ILUSTRADO
Quinta-feira, 30 de Julho de 2015, 19h:34
A
A
MEMÓRIA
Barretão vai refazer caminhada de Rondon e Roosevelt
Com patrocínio da Globo e da Natura, expedição voltará a percorrer o interior ainda inóspito desse nosso imenso MT
JOÃO BOSQUO E ENOCK CAVALCANTI
DA REPORTAGEM
Refazer a Expedição Científica Rondon-Roosevelt hoje em dia, com ajuda do GPS on-line, satélite, Google Maps, e com todos os mapas escritos, alguns deles escritos pelo líder dessa mesma expedição, Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, não deixa dúvida do caminho. Agora, vamos imaginar, essa mesma expedição em 1913, embora o caminho já estivesse sido percorrido anteriormente para construção de uma linha telegráfica, quando Rondon descobriu o Rio da Dúvida. Que aventura! Por que será que Hollywood ainda não descobriu esta história?! A expedição Rondon-Roosevelt foi a primeira, entre 1913-1914, a explorar o longo curso do Rio da Dúvida, que mais tarde seria rebatizado de Rio Roosevelt e, por conta desse batismo, desperta a curiosidade do mundo todo. Por que cargas dágua Theodore Roosevelt quis conhecer esse rio, descoberto por Rondon? O resumo da história conta que Roosevelt era um curioso sobre a região amazônica desde a mocidade e, depois de perder as eleições presidenciais de 1912, para esfriar a cabeça, aceitou a sugestão do governo brasileiro de acompanhar o já conhecido andarilho Rondon, em mais em uma daquelas suas andanças sem fim. Convite aceito e a expedição começa em Cáceres, nas margens do Rio Paraguai. A data da expedição para Theodore Roosevelt conta a partir de seu desembargue no Rio de Janeiro, 19 de dezembro de 1913, depois rumar para Corumbá, encontrar membros de sua equipe e seguir para Cáceres e conhecer Rondon e seus homens e subir pelos rios até que, em abril de 1914, chegaram ao Rio da Dúvida, sem dúvida. Durante a maratona, Roosevelt, dando vazão ao seu extinto de caçador chegou a matar centenas de onças pintadas. Um predador tipicamente norte-americano. Coitadas das bichinhas. Agora a expedição a ser refeita terá como comandante um dos maiores produtores de cinema nacional, Luiz Carlos Barreto, LC Barreto ou Barretão, que também já foi jornalista profissional, repórter e fotógrafo da mítica revista O Cruzeiro, nas décadas de 50 e início de 60. Como cineasta é coautor do roteiro e coprodutor do filme Assalto ao Trem Pagador, dirigido por Roberto Farias, marco da carreira de produtor. E comandou a produção dos mais importantes filmes da modernidade do cinema brasileiro. Pois é, esse renomado produtor que redescobriu a figura histórica do Marechal Rondon e já produziu a minissérie Rondon, o Grande Chefe e coproduziu, junto com o cuiabano Rodrigo Piovezan, o filme Rondon - Pagmejera - O Grande Chefe, com Nelson Xavier, agora vai produzir o documentário sobre a famosa e mítica expedição Rondon-Roosevelt, patrocinado pelo Instituto Pro-Natura, em parceria com o Exército Brasileiro e a Rede Globo de Televisão. Uma expedição que, pelo sabido até aqui, será comandada por ele mesmo. Segundo informa a secretaria de Cultura do Estado, a coordenadoria de Patrimônio Cultural da secretaria vai disponibilizar os relatórios da Expedição Rondon-Roosevelt. O material, que compreende fotos, mapas, anotações e o roteiro da viagem, está sendo digitalizado por meio de uma ação da Secretaria em parceria com a Casa Barão (Academia Mato-Grossense de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso). O trabalho deverá ser concluído em maio de 2016, quando se encerram as comemorações aos 150 anos de Rondon, e será uma importante fonte de pesquisa sobre uma das mais importantes expedições científicas realizadas na América do Sul. Não sabemos se o documentário vai discorrer sobre a situação precária da expedição e das brigas entre os dois lideres, conforme relata o historiador Armando Dantas, da UFRJ. O problema começava com a língua. Os dois só conversavam em francês, já que Rondon não sabia o inglês e Roosevelt não sabia o português. Essa barreira linguística ajudou no bom relacionamento. Foi preciso muito savoir faire. Segundo o historiador, o principal momento de atrito entre os dois ocorreu quando um membro da expedição foi denunciado por roubar comida a ordem era dividir rigorosamente todo o alimento. O infrator, em ato de desespero, matou o companheiro que o havia delatado, desaparecendo dentro da floresta. Roosevelt achava que o homem deveria ser perseguido, capturado e levado à justiça. Com muito esforço, Rondon explicou-lhe que, no meio da Amazônia, não era possível aplicar as leis da civilização. Outro motivo de discussão entre os dois era em relação aos índios. Roosevelt sentia-se ameaçado por nossos índios e cobrava de Rondon uma ação enérgica, até hostil. Falava o extinto do predador norte-americano?, não sabemos, contudo Rondon impôs a sua filosofia de não agressão que, infelizmente, anos depois, não prevaleceria no Vietnam, Afeganistão, Iraque, etc, etc. Quando a viagem pela Amazônia completa pouco mais de 30 dias, Roosevelt que havia perdido 30 quilos, por conta da desidratação e disenteria era outra figura. O gringo machuca a perna, tem dificuldade para andar, é carregado de maca improvisada, o que mexe com o orgulho do americano, que se sentia culpado pelo atraso que a expedição sofria. E, no fim de abril de 1914, depois de meses e mais de 1 500 quilômetros de navegação, a expedição chega na foz do rio das Dúvidas. Ali, no conhecido rio Madeira, a expedição finalmente atingia seu objetivo. E, para alívio de todos, apareceram vestígios de civilização, a nossa civilização, casas de palha construídas por seringueiros. Conhece Manaus, reencontra parte da equipe da qual havia separado e vai para Belém onde embarga e retorna aos Estados Unidos. Tudo isso, certamente, será revivido em cores e sons luxuriantes pela nova expedição do Barretão.