Eu sei que a vida sempre dá um jeito de continuar. Mas como é difícil imaginar como vai ser daqui para a frente, sabendo que não teremos uma nova temporada de "Hacks".
A série da HBO Max sobre Deborah Vance, uma comediante de stand-up veterana que precisa se reinventar, e Ava Daniels, sua roteirista politicamente correta, provou que o humor de qualidade está acima das diferenças culturais e geracionais.
Como quase toda série de comédia, "Hacks" estreou despretensiosa. Não ocupou o horário nobre dos domingos à noite da HBO, com seus episódios curtinhos que raramente passam dos 30 minutos. E no entanto, desde a primeira temporada tínhamos ali duas grandes personagens. Ambas são talentosas no que fazem, e uma delas é uma estrela de grande fama e popularidade, uma verdadeira rainha da comédia.
Mas os defeitos delas também eram muitos. Deborah nunca negou a fama que as grandes divas carregam. Vaidosa, egocêntrica ao extremo, só pensava em manter ou aumentar seu sucesso mesmo que para isso fosse necessário pisar em algumas cabeças –melhor ainda se fossem as dos seus próprios subalternos.
Com toda a sua formação "woke", escrevendo seus roteiros de humor preocupada em não ofender ninguém, comprometida até com o futuro do planeta, Ava no início parecia, digamos assim, um ser humano melhor que Deborah.
Aos poucos, fomos descobrindo como ela podia ser insegura, desconfiada, imatura nos relacionamentos e com uma ambição semelhante à de sua mestra. Melhor assim: se a aposta tivesse sido numa oposição simplória de diva egocêntrica com mocinha injustiçada, "Hacks" não teria durado cinco temporadas.
O último episódio, que estreou na última sexta, jogou mais na chave do melodrama do que da comédia ao trazer de volta o câncer de Deborah. Uma decisão importante vai colocá-la em embate com Ava mais uma vez enquanto elas passeiam pelas ruas encantadas de Paris.
O episódio tem uma última virada típica dos roteiros clássicos de Hollywood, em que a alegria leva a melhor sobre a tristeza. Confesso que preferia o caminho mais amargo, mas não dá para esquecer que estamos numa comédia.
A paixão que "Hacks" suscitou é tamanha, com a chuva de Emmys e Globos de Ouro que venceu, que até esquecemos que a segunda trama da série, a do agente de talentos Jimmy e sua surtada sócia Kayla, perdeu o fôlego lá pela terceira temporada.
Deixa para lá. Dona de uma longa carreira, mas até então fora do primeiro time das estrelas, Jean Smart se consagrou aos 70 anos com uma personagem que normalmente só seria oferecida a Meryl Streep. Torço para que ela tenha outras grandes oportunidades para brilhar.




