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Cuiabá MT, Quinta-feira, 18 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 04 de Julho de 2009, 13h:55

FLIP

Escritores se revelaram nas entrevistas

Entre os destaques Lobo Antunes, indagado sobre uma doença séria que teve, saiu com esta pérola: “Não há doenças, há falta de educação da natureza”

Lorenzo Falcão
Enviado Especial
A coletiva com o escrito António Lobo Antunes foi um momento mágico da FLIP. Só por ela já teria valido a pena a vinda à Paraty. O autor português demonstrou um conhecimento espantoso sobre a literatura brasileira que, aliás, parece ter influenciado muito em sua formação. Citou autores e artes de todos os tempos da história da humanidade, com humor e inteligência de fazer inveja. Mencionou autores brasileiros como Monteiro Lobato, João Ubaldo Ribeiro, Aluízio de Azevedo, José de Alencar, João Cabral, Drummond, Bandeira, Jorge de Lima, Paulo Mendes Campos e por aí vai. Emocionou-se visivelmente ao falar de Jorge Amado, com quem tinha grande amizade. Disse que começou a conhecer bem a literatura brasileira graças à biblioteca da casa de seu avô, que freqüentava muito, desde a infância. Lobo Antunes, a cada resposta a uma pergunta soltava mirabolantes e às vezes bem humoradas frases de efeito. “Não me interessa contar histórias, para escrever, primeiro, crio o meu território ficcional”. “Um livro não deve ter um significado exclusivo. O que interessa é falar no por dentro das pessoas, nos conflitos internos de cada um que são os mesmos, apesar das diferenças individuais”. “Um livro é um organismo vivo. Tem sua fisionomia e suas leis próprias”. “A distância entre o quem sentimos e o que fica no papel é enorme. O que resta é corrigir, corrigir e corrigir”. É o tipo de entrevista onde o repórter não consegue ficar parado. Sente a necessidade de escrever ao pé da letra cada frase, cada palavra do escritor. O escritor português, que tem formação em medicina, desfiou um rosário de causos. Lembrou que foi praticamente obrigado, pelo seu pai, a estudar medicina, já que esse curso, na pior das hipóteses, o ajudaria nas letras e também não deixaria que ele ficasse com os vícios de quem se dedica exclusivamente às letras. Formado em psiquiatria, Antunes chegou a pensar em estudar para ser dermatologista, mas descobriu que estava muito mais para Dostoiévski do que para furúnculos. A passagem do tempo também suscitou frases do lusitano: “A idade adulta não é mais do que a infância fermentada” ou “Numa certa altura da vida, jogamos todos com as cartas à mostra”. Indagado sobre uma doença séria que teve, Antunes saiu com esta pérola: “Não há doenças, há falta de educação da natureza” O DC Ilustrado também acompanhou – e com gosto, coletivas com autores franceses presentes à FLIP. A crítica de arte e autora, Catherine Millet, a artista conceitual, e também autora literária, Sophie Calle e seu ex-marido, Grégoire Bouillier, escritor. O amor e outras coisas importantes da vida estão nas obras deste trio francês que não fica só nessa de ficção. Suas obras vasculham e expõe, às vezes com quase nada de pudor, a interioridade e, porque não, a própria intimidade de cada um deles. Lógico que as coletivas (Sophie e Catherine falaram juntas, e Grégoire falou sozinho) imprensaram esses autores contra a parede, no sentido de sugar-lhes o máximo a respeito de uma possível distinção entre o que seria realidade e o que seria ficção em suas respectivas obras. Dizem que não se sabe, exatamente, na obra de cada um deles, onde termina a vida e começa a representação. É preciso registrar que Sophie e Grégoire foram companheiros e se separaram há pouquíssimos anos. A separação foi algo traumática, pelo menos para Sophie, e lhe rendeu todo um trabalho de arte conceitual. Após a separação, se reencontraram agora, pela primeira vez, na FLIP. Sobre as intimidades ou interioridades expostas em suas obras, região para a qual convergiram a maioria das perguntas, eles se portaram com a inconfundível elegância francesa: “Não se deve recriminar o escritor pela exposição da sua intimidade” (Grégoire Bouillier). “O fato de se expor não significa uma fuga da ficção” (Grégoire Bouillier). “Escrever é um verbo intransitivo. Primeiro, preciso escrever, depois vem sobre o quê” (Catherine Millet). “O que me interessa é o fato de escrever a obra e emocionar com ela” (Grégoire Bouilier). “Meu trabalho não sou eu. Quem o vê não quer dizer que está me vendo” (Sophie Calle). “Não sei inventar uma história. Só sei escrever sobre o que já presenciei” (Catherine Millet).

Edição EDIÇÃO 16964




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