Quando era baixinho, magro e extremamente frágil contava as letras no falar e possuía uma febre de derreter areia. Os pés palpitavam quando parado. Era um exímio atleta. Corria! Os troféus chegavam com um convite sedutor para alargar as passadas. Isso me rendeu algumas contusões. Sem tempo a perder vi os obstáculos tropeçarem nos pés e gradualmente foram se transformando em armadilhas silenciosas para as pernas. À medida que corria não vislumbrava ninguém pela frente. As conquistas eram rotineiras. Tentei várias vezes parar. Em dados momentos olhava os belos meio fios que adornavam os lindos canteiros onde belas flores coloriam a paisagem. Mas não conseguia estacionar. Percebi que os bancos sempre estavam vazios por onde passava. Nem mesmo as belas sombras e os gorjeios dos pássaros conseguiam me atrair. Meu universo vomitava uma sede do novo. Corri atrás de respostas para perguntas que jamais consegui formular. Tentei diminuir o ritmo. Porém, algo mais forte me empurrava sempre á pista. Até descobrir que corria em círculo numa ciranda de lucros e dividendos que não contabiliza emoções. Procurei trocar os louros das vitórias pela compaixão... Mas infelizmente a moeda é de cara e coroa e possui apenas um peso e duas medidas. Percebi que a solidariedade é possível de ativos e passivos que a própria ação desconhece. A atribulada busca por resposta me levou a lugares aonde nunca desejei. Me fez viver momentos que nunca imaginei. Não mais me preocupo com o amanhã. Sempre há um futuro simples e pragmático. Apesar das noites longas de inverno, o amanhã é sempre uma novidade que se encerra num crepúsculo suave. As mudanças acontecem exatamente em mim. Ouço o corpo apelar por descanso. Os passos ficaram tristes e os olhos acostumaram a se banhar frequentemente numa poça de emoção. Belas panorâmicas infelizmente ficaram pelo caminho. O físico acumula cicatrizes de qual o coração palpita de vergonha. Os troféus conquistados transformaram-se em tesouros que me obrigam a matar o tempo dando brilhos a falsos metais. Quando olho para trás vejo apenas rastro profundo de pés pesados e uma ingrata paisagem de vultos que me viram passar. Isso me faz entender melhor o presente e amar um pouco mais... *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado (
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