O livro 'Mulheres dos outros: Os viajantes cristãos nas terras a oriente (séculos XII-XV)', de Susani Silveira Lemos França, analisa uma imensa quantidade de relatos de viajantes cristãos dos séculos XIII ao XV sobre as mulheres de outras culturas, especialmente da China, Mongólia e Índia, e traça uma linha que dá significado ao modo como eles as viram e a seus costumes. Professora livre-docente em História Medieval da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Unesp em Franca e doutora em Cultura Portuguesa pela Universidade de Lisboa, a autora observa que, embora tenham lançado para as estrangeiras um olhar apenas enviesado, sem as pretensões dos letrados de moldá-las aos ditames da cultura ocidental, aqueles homens só puderam vê-las a partir de um mesmo referencial, o da fé cristã, e comparando-as às conterrâneas: Essas pinceladas [...] dizem certamente menos sobre as mulheres dos outros do que sobre as conhecidas e modelares dos próprios viajantes, [...] dizem mais sobre o que os viajantes projetavam para suas mulheres ou conheciam como próprio delas do que sobre os hábitos, costumes e feições das mulheres de lá. A obra, lançada pela Editora Unesp (230 páginas, R$ 49) analisa o que o discurso dos homens cristãos revela acerca deles próprios e de sua civilização quando tratou das mulheres de lugares remotos. A autora pergunta: Que valores e questões fundamentais convergem para que os viajantes definam suas impressões sobre as terras a oriente e as mulheres de lá?. Por formarem um conjunto discursivo privilegiado, uma narrativa dos valores partilhados e fórmulas bem aceitas no fim da Idade Média, os relatos diriam muito sobre tais indagações. E teriam contribuído inclusive para reafirmar a verdade cristã sobre o ser humano, a qual não se acreditava pontual, mas eterna.