ILUSTRADO
Sábado, 09 de Novembro de 2013, 13h:10
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A CIDADE VIVE DOS QUE VIVEM E VIVERAM NELA
Dr. Orivaldo Amâncio Nunes Filho: O nosso maior oftalmologista tem saudades da Cuiabá antiga
Evaldo de Barros
Especial para o Diário de Cuiabá
O Dr. Orivaldo Amâncio Nunes Filho senão o mais famoso é um dos mais famosos ex-alunos da Escola Lenine de Campos Póvoas. É que tradicionalmente a elite e a classe média cuiabanas estudavam na Escola Modelo Barão de Melgaço, na Praça da República, no prédio denominado Palácio da Instrução ou no também famoso Grupo Escolar Senador Azeredo (Peixe Frito) no bairro do Porto. O apelido peixe frito originou-se do fato de a quase totalidade dos alunos levarem peixe frito como merenda. Bons tempos aqueles pois, hoje, uma posta de peixe é mais cara do que um bife de carne de gado ou um pão com manteiga. Quem diria!... Então retomando o fio da meada, é de ver-se que como a meninada buscava a Escola Modelo ou o Senador Azeredo evidentemente que desses dois educandários eram originárias as pessoas de sucesso: profissional, político e empresarial. Também por serem as escolas mais procuradas, naturalmente pontificavam nesses dois centros de estudos as mais competentes professoras do magistério estadual. Como em toda a regra há exceção, os gênios poderiam ser gerados fora dos limites dessas duas tradicionais instituições de ensino. E foi exatamente o que aconteceu com o nosso focalizado de hoje, Dr. Orivaldo, o mais famoso e renomado oftalmologista de Mato Grosso que foi aluno da Escola Lenine de Campos Póvoas. DC ILUSTRADO: Fale-nos do seu início de vida, Dr. Orivaldo. Dr. ORIVALDO: Sou cuiabano de tchapa e cruz, filho dos também cuiabanos roxos Orivaldo Amâncio Nunes e D. Angelina Grisólia Nunes e nasci no dia 1º de março de 1962. Minha primeira professora na Escola Lenine Póvoas foi Sônia Figueiredo, filha do saudoso Joaquim Figueiredo e de D. Alba Calhau de Figueiredo, tradicionais cultivadores do nosso caju e exímios produtores de doce dessa fruta. Desejo enfatizar que sempre estudei em escola pública e isso muito me orgulha. DC ILUSTRADO: Antes da divisão do estado o sr. morou em Campo Grande? Dr. ORIVALDO: Sim, o meu pai decidiu atuar na construção civil e a família transferiu residência para Campo Grande. Ali estudei o ginásio na Escola Lúcia Martins Coelho e nas horas vagas desenhava as plantas e pintava as casas construídas pelo meu pai. Uma maneira de ajudar a família e preencher o tempo trabalhando. DC ILUSTRADO: E a faculdade de medicina? Dr. ORIVALDO: Ganhei uma bolsa de estudos e fui estudar no MACE - Moderna Associação Campograndense de Ensino - que foi a única escola particular do meu currículo estudantil. Quando estava no 1º ano do 2º grau passei no vestibular para engenharia. Depois, já no 2º ano, fiz vestibular para medicina e também fui aprovado. Quando terminei o 30 ano fiz novo vestibular e pude, fianalmente, ingressar na Universidade. DC ILUSTRADO: Quer dizer que o sr. fez três vestibulares? Dr. ORIVALDO: Exatamente. Nos dois primeiros vestibulares fui aprovado mas não podia entrar na Universidade porque não havia terminado o segundo grau. Então só quando fui aprovado no terceiro vestibular é que consegui o ingresso no curso de medicina. Uma luta, não é? DC ILUSTRADO: Desde sempre o sr. foi uma pessoa que se destacava, pois não? Dr. ORIVALDO: Mais ou menos. Eu batalhava e estudava muito. Sempre persegui resultados em minha vida e ainda acho que com determinação e entusiasmo as coisas acontecem. Nós não podemos esperar acontecer; temos que fazer acontecer. DC ILUSTRADO: E a formação médica? Dr. ORIVALDO: Tornei-me médico pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul no período de 1981 a 1986. Concluído o curso mandei o meu currículo para Bordeaux, na França. Como estava em débito com o serviço militar não pude seguir viagem. DC ILUSTRADO: E teve que ingressar no exército já médico formado? Dr. ORIVALDO: Pois é. Tive que cerrar fileiras no exército e fui mandado servir como médico generalista na cidade de Aragarças, em Goiás. Um oftalmologista vocacionado assumiu a clínica médica num batalhão militar. Mas, tudo bem. Nós temos que dar asas aos nossos sonhos e acreditar neles. DC ILUSTRADO: O sr. se recorda de quem o incentivou para essa especialidade médica? Dr. ORIVALDO: Foi o Dr. Ramiro Alberti, ainda vivo e famoso em Campo Grande. Ele foi o meu orientador profissional. DC ILUSTRADO: O sr. fez residência médica? Dr. ORIVALDO: Olha Evaldo, esse nosso surrado provérbio depois da tempestade vem a bonança é verdadeiro. Cruzou em meu caminho o Dr. Nelson Telechesky, um grande oftalmologista gaúcho e fui fazer residência na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Tornou-se um amigo fraterno e até me cedeu um apartamento já montado para morar. Inicialmente sem custo e, depois, com um aluguel simbólico. Fiquei na Santa Casa de Porto Alegre durante três anos e dali saí, para meu orgulho e para massagear o meu ego, como o melhor residente que a Santa Casa já teve. Com o término da residência fui estudar nos Estados Unidos. Ainda hoje estudo diuturnamente e compareço a Congressos e Seminários nacionais e internacionais. O mundo é dinâmico, a fila anda e precisamos acompanhar a evolução da ciência para não perdermos o bonde da história. DC ILUSTRADO: E o retorno para Cuiabá? Dr. ORIVALDO: Meu saudoso pai ficou doente e eu vim cuidar de quem sempre cuidou de mim. Montei meu consultório na rua Cândido Mariano e passei a trabalhar incansavelmente como, aliás, faço até hoje. DC ILUSTRADO: O sr. nos permite publicar o seu currículo? Dr. ORIVALDO: Tenho algum resumo aqui. E se você quiser Evaldo, pode publicá-lo. Formado pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, no período de 1981 a 1986. Residência em oftalmologia na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, no período de 1987 a 1991. Estágio supervisionado no Wills Eyes Hospital em Julho de 1991 a Novembro de 1991. Fundador do Hospital de Olhos de Cuiabá em 1998, Hospital de referencia internacional com 5 salas cirúrgicas, 10 salas de exames, 17 consultórios, um auditório com sistema de áudio e vídeo integrado. Fundador da Clinica e Microcirurgia de Olhos, clinica voltada exclusivamente para atendimento do Sistema Único de Saúde, realizando cirurgias oftalmológicas e exames complementares, realizando multirões de catarata, atendendo todo o Estado do Mato Grosso, com volume cirúrgico de aproximadamente 400 cirurgias por mês. Pioneiro em cirurgias de transplantes de córnea e ultilizaçao de cultivo de células limbares utilizados nos casos dramáticos em que os transplantes tradicionais tem alto índice de rejeição. Especialista em oftalmologia pela Sociedade Brasileira de Oftalmologia. Médico especialista em segmento anterior e posterior. Membro internacional da Academia Americana de Oftalmologia. Membro internacional da Academia Europeia de Oftalmologia. Membro internacional dos Cirurgiões de catarata e cirurgia refrativa pela Sociedade Brasileira de Catarata e cirurgia Refrativa. Formou mais de 8 oftalmologistas como orientador e fundador da Residência em Oftalmologia no Hospital de Olhos de Cuiabá, todos com títulos de especialistas em oftalmologia. Pioneiro na introdução das cirurgias refrativas com uso de Excimer Laser (Nidek) em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Aracajú. Pioneiro em Mato Grosso na aquisição de vários equipamentos, tais como: Vitreófago, Endolaser, Yag Laser, Laser de Argonio, Excimer Laser, Femtosecond LASER, Angiográfo, OCT, Pentacam, Orbscan, Topógrafo, IOL Master. Realizou no período de setembro de 1998 a junho de 2013 mais de 70.000 cirurgias refrativas, utilizando o Excimer Laser. Fundador do Banco de Olhos Hospital de Olhos de Cuiabá, a primeira instituição e Mato Grosso, autorizada pelo Ministério da Saúde a captar, armazenar e distribuir córneas no Estado. Quando o Banco de Olhos iniciou suas