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ILUSTRADO
Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010, 19h:37

DVD

Com tanque pop cheio, Tarantino envenenado

E o que esperar de “À Prova de Morte”? Muita matança... Mas pra lá de sanguinolenta e, claro, genial, assim como aconteceu em “Pup Fiction” e “ Cães de Aluguel” por exemplo

Juarez Compertino
Especial para o Diário de Cuiabá
Anterior ao mega-sucesso “Bastardos Inglórios”, finalmente os fãs do diretor Quentin Tarantino podem assistir ao seu “À Prova de Morte” (Death Proof, EUA, 2007/PlayArte). Originalmente, o filme fazia parte do projeto “Grindhouse”, complementado por “Planeta Terror”, de Robert Rodriguez, um experimento narrativo com três horas e trinta e três minutos de duração e repleto de trailers falsos, concebido como um tributo às salas exibidoras que, nos anos 70, exibiam sessões duplas ao preço de um ingresso. A proposta inicial da dupla era resgatar as nostálgicas sessões de filmes trash, tão inspiradores para ambos os diretores. Diante do fracasso da experiência nos Estados Unidos, os filmes foram separados e chegaram por aqui em momentos diferentes. “Planeta Terror”, de Rodriguez, já foi lançado há três anos atrás e agora, somente agora por questões que envolviam a distribuição do filme em território brasileiro, é a vez da obra de Tarantino ganhar lançamento comercial. E o que esperar de “À Prova de Morte”? Muita matança... Mas pra lá de sanguinolenta e, claro, genial, assim como aconteceu em “Pup Fiction” e “ Cães de Aluguel” por exemplo. Uma obra cheia de diálogos com altas doses de humor negro, histórias não lineares, quase sempre contadas em capítulos, personagens fortes e carismáticos, e no embalo de uma trilha sonora pulsante, Tarantino dá um show de direção e roteiro na criação de uma divertida homenagem aos filmes B de raiz confirmando o status que o transformaram numa marca única no cinema da atualidade. Na trama de “À Prova de Morte”, fotografado pelo próprio Tarantino, o personagem central é o ex-dublê Stuntman Mike (Kurt Russel, impagável), que tem um fraco por moças festeiras e se revela um assassino cínico – sua arma mortal é o potente carro, um modificado Chevy Nova de 1970, preparado para resistir a qualquer tipo de colisão. Da estirpe do Jason, de “Sexta Feira 13”, ou de Leatherface de “O Massacre da Serra Elétrica”, o maníaco-psicopata usa o seu envenenado carango como instrumento de morte, como um serial killer por trás da direção “Dizem que esse carro é à prova de morte”, fala Stuntman Mike para a beldade sentada no banco do carona do Nova Azulão tatuado com uma caveira no capô. “Mas apenas do lado do motorista”. Depois de completar mais duas matanças, o assassino some no interior do Texas. Lá, em Austin, Jungle Julia (Sydney Tamiia Poitier), a DJ mais sexy do pedaço e suas melhores amigas, Abernathy (Rosário Dawson), Zoë (Zoe Bell) e Shanna (Jordan Ladd), saem para curtir a noite e são o centro das atenções masculinas por onde passam. Mas, nas andanças da balada, nem toda a atenção é inocente. Acompanhando de perto seus movimentos está o inquieto e temperamental Stuntman Mike, que quer botar em prática várias idéias malignas tendo elas como potenciais vitimas. Mas não vai ser fácil eliminá-las. Como a Noiva, de “Kill Bill”, as moças aqui vão à luta. E deixam o vilão, no mínimo, estupefato. Para Tarantino, a mulher não deve se entregar à aparente força masculina. Por mais estranho que possa parecer, o cineasta é herdeiro do legado de George Cukor, Woody Allen e Pedro Almodóvar, para quem o universo feminino é sempre foco de interesse, se preocupando em dar voz às mulheres – lembra de “Jackie Brown”? Ao contrário do que acontece no slasher film, gênero sangue-e-tripas na linha “Pague para Entrar, Reze para Sair”, Stuntman Mike passa de caçador para caça em seqüências de perseguições automobilísticas livres de CGI à altura das de “Bullitt”, “Operação França” e de “60 Segundos” (“O verdadeiro, e não a porcaria com Angelina Jolie”, atesta um personagem à certa altura do filme).Sem contar o humor nigérrimo e os diálogos bem costurados com referências pop, principalmente obras que envolvem carros. Em determinado momento, o Chevy Nova de Stuntman Mike (dono de um discurso sacaneando os efeitos especiais em Hollywood) atravessa uma propaganda de drive-in com “Todo Mundo em Pânico 4” e “Viagem ao Inferno”. Se existe um gênero “Tarantino” de cinema, a coisa toda vai água abaixo neste momento. Sem se ater a um nicho, Tarantino junta gêneros que não combinam em uma coisa única. Nada de perfumaria e sim um estilo de direção dos mais depurados. Com o tanque pop cheio, “À Prova de Morte” é um Tarantino envenenado. E, como todos os outros de sua filmografia, sensacional!

Edição EDIÇÃO 16960




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