ILUSTRADO
Sábado, 03 de Julho de 2010, 14h:20
A
A
CRÔNICA
As segundas ou terceiras intenções
Protásio Terrificus
Especial para o Diário de Cuiabá
Que existe algo, um impulso semi-sondável, quiçá vontade de potência, permeando qualquer ação do ser humano: a maioria há de concordar comigo. Desvendar os motivos por trás disso - transitando das ínfimas às grandiosas ações com intenções confessadas ou ocultadas - é o que deveria invariavelmente nos atrair. Sem preguiça, com força. Bem, cheguei a essa conclusão expansiva há muito tempo... Estava com minha banda (Everything Breaks, que, assim como o nome sugere, um dia quebrou) para dois dias de shows em Campo Verde, interior do estado. Era o 1º Rock Fest no aeroporto municipal daquela cidade, festival que ocorreu nos dias 14 e 15 de dezembro de 2002. Assim sendo, os outros dois membros-amigos da banda estavam preocupados com acomodações e afins, por isso me abandonaram, indo atrás dalgum conforto para atravessar a noite. Conforto induzido, ressalto. Já o Fochesatto preferiu fazer reconhecimento do local e seus nativos. Escolhi uma mesa e achei que aquele conforto seria suficiente para o momento. Abri o cardápio. Ali estava um típico exemplar das ações misteriosas do homem. Os pratos haviam sido batizados com verbetes do Cuiabanês. Tudo sob medida. O que, deduzi, deveria servir de atrativo aos clientes e também formar um casamento harmonioso entre as características do recinto, do prato servido e do proprietário. De qualquer maneira, aquele artifício havia partido por uma vontade maior desconhecida por mim. Luiz, o garçom, percebendo o sorriso torto em meus lábios, aproximou-se. Adiantei-me e fui logo perguntando o que ele achava daquela manifestação, uma ação com desejo real oculto. Mais do que depressa ele resumiu sua vida para então conseguir me responder com exclusiva lógica. Vinha de São Luís do Maranhão, sua terra natal, descendo o litoral brasileiro trabalhando com o que aparecesse - principalmente como garçom, a profissão do coração. No Espírito Santo, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e em São Paulo conseguiu ser empregado nessa atividade de servir ao próximo sem necessariamente receber gratificações. Quero dizer, gorjetas. Em cada estado, houve pelo menos um restaurante que utilizava o artifício do cardápio. Concordou comigo que, em linhas gerais, os proprietários utilizavam verbetes do dialeto regional e a intenção final era simples: o lucro. Mas havia outros casos, muitos outros. Para todos os bolsos e paladares. Na questão do batismo, havia os que empregavam nomes de músicas, nomes de planetas, nomes de presidentes, times de futebol, palavras em línguas estrangeiras e, principalmente, nomes de artistas famosos. E aí, camarada, vais querer comer a Luana Piovani grelhada ou a Cláudia Raia ao molho rosé? A especialidade da casa é Vera Fischer à milanesa, carne nobre, ao ponto, com Odete Roitman de sobremesa, uma delícia de indigestão!, ironizou Luiz. Rimos um pouco da piada já usual. Ao recompormos, fiz meu pedido: uma Mexicana (dose generosa de tequila) e uma Moage (concentrado de limão para balancear o petardo alcoólico). Continuamos conversando quando trouxe álcool. Confidenciou-me que sua intenção era rodar a América Latina no sentido horário. Por fim, voltaria a São Luís para abrir seu próprio restaurante com um cardápio onde os pratos levariam os nomes das localidades em que estivera. A comida servida teria as características de cada lugar visitado (receita, tempero, modo de preparo), fazendo perfeito casamento entre nomenclatura e sabor. Apesar de eu achar a idéia ótima, voltamos a rir da forçada coincidência comercial. Entre uma mesa e outra atendida por ele, descobri que desde meados da década de 90 a estrada era sua casa. Veio a Mato Grosso por conta de uma fêmea que hoje não existia. A partir daí, sem rumo definido, seguiu caminho até aterrissar em Campo Verde. O próximo destino? Desconhecido. Aqui, despretensioso, voltei a martelar internamente a idéia inicial do texto. Porém, o que movia aquele intrépido homem em sua jornada e quais eram os motivos de suas ações estavam aquém das minhas linhas de elucubração. Pois além de não dar indícios a respeito, naquele instante uma caucasiana alta & deslumbrante sentou-se na mesa ao lado. Pela maneira como olhava em volta, parecia preocupada, inquieta. Agitação passada para o Fochesatto aqui ao mirá-la nos olhos transparentes. Pedi a Luiz que a sondasse. Ele retornou dizendo que a moça aguardava alguém. No meu entendimento alguém era uma resposta bem ampla na qual eu poderia me inserir. Luiz, o que se passa com essa fêmea? Por que está aqui, sozinha? Você terá de se engalfinhar com ela, se quiser descobrir. Aquiesci, e de imediato compreendi que ela era o supra-sumo do conforto. Então, entornei meus dois copos como quem bebe o único elixir capaz de salvar a própria vida. Levantei, deixando os devaneios solitários para outras paragens. Apanhei o cardápio, preparei um melodramático beijo nos lábios e fui ter com a pequena.