ILUSTRADO
Sábado, 01 de Outubro de 2011, 11h:39
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Agenor, o Leão do cerrado
Vinícius Masutti
Especial para o Diário de Cuiabá
O poeta de quem vou falar é mato-grossense nascido na Bahia. Sim, pode soar estranho e/ou contraditório, mas também era um Leão, bicho que não nasce no cerrado, nem no sertão. Agenor Ferreira era Leão no nome, e também na escrita, era animal nativo da poesia e seu ronronar ressoava aos quatro ventos desta cercania. Agenor era jornalista atuante no estado da Bahia, até que veio parar no centro-oeste e nesta ilha, produziu sua simples e instigante poesia. Por motivos desconhecidos nenhuma virou livro, mas desconfio (e não sou o único) que o caso foi idéia do próprio poeta que talvez não sentisse necessidade de ver sua obra publicada nem encadernada nas prateleiras de uma livraria. O fato é que o que escreveu, deixará sua vista mais limpa e clara, pois Agenor nos conta como se sentia nos meses em que via o mato grosso em chamas vivas e largas. Descreve em forma de poema a tristeza que lhe trazia as secas e queimadas generalizadas que toda cuiabania sente na pele. Mas antes de contar/recitar/declamar esta poesia, devo lhes falar do quão importante Agenor Ferreira Leão foi aqui nesta vila. Lecionou na Escola Técnica de Cuiabá, ministrando aulas de Economia Política, (vejam só, um poeta infiltrado na política) e nela não fazia economias, pois publicou seu único livro, sob o título de Três Escolas Econômicas. Quando chegou á estas terras, se formou na 1º Turma de Ciências Jurídicas e Sociais da Faculdade de Direito daqui, que depois se tornou Universidade. Era bom com as palavras e as usava bem também na fala. Reconhecida sua bela oralidade, foi orador oficial do Centro Artístico e Musical de Cuiabá (Era um artista!) e do Centro Acadêmico Oito de Abril onde mais tarde foi Diretor da tribuna de mesmo nome além de colaborar com vários jornais da capital. Agenor conhecia bem a cidade em que vivia, tanto que escreveu uma ode á uma tal de Maria, Maria Taquara! Comadre de todos os cuiabanos, foi descrita com a bela escrita deste poeta que a ela assim se referia: (...)Mas era mulher! Sentia nas carnes surradas do tempo, feridas de espinhos da senda maldosa, da vida sem glória, volúpias de amor... e ainda explica a origem do mito, quando no mesmo poema dita assim a história: ...Um dia, na rua. Alguém, galhofando, chamou-a sorrindo Maria taquara. Mas ela, de chofre, que não aceitava de forma nenhuma aquele apelido, bastante humorada, volvendo à pessoa que assim a chamava, lhe disse o seguinte: - agora de dia, Maria Taquara...depois, quando é noite Maria meu bem.... Aí estão uns bons versos que devem ser lidos nas esquinas. Agenor também brincou com a filosofia e cantou com a boêmia, se divertiu durante toda a vida, teve tristezas e alegrias, mas como já sabia (o poeta é feito de sabedoria), ela um dia se findaria. Agenor Ferreira Leão soltou seu último rugido em 1983, quando um enfarte fulminante parou seu coração de poeta. Mas o homem morre e ficam suas idéias. Os poemas de Agenor continuam com vida e é um deles, aquele sobre as queimadas das matas, que será honrosamente impresso nesta folha de jornal. Quem sente na pele o calor de Cuiabá e respira a fuligem da queima incontrolável do mato, agora deve encher os pulmões de lirismo e sentir os pêlos arrepiados com os lindos versos deste Leão do cerrado! *Vinícius Masutti é estudante de filosofia, poeta desconhecido e colabora com o DC Ilustrado