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ILUSTRADO
Quarta-feira, 28 de Maio de 2008, 20h:52

FESTIVAL

Cinema e diversidade

Prossegue hoje o evento que mostra ao público cuiabano cerca de 100 títulos da última safra do audiovisual brasileiro. Festival termina sábado

Cláudio de Oliveira
Da Reportagem
Cinema, cinema e cinema. Esta semana tem sido um prazer acompanhar veteranos e estreantes do audiovisual nacional que raramente, para não dizer nunca, chega às nossas telas. Estamos, pois, vivenciando um desfile autoral de qualidade, algo como um oxigênio para aqueles que acreditam que o cinema precisa fazer pensar. E abordando uma temática que se banha em diversidade. O dia de hoje já começa cheio, a partir das 11 da manhã, com o bate-papo tradicional com os realizadores que tiveram seus filmes exibidos na noite anterior. É no Hotel Paiaguás. À tarde, no auditório da livraria Janina, no Pantanal Shopping, acontece o I Encontro de Pesquisadores do Centro-Oeste, uma conferência que tem como tema o “Panorama da Pesquisa de Cinema no Brasil”, com o conferencista Carlos Brandão do Centro de Pesquisadores de Cinema do Brasil (CPCB). A mediação é da sua colega de Centro Myrna Brandão. Ambos fazem parte da equipe de organizadores responsáveis pelo livro “Memória da Memória – Uma história do CPCB”, patrocinado pela Petrobras, e que será lançado nesta tarde após o debate, que ocorre às 14 horas. A equipe organizadora conta ainda com Carlos Alberto Mattos e José Tavares de Barros. À exceção dos Curtas Latinos, que esperamos ver, porque o de terça-feira infelizmente não rodou, todos os filmes(e vídeos) estão em competitiva hoje. A sessão começa às 18 horas com o vídeo “Ópera do Mallandro” de André Moraes(RJ;16’). Com Lázaro Ramos na produção e elenco, narra a história de um garoto, em sua prova de recuperação na escola, que tem a tarefa de escrever um texto em 15 minutos. Durante o processo criativo, ele viaja por um universo musical cheio de personagens e ícones dos anos 1980. O malandro do filme não tem nada a ver com o Chico Buarque, mas com o Sérgio e todo universo pop que vai de Aquaplay, mochila da Company à Bozo e Michael Jackson. Na seqüência vem o curta “Tarabatara” de Júlia Zakia(SP;23’). A obra narra a vida de uma família cigana do sertão do Alagoas. Contemplado com o prêmio estímulo do governo de SP, já foi exibido nos festivais É tudo Verdade e no 40° de Brasília. Fechando a 1ª sessão da noite o longa “Memória para uso diário” de Beth Formaggini(2007;94’). Beth é documentarista, formada em História pela UFF, especializou-se em documentário e pesquisa pela Universidade de Roma. Produtora executiva ou diretora de produção de Sergio Bernardes, Mário Carneiro, Eduardo Coutinho, Paulo César Saraceni, Vincent Carelli e Geraldo Sarno. Diretora em exercício e Coordenadora de Pesquisa do MIS-RJ, foi Presidente da ABD-RJ 2005/2006 e Conselheira da ABD Nacional(2005-2007). Entre as suas atividades ministra cursos de pesquisa e produção de documentários em todo o Brasil, inclusive deu um curso aqui em Cuiabá no domingo passado. O filme ganhou o prêmio por voto popular de melhor longa documentário do Festival do RJ de 2007. O documentário segundo a Beth é uma trança que envolve o espectador na dor vivida pelos documentados, são múltiplos fio narrativos como o da Ivanilda que busca evidências que provem a responsabilidade do governo(ditadura) no desaparecimento do seu marido ocorrido 1975 e de Romildo que procura pelo corpo de seu irmão Ramirez, desaparecido desde 1973, num cemitério do subúrbio do Rio. Todos pertencem ao Grupo Tortura Nunca Mais/RJ que hoje vê no discurso oficial o traficante como uma justificativa para legitimar a violência nas favelas, como o era os guerrilheiros para a ditadura. Formaggini fala: “Tá todo mundo engasgado com estes cadáveres. A receptividade é grande por isso, eu acho. É incrível ver a coragem destas mães, mulheres, pessoas que se expõem ao risco para salvar a memória”. A 2ª Sessão começa como de costume às 21 horas. A primeira exibição é do videoclipe mato-grossense “Surtar a Dor” da banda Venial, com direção de Fabrício Roder e Pablo Menna(5’). A segunda é do vídeo “Solitário Anônimo” de Débora Diniz(DF;11’). Débora já fez outros filmes, ela é antropóloga, PHD, professora da UNB e tem no currículo prêmios nacionais e internacionais na área do audiovisual. Este vídeo tem menção honrosa como melhor documentário na categoria Direitos Humanos no “V Encuentro Hispanoamericano de Cine y Video Documental Independiente: Contra el Silencio Todas las e melhor documentário no XI Vide-Vídeo - Festival Universitário de Cinema e Vídeo da UFRJ. A narrativa conta a história de um idoso que deitado na grama à espera da morte levava no bolso, um bilhete onde anunciava ser de terras distantes, seu nome: solitário e anônimo, seu desejo: morrer. Um documentário impressionante sobre um homem obstinado a planejar e controlar sua morte. Um filme sobre a liberdade, a vida e a morte. Na seqüência estão previstos os curtas latinos “Say Yes” de Juan Carlos Maneglia(7’) e “Extraños Vecinos” de Tana Schembori(8’). Depois é a vez do curta “Dona Custódia” de Adriana Andrade(DF;13’). O curta é baseado no conto homônimo do escritor Fernando Sabino e narra a história de um escritor solitário que tem sua rotina alterada pela presença de sua nova empregada: Dona Custódia. Para fechar a noite “O signo da cidade” de Carlos Alberto Riccelli (SP;95’). Um filme que segundo Walter Salles é “generoso, luminoso e coral, que surpreende constantemente e reflete como poucos a cidade multifacetada que é São Paulo.” Com roteiro da esposa, Bruna Lombardi, que também participa do elenco Carlos Alberto filmou uma cidade que sempre amou observar, sempre esteve atento ao que poderia se passar por traz das janelas múltiplas da grande metrópole. Par Bruna duas palavras poderia resumir o filme: “solidão e solidariedade. Eu acho que esses são os pilares do filme e os pilares de uma cidade grande como São Paulo, onde você é necessariamente uma criatura sozinha e se você não é solidário ou se não tem alguém solidário com você, você não segura a barra”. O filme também foi muito bem retratado ao que parece por Fernando Meirelles: “Pelas ondas do rádio uma história vai se ligando a outra e a mais outra, como fios que tecem uma trama. Os personagens vão se encontrando aos poucos pelas esquinas mais inesperadas e de repente estamos presos nesta enorme teia que o filme armou”. Uma astróloga, vidas anônimas pelas ondas do rádio que se cruzam no mar de solidão e solidariedade da gigante SP.

Edição EDIÇÃO 16968




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