Fui almoçar com um velho amigo. Meu médico e companheiro. Ao receber a intimação fiquei bastante inquieto. Havia acabado de fazer uma bateria de exames e ainda sem obter os resultados ele inquiriu a minha presença em tua casa. Pensei: vai me pedir para redigir o testamento. Enquanto seguia em direção a majestosa residência (Casa de médico é tudo uma mistura de palácio com castelo. Talvez para garantir a vida.), danei a cutucar a ideia para saber o que deixar de herança ao amigo?! Lembrei das viagens, nossas conversas, como sempre fui cruel, judiava bastante dele. Criei até um adágio: médico é para preservar a vida e eu testo pra ver se funciona. Ainda bem que a esposa dele percebeu e o retirou do meu alcance. Ela o proibiu de viajarmos juntos. Mesmo assim continuamos nos encontrando. Mas com menor frequência. Entrei e fui recebido com grande entusiasmo. Banqueteamos uma boa prosa e seguimos à mesa. Eu ainda pensando o que deixar a ele. Presentear rico é algo muito complicado. Aquele pensamento me perturbava mais que a dita ideia de estar preste a se apresentar a morte. Não sei por que, mas nunca perdi tempo temendo morte e doença. Essa dupla deve ter uma raiva imensa da minha pessoa por tamanho desprezo. Nessas horas que faz falta uma companheira, pensei. As mulheres são ótimas em dicas do gênero. Pensei ligar para uma amiga do facebook e perguntá-la se queria ser a minha esposa por um dia. Não seria nada elegante. Seria um ato de total despreparo e certamente ela perceberia e valorizaria o passe. Esse casamento iria custar uma fortuna. Pior que essa fobia destampou o meu apetite que desandei a comer até valer uma observação sarcástica da anfitriã: Está comendo mais que a última vez que esteve aqui dizendo que fazia cinco dias que não comia nada. Divorciei da minha ex que era médica exatamente porque vivia tentando domar a minha fome. Depois de devorar a ração que daria pra comerem uma semana saímos para o jardim. Folgamos com as rosas que brincavam na brisa em pleno jardim. Tu sabe por que o trouxe aqui? Odeio que fazem essa pergunta quando me encontro virado no doze. Tu és como irmão para mim. Detesto que a pessoa diz isso justamente quando me sinto o homem mais só do mundo. Naquele momento eu tinha plena certeza de quem iria morrer ali rapidinho. Era ele! Pensei na incredulidade do meu advogado quando lhe contasse que assassinei o amigo médico exatamente quando tentava me fazer um diagnóstico. Como o meu advogado é um diretor de teatro certamente faria um drama completo dessa situação. Luís, tu precisa deixar de andar com o fulano de tal! Silêncio! Apenas nos encontramos num evento por puro acaso. Ele é uma pessoa sem escrúpulo. Pessoas assim não têm limites. Deixei a casa do meu médico naquela tarde com a certeza de que nunca estamos sós. As pessoas que nos querem bem, mesmo distante, elas nos olham. É um olhar silencioso. Mas elas nos cuidam. Somos um pouco de cada um de nossas amizades semeadas ao longo da vida. Tudo passa, mais os amigos continuam os mesmos: dedicados zeladores. Eternos companheiros! *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado (
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