Com uma ideia na cabeça e um computador na mão, jovens cineastas não precisam nem mais sair de casa para colocar seus projetos na vitrine. Na última década, vários talentos têm sido pescados de plataformas como o YouTube por grandes estúdios. Nomes como David F. Sandberg (“Quando as luzes se apagam”, 2016), Danny and Michael Philippou (“Fale comigo”, 2022, e “Faça ela voltar”, 2025), e o brasileiro radicado em Los Angeles Joe Penna, conhecido pelo canal MysteryGuitarMan, que fez a transição da plataforma de vídeos para o cinema ao dirigir o longa “Ártico” (2019), são alguns deles.
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Este ano, porém, alguma coisa aconteceu. De forma diferente dos antecessores, dois filmes completamente idealizados por jovens diretores egressos da plataforma de vídeos mais popular do mundo se tornaram fenômenos robustos de bilheteria: “Backrooms”, de Kane Parsons, e “Obsessão”, de Curry Barker.
O filme de Parsons custou cerca de US$ 10 milhões e arrecadou, até a semana passada, cerca de US$ 262 milhões globalmente, tornando-se a maior bilheteria da história da produtora e distribuidora americana A24. Já Curry garantiu ao estúdio Blumhouse a quantia de US$ 286 milhões no mercado mundial. Um feito notável para um filme que custou pouco mais de US$ 700 mil.
Os resultados despertaram o interesse da imprensa especializada, que passou a discutir se criadores formados na internet estariam inaugurando uma fase mais otimista para Hollywood. Tudo por conta dos números que apontam uma queda significativa no público das salas desde a pandemia de Covid-19 no início da década. Além disso, a venda global de ingressos caiu 8,8% em 2024 na comparação com 2023, de acordo com dados apresentados pelo Observatório Europeu do Audiovisual durante o Festival de Cannes deste ano.
A crítica de cinema do GLOBO Mariane Morisawa entra na discussão apontando que a internet tem sido um território para descobertas de novos talentos para a indústria há algum tempo, e era apenas uma “questão de tempo” para que o cinema também fizesse tal movimento. Mas pondera que praticamente todos estes novos realizadores têm investido em filmes de terror.
— São produções mais baratas e que rendem bastante porque o gênero tem um público razoavelmente fiel — diz a crítica.
Filippo Cordeiro, roteirista e diretor de ficção da produtora Formata, de São Paulo, ressalta que o terror é um gênero que tende a funcionar melhor como uma experiência coletiva, daí a presença forte do público nas salas.
— Ninguém assiste a filme de terror sozinho — diz o executivo. — Tanto que muitos dos filmes que têm bilheterias gordas não vão tão bem no streaming.
Público certo
“Backrooms” surgiu a partir de uma mania de internet. Fotos dos chamados “lugares liminares”, como shopping centers e aeroportos, geralmente cheios de gente, começaram a ser retratados totalmente vazios em imagens aleatórias na web. Os comentários nas redes relatavam uma certa sensação de desconforto diante de tais imagens, o que motivou ainda mais postagens de milhares de pessoas ao redor do mundo. Em 2022, o então adolescente de 16 anos Kane Parsons resolveu fazer um curta-metragem sobre o tema e postá-lo no YouTube.
O sucesso do curta levou Kane a expandir a ideia em uma série de vídeos que, ao todo, já ultrapassa 34 milhões de visualizações. Foi o suficiente para que a A24 o convidasse a dirigir um longa baseado no curta.
Os números da bilheteria podem até confirmar que o público conquistado nas redes compareceu, mas talvez haja outras explicações para o fenômeno.
— Tem uma coisa que aprendi por experiência própria: a audiência não migra da internet para os cinemas ou para a TV. Nós já vimos casos de influenciadores que fazem sucesso nas redes, mas fracassam na TV, por exemplo — diz o roteirista Ian SBF, um dos criadores dos portais de humor Anões em Chamas e Porta dos Fundos, ambos com retumbante sucesso no YouTube, além de ser o diretor do longa “A própria carne”, produzido em parceria com o site Jovem Nerd no ano passado.
Ainda assim, Ian ressalta que existe uma renovação de público em curso. E isso não se limita ao mercado americano e europeu.
— Pessoas da minha geração cresceram querendo ser o Fernando Meirelles, o Scorsese... essa garotada que está chegando tem outros hábitos de consumo audiovisual. Basta ver que a audiência do YouTube já superou a da TV aberta, por exemplo — diz o cineasta, citando os rankings do Kantar Ibope que atestam que o YouTube vem liderando a audiência nos streamings disponíveis no Brasil.
O que vem por aí
Tais mudanças nos hábitos de consumo podem ajudar a compreender a busca das produtoras por realizadores que “falem a língua” dos novos públicos. Ainda assim, nem todo integrante da geração Z compra a ideia da “renovação” como um todo.
— Também se trata de um movimento midiático, para incensar o nome de um novo diretor, ainda que eu também ache que exista uma aposta em novas vozes — pondera o estudante Will Tonon, que aos 23 anos cursa Cinema na Universidade Estadual de Goiânia e posta no canal “Adorável Cinéfilo” suas críticas e os curtas que produz. — Na faculdade, o caso do Kane virou assunto obrigatório como exemplo de um sonho que deu certo.
Na última semana, “Backrooms” e “Obsessão” foram batidos por “O Dia D”, de Steven Spielberg, que liderou as bilheterias, arrecadando mais de US$ 90 milhões. Mas os longas não saíram do radar, ocupando o segundo e o terceiro lugar, respectivamente.
— Muitos destes filmes acabam ganhando força com o boca a boca — diz Cordeiro.
Os números parecem confirmar a hipótese. “Obsessão”, por exemplo, mostrou um crescimento de público de 39% entre a semana de estreia e a segunda semana de exibição.
Filippo Cordeiro lembra, no entanto, que ainda é cedo para cravar uma real renovação em Hollywood, reforçando que não faz muito tempo que “Oppenheimer” (2023), de Christopher Nolan, beirou o patamar de US$ 1 bilhão de arrecadação, tornando-se a maior bilheteria do diretor fora da franquia “Batman”. Aparentemente, ainda vai levar tempo para que a nova geração assuma as rédeas do business do cinema no maior mercado do planeta.
— É comum que a indústria pegue esses novos diretores e os convide a dirigir filmes de grande orçamento, por exemplo, nos quais eles não terão tanta liberdade quanto tiveram em seus projetos pessoais — lembra Mariane.
O problema é que Kane Parsons já declarou ao site The Wrap que não tem interesse em dirigir nada como “Star Wars” ou “Star Trek”, reforçando que só pensa em liderar os seus projetos originais. Palavras fortes para quem acabou de começar a brincar de gente grande.
— Só o tempo dirá — diz Mariane.




