ILUSTRADO
Quarta-feira, 18 de Dezembro de 2013, 19h:52
A
A
CRÍTICA
A desolação dos fãs
O Hobbit A Desolação de Smaug é analisado pela nossa nova
colaboradora, Rafaela Gomes. Há referências a algumas cenas
Rafa Gomes
Especial para o DC Ilustrado
Na segunda parte da trilogia que narra a saga de Bilbo Bolseiro (Martin Freeman), é notável observar a atenção especial que Peter Jackson deu à adaptação. Diferente da primeira parte que temos a apresentação e consolidação dos personagens diante de uma audiência nem toda composta por leitores assíduos , O Hobbit A Desolação de Smaug se livra dessa preocupação inicial em cativar e convencer o espectador. Supondo que a plateia esteja disposta a acompanhar a jornada iniciada há um ano, não há a obrigação do convencimento. O simples ímpeto em contar uma história sustenta a motivação do filme. E lhe digo o porquê. Enquanto O Hobbit Uma Jornada Inesperada faz uso de um tom mais leve, familiar e confortável a todos os públicos, a segunda parte quebra esse ritmo, de maneira sutil, porém clara. Com um humor adocicado, mas não forçado, Peter Jackson traz à tona o detalhe crucial que define parte da essência da obra de J.R.R. Tolkien: a ganância. Para os desencorajados, que reclamavam da primeira parte pela falta de fidelidade à temática em si, o cineasta neozelandês prova que sabe o que está fazendo ao guardar o melhor para adiante. Conforme os passos em direção à Montanha Solitária são cuidadosamente dados, vamos descobrindo novas facetas dos personagens trazidos ao cinema. Se há um ano conhecíamos a comitiva em busca do tesouro, em 2013 conhecemos a motivação dos protagonistas. E embora elas sejam distintas, todas possuem o mesmo cerne: a ganância. A retomada da terra amada e agora esquecida perde um pouco do espaço na vida de Thorin, Escudo de Carvalho (Richard Armitage). Em algumas cenas, vemos claramente sua sede pelo ouro. E essa motivação é levada a vários níveis: Bilbo começa a lidar com a dor da dependência do Um Anel, Thorin lida com a ânsia por botar as mãos na Pedra Arken (e em todo o resto), Smaug luta para preservar um tesouro que nunca gastará e até Legolas (Orlando Bloom) luta contra o ímpeto de ter a mulher que ama, mas não pode ter. De maneira exemplar, todos os personagens saem do imaginário coletivo e sempre tão nítido no cinema: que existem os caras legais e os caras maus. Ao tratar com profundidade o que o poder, desejo compulsivo e a soberba podem fazer a qualquer um de nós, Jackson coloca todos os personagens no patamar humano, ainda que cada criatura seja de uma espécie distinta. E mesmo com a liberdade poética em acrescentar cenas, acontecimentos e personagens inexistentes nas obras de Tolkien como é o caso da elfa Tauriel (Evangeline Lilly), criada para o filme , A Desolação de Smaug não perde sua origem e se mantém fiel àquelas cenas que mais gostamos no livro O Hobbit. Exemplo, o momento agonizante em que os anões são tomados pelas imensas aranhas. Sua construção já pôde ser observada nos videoblogs do filme, mas ao vermos tudo ganhando vida na tela, nossa dimensão de angústia e aflição aumenta. É terrível acompanhar o sofrimento dos anões, à medida que é revigorante vê-los se desvencilhar das armadilhas tão bem boladas. E com um toque mais sombrio e maduro em relação ao primeiro filme, o espectador ainda pode se deliciar nos momentos cômicos que aparecem com timing perfeito. Sem forçar a barra ou sugar um riso forçado, as breves pitadas cômicas vêm com leveza, na movimentação, expressão facial e frases de efeito dos personagens. Nada fica doloroso. Aliado a tudo isso, O Hobbit ainda traz cenas de ação exemplares. Com muita coisa acontecendo na tela, mas de maneira que seus olhos consigam acompanhar cada flechada ou pancada. A coreografia das lutas foi feita com tanta maestria que chega a ser impressionante. A movimentação de Legolas e Tauriel, em um embate com orcs, é rica em detalhes e agilidade, dando ritmo à cena mais eletrizante do filme que ainda é embalada pela dramática e tensa descida dos anões pela forte correnteza do rio. E se já não bastasse a riqueza de detalhes, o 3D que faz sentido e as cenas bem arquitetadas, Jackson nos apresenta a figura mais emblemática do filme: o dragão Smaug. Com sua soberania em tamanho e voz poderosa (lindamente interpretada por Benedict Cumberbatch), ele é sem sombra de dúvidas a menina dos olhos, o personagem mais aguardado do filme. Com uma construção detalhada e realista, a equipe de pós-produção trouxe o dragão mais belo e bem feito do cinema. Ele não parece um desenho imitando porcamente uma textura real. Ele é real. E as cenas contracenadas com Bilbo são ainda melhores. Não quero parecer ufanista, mas é inegável a harmonia entre os personagens, em meio a um ambiente repleto de efeitos visuais bem apresentados. O mais doloroso é o desfecho, que nos leva por três horas em uma aventura que é brutalmente interrompida no início de seu clímax. É doloroso ter que segurar a respiração por mais um ano, mas uma fala de Bilbo: o que foi que nós fizemos?, já dá um gostinho do que deve ser uma das batalhas mais épicas já vistas. É aguardar para ver.