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Cuiabá MT, Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 31 de Maio de 2008, 13h:54

RESENHA

Bandolim e clarinete mágicos em Cuiabá

A afro-bossa-nova de Armandinho e Paulo Moura, mais o Tocandira

Ney Arruda
Especial para o Diário de Cuiabá
Na real que o melhor evento musical da semana rolou foi no domingo passado. Era pra ser às 17 horas. A imprensa toda anunciou conforme as fontes autorizadas. Paulo Moura & Armandinho eram os convidados. Clarinete e bandolim apresentaram-se como dupla infalível no palco. Engraçado como sopro e corda combinam e dão um belo show. Acabava a tarde do sétimo dia da semana e a Praça das Bandeiras já na ameaça de juntar gente. A gostosa afabilidade do cuiabano nato surgia em cena. As pessoas se cumprimentavam em meio ao buchicho de nossos conhecidos. O churrasquinho vendia bem enfumaçando a aglomeração de seus ávidos consumidores. Puxa, já eram 18:15 h e os músicos visitantes ainda estavam passando o som. Algo raro teria passado? Nenhum pipoqueiro deu o ar da graça naquela ágora do povo. O evento domingueiro teve banda de abertura. Pô, que legal que os organizadores ofertaram espaço para os músicos da terra. O ‘Tocandira’ bateu o primeiro acorde justo às 19:25 h. A platéia já um tanto quanto injuriada com o indisfarçável atraso, mesmo assim, curtiu a rapaziada. Se alguns veneram dinheiro, sempre fui meio ‘píssico’ com relógio. Pra resenhar evento cultural vai bem uma cadernetinha de campo. Assim, nada fica de memória. Tudo vai pro papel no ato da ocorrência. Ihh! Não é que os caras vão numa de balada ‘funkeira’ bem dançante. Com direito a João Bosco, Chico Buarque, Vinicius de Morais e Dorival Caymmi. Sandrão na batera foi demais. Esse rapaz toca muito. A banda ‘quebrou tudo’ no palco com vários convidados como Anselmo Parabá, Paulo Monarko, Vera Capilé e outros talentos. O ‘Trio Candeia’ (trompete, sax e trombone), liderado pelo excelente Tony Maia foi a ‘cereja musical’ daquele bolo de confeitaria. Foram exatos 35 minutos de Tocandira. Sob o patrocínio do Grupo Votorantim e Ministério da Cultura a ‘tocata na praça’ foi produzida nacionalmente por Falcão Produções. Enquanto Cibele Bussiki Produções foi o esteio na localidade. O apoio institucional veio do Município de Cuiabá. Já o palco obteve iluminação bem planejada, a sonorização ficou por conta da ‘Opção Som’. Não conhecia o trabalho deles. Ah! Ufa que o show ia começar. De cinco da tarde o show não atrasou. Mas foi realmente “transferido” para 20:30 h. Muita gente vazou de lá. Não agüentava mais esperar e ver cara feia do povo que tava circulando por entre as bandeiras. A exemplo, dos grandes teatros do 1.º Mundo, até encontrei uma turmada batendo palma pro troço começar. “Oh trem demorado!” – exclamava um cidadão em seu limite máximo. Paulo Moura portando um clarinete transparente tipo de cristal e Armandinho com dois bandolins: um elétrico e outro acústico. Porém este último ‘plugadaço’ em muitos watts de potência. No melhor estilo ‘sossega leão’ pra platéia, atacaram logo de “Chovendo na Roseira”. Enfim, começava o show “Afro Bossa Nova”. A princípio não entendi a razão do nome. A inventividade do fraseado desses dois músicos é coisa de dar dor de cotovelo em qualquer músico. A seguir já veio “Garota de Ipanema”. O negócio era homenagear o Tom Jobim. Vocês não tão entendendo como o som tava alto ‘demás’ da conta. Meio esgoelado e estridente não estava recomendável para a criançada que brincava pra valer. Que dirá pro adulto... Em ‘Águas de Março’ foi “cair a ficha” acerca do nome do show. Entra na linha de frente quatro senhores fazendo uma percussão tribal estonteante. A música de repente virá um ‘maracatú da moléstia’. O quarteto de percussionistas usava uma abundância de instrumentos. Essa releitura não encontrava limites para a criatividade. Armandinho passava a bola para o Paulo Moura, que devolvia com graça e leveza. Parecia um concerto para dois solistas. E tudo se resolveu num frevo genial. E povo ali. De pé há horas. Fiquei refletindo sobre os polpudos investimentos que as instituições fazem a partir de editais públicos. No final recebem lindos relatórios de prestação de contas com fotos coloridas na base de impressão otimizada em papel couchê. A capa dura e costurada desses relatos não retrata o achincalhamento com o público nesses atrasos de 03 horas e pedrada. Não passavam de duzentos os protagonistas, aqueles cidadãos que resistiram. Mas será que da verba originalmente captada não teria sobrado nada para alugar umas 300 cadeiras de plástico? Lá pelas 21:20 h cacei rumo do Festival de Cinema que tava rolando no shopping da Av. do CPA. Ainda dava pra assistir a última sessão da noite. Que me perdoem os músicos convidados, mas abandonei o show por cansaço físico e auditivo. Valeu a visita à Cuiabá. Quem sabe na próxima, a coisa seja diferente. • Ney Arruda é professor universitário, doutorando pela Universidad de Burgos (Espanha), violinista cuiabano e colabora com o DC Ilustrado ([email protected])

Edição EDIÇÃO 16960




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