ESPORTES
Sábado, 29 de Dezembro de 2007, 11h:32
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REAL MADRI
Novo flme registra arte de Zidane
LUIZ ZANIN ORICCHIO
Da Agência Estado - São Paulo
Se "Penta" é filme para o torcedor são-paulino, "Zidane - um Retrato do Século 21", é um trabalho de pretensão artística. Pretensão, aqui, não é palavra usada no mau sentido. Quer dizer, apenas, que a dupla de diretores, Douglas Gordon e Philippe Parreno, teve a ambição de ir além do mero registro factual de um jogador famoso em ação. Nada, nesse "perfil" de Zinedine Zidane, lembra as cinebiografias convencionais que contam a história do ídolo, o modo como chegou ao esporte que o consagra, suas glórias e eventuais percalços (logo superados, claro). Nada disso. "Zidane" concentra-se em uma única partida - Real Madrid 2 x 1 Villarreal, realizada no dia 23 de abril de 2005 no Estádio Santiago Bernabéu. O jogo valia pelo Campeonato Espanhol e 17 câmeras concentraram-se única e exclusivamente na figura de Zidane. O filme é isso, um registro em tempo real da atuação de um grande jogador. Zidane é visto com a bola e sem ela. É filmado de corpo inteiro, mas às vezes vêem-se apenas suas pernas. Ou os pés. É um registro de detalhes. Ficamos sabendo, por exemplo, que Zidane tem o hábito, talvez inconsciente, de arrastar, de tempos em tempos, a ponta da chuteira na grama, como para limpá-la. Esse é o detalhe mínimo. O que vemos melhor é a maneira de andar em campo, elegante como a de um Ademir da Guia, o modo de se dirigir aos companheiros, a concentração, a visão de jogo. Enfim é toda a exibição do espaço e do tempo de uma partida de futebol vistos pelo olhar de um craque, talvez o último dos grandes do futebol contemporâneo. A concentração das câmeras em Zidane é tamanha que as ocasiões de gol, quando a bola se afasta do personagem, têm de ser reconstituídas através de imagens da televisão. Para o amante do esporte, o filme tem um soberbo valor documental. É um estudo comportamental sