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ILUSTRADO
Quarta-feira, 01 de Fevereiro de 2017, 19h:07

FILME

Como superar uma tragédia insuperável

Em “Beleza Oculta”, Will Smith é o pai busca razões para viver depois de sofrer com a morte de uma filha de apenas 6 anos de idade

GIOVANNI RIZZO
Do Observatório do Cinema
Cinema é uma coisa complicada. É impossível tentar entender ou mesmo fazer um filme como se ele tivesse uma fórmula, como se seguisse uma receita de bolo. Muitas vezes um bom elenco não significa uma boa atuação, ou um roteiro bem amarrado não quer dizer que o texto de um filme esteja dizendo algo, e muito menos quer dizer que uma direção segura realize um grande filme. Beleza Oculta sofre desse mal, um longa que parece ter todas as peças para seu sucesso, mas apenas comprova a lógica da matemática inexata do cinema. O longa estrelado por Will Smith narra a história de um jovem e bem sucedido empreendedor que perde uma filha, ele logo começa a apresentar sinais de depressão e alucinação, até que seus companheiros de trabalho contratam três atores para encenarem a morte, o amor e o tempo a fim de que ele lide com a sua perda. No entanto essas encenações estarão ali para ensinarem a todos daquele universo. Situado no Natal, Beleza Oculta é o típico projeto que se apoia na moral da história. Um filme que tenta oferecer um material sentimental para servir como uma espécie de lição de moral. O filme é basicamente uma atualização do conto dos fantasmas de Scrooges, com um misto de realismo e notas bastante açucaradas. Assim, o filme é permeado por frases impactantes e edificantes, algo que poderia ser editado e estar num vídeo motivacional numa rede social. Aliás, o roteiro de Allan Loeb passa pelo problema de estar sempre questionando o quão seu público compreende sua narrativa. A trama está sempre dando informações, pistas para o espectador entender o ato a seguir. Se esse artifico de pinças narrativas compõe a maioria dos manuais de roteiro, a artimanha fica escancarada quando ela é óbvia. No caso de Beleza Oculta sempre fica evidente essa relação entre os três amigos que contratam os atores e as abstrações que eles representam. Sempre fica claro que cada um personagem precisa resolver a questão que eles contratam, a relação de um com a morte, do outro com o amor e de um terceiro com o tempo. Esse roteiro extremamente interessado nessa sua lição faz com que todo longa seja afetado por esse objetivo. A direção de David Frankel (Marley e Eu) está sempre subordinado ao texto, num estilo extremamente didático, buscando sempre ilustrar o que está escrito. Muito mais do que academicismos e um estilo conciso, o que Frankel faz é uma direção sem brilho que em nenhum momento deixa a mensagem clara visualmente, estando sempre subordinado aos diálogos cheio de frases de efeito Essa falta de brilhantismo está presente também quase em todas as atuações. O recheado elenco de Beleza Oculta, que além de Will Smith conta com Edward Norton, Kate Winslet, Helen Mirren e Keira Knightely, parece sempre estar em busca de uma emoção além do que está escrito, e nesse processo não se encontra nada, apenas um desperdício de bons nomes que repetem frases eloquentes e motivacionais, mas que em muitas ocasiões não produzem sentimento algum. Vale ressaltar que dentro dessa seara de bons atores em atuações medianas há um grande esforço por parte de Smith, que nos últimos anos vem tentando provar seu valor. Aqui mais uma vez está em busca disso, e embora não seja o melhor filme para sua consagração, ele é o único que consegue se entregar, fazendo a cena mais dramática do filme funcionar plenamente, ainda que esta seja recheada de exageros. É bom ressaltar também que um dos melhores momentos do filme, lá pelo primeiro ato, Edward Norton encontra um tom cômico que faz o filme fluir, infelizmente isso vai sendo deixado de lado. Se Smith entrega emoção, Norton entrega leveza, porém não há a compreensão pelos realizadores de que o filme poderia ter esses dois lados sem buscar sempre a grandiosidade de sua lição de moral.

Edição EDIÇÃO 16969




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