lindsay, Beto Villares - lotaram a casa na Vila Madalena para a gravação do DVD, que mistura o show com cenas da festa de 50 anos de Arnaldo "É como se fosse a Festa de Arromba lá na jovem guarda", brinca Arnaldo. "A graça do DVD é justamente não mostrar só o show, mas as pessoas na festa." Ele deu uma arrumada na casa e mexeu com a rotina da família e do bairro. "Nos cinco dias que antecederam a gravação, eles saíram da casa, tomada por uma equipe de 30 pessoas montando grua, estruturas, cenário. Parte do telhado foi retirada para a construção de uma passarela para a passagem da câmera, os quartos viraram cabines de vídeo e som. Os vizinhos foram avisados, os mais próximos, convidados para a festa, gerador de energia e caminhão de equipamentos ficaram estacionados na rua. O som deu pra ouvir a três quadras dali. Enfim, "a vizinhança inteira ficou sabendo". Arnaldo sempre gostou da "coisa híbrida", desde o início da carreira, já nos primórdios dos Titãs. Então, não surpreende que hoje junte o samba de Adoniran com o samba-rock de Jorge Ben Jor (que canta suas parcerias com ele "As Árvores e Cabelo"), um rock novo de Erasmo ("Jogo Sujo") e outro antigo de Luiz Melodia ("Pra Aquietar"), uma canção romântica de Odair José ("Quando Você Decidir"), outra de Frank Carlos ("Americana", originalmente um forró) e o sambão carnavalesco "Vou Festejar" (Jorge Aragão, Noeci Dias e Dida), um dos achados do repertório, transformado em rock. "Desde os Titãs já tinha esse barato de curtir as coisas de ponta, o que era considerado alta sofisticação e o considerado lixo. E achar afinidades entre essas pontas." Sem saudosismo, ele criou novos hits no estilo iê-iê-iê - "A Casa É Sua", "Invejoso" (com participação do guitarrista Fernando Catatau no DVD), "Envelhecer", as baladas "Meu Coração" e "Longe" - e trouxe canções de álbuns anteriores, como "Cabelo", "Consumado" e "Essa Mulher" para esse formato. Ele se vê de novo no centro de uma efervescência musical em São Paulo, como nos anos 80, quando começou. "Há uma cena favorável, artistas e lugares onde as pessoas podem tocar e muito intercâmbio, as pessoas compõem juntas, participam uma do disco e do show da outra, como Tulipa, Tatá Aeroplano, eu participei do disco do Ortinho, do próximo do Romulo Fróes, tenho parcerias com Marcelo Jeneci. O fato de Cidadão Instigado (Ceará), Nação Zumbi (Pernambuco) e Lucas Santtana (Bahia) terem vindo morar em São Paulo já contaminou de possibilidades de parcerias, de participações. E há também um intercâmbio legal de pessoas do Rio, como Kassin, Domênico, Moreno Veloso, Jonas Sá, Davi Moraes São artistas com quem também trabalho. É uma rede de gente muito talentosa."

Edição EDIÇÃO 16960




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