atividades a lista de espera era de 480 pacientes e demorava-se uma média de 5 anos para realizar um transplante de córnea, e atualmente a lista de espera é de 2 meses, tendo aproximadamente somente 60 pacientes na lista de espera. Cerca de 95% desses pacientes foram operados pelo Dr. Orivaldo Amancio Nunes Filho. Pioneiro no Brasil em realizar cirurgia com córneas artificiais (Ceratoprótese de Dohlmann) com mais de 20 casos sendo premiado em primeiro lugar no Festival de Videos em Natal-RN ( http://festivalvideosalcon.wordpress.com/2011/05/12/campeao-categoria-revelacao/ ), concorrendo com várias entidades de renomes nacionais (Escola Paulista de Medicina, USP, e outros grandes centros oftalmológicos do Brasil). Realizou mais de 90.000 cirurgias de catarata com utilização de anestesia tópica. Pioneiro na realização de cirurgias de: Catarata com Facoemulsificaçao com anestesia tópica com utilização de lentes multifocais da Alcon Restor e da Zeiss Acrilisa; cirurgia de Vitrectomia; Retinopexia; Cirurgias de anéis Intraestromais; Crosslink; Transplantes lamelares (endotelial e estromal) Pioneiro na América Latina na técnica de SMILE com uso do equipamento Visumax e Mel 80 Zeiss. Pioneiro na realização de cirurgias com utilização de lentes multifocais da Alcon Restor e da Zeiss Acrilisa. Pioneiro em reconstrução de cavidade orbitária com utilização de Porex com pinos nos casos de tumores oculares. Único no estado a realizar cirurgias para alta miopia (acima de 14 graus) com as lentes de Artisan e ICL. Participou de vários congressos nacionais como palestrante e participa anualmente da Academia Americana de Oftalmologia, Academia Europeia de Oftalmologia. Convidado a escrever como autor o capitulo 77 do livro a ser lançado com titulo de Tratado Brasileiro de Catarata e Cirurgia Refrativa DC ILUSTRADO: Como surgiu o Hospital de Olhos? Dr. ORIVALDO: Desde quando fazia residência médica pensava em ter meu próprio hospital. Queria resolver os problemas dos pacientes num mesmo lugar. Vendi meu carro, me associei ao Dr. Jesus Aparecido Dias e montamos o Hospital de Olhos na rua Ramiro de Noronha 453, no bairro Jardim Cuiabá. Depois comprei a parte do sócio e piloto sozinho todo o complexo médico hospitalar. DC ILUSTRADO: Alguma tristeza, alegria ou mágoa? Dr. ORIVALDO: A grande tristeza é a resposta do paciente ao pós operatório. Nós não temos como controlar o cuidado pessoal pós cirúrgico. Minha alegria maior é fazer a pessoa enxergar, principalmente quando tem apenas um olho. Fiz um transplante na sra. Sandra Medianeira dos Santos e ela voltou a enxergar. Tenho várias mágoas mas prefiro deixá-las de lado e não me aborrecer. DC ILUSTRADO: Cuiabá de hoje é melhor que a cidade de antigamente? Dr. ORIVALDO: Sim e não pois tenho muitas saudades de antigamente quando sentávamos à porta e até a rua era molhada com lata dágua. Depois, antigamente, os vizinhos eram nossos parentes mais próximos. Estamos perdendo a tradição de camaradagem entre nós. CONCLUSÃO: Foi um grande prazer falarmos com e sobre o Dr Orivaldo, indiscutivelmente o nosso mais festejado oftalmologista. Irmão de Sônia e Eranildo - Sidney faleceu em desastre aéreo - o Dr. Orivaldo é dinâmico, emotivo e benfeitor. Recentemente e sem qualquer alarde convidou os colegas Edvaldo Nunes, Jairo Paes e Fabiana Piovezan, para montar um mini consultório móvel e foi operar gratuitamente em Rondonópolis, Juara e Terra Nova. Foi também ao Sangradouro e ali operou todos os índios carentes de cirurgia de catarata. Em um único dia ele já chegou a fazer 80 (oitenta) cirurgias de catarata em pessoas carentes. Quando terminamos o encontro com ele o segurança do hospital nos perguntou: o sr. conseguiu falar com ele? Tem dia que ele vai almoçar as sete horas da noite. Vocacionado, trabalhador, ético e reservado o Dr. Orivaldo Amâncio Nunes Filho está formatando a sua maravilhosa história de vida em sua terra natal e comprovando que a cidade vive dos que vivem e viveram nela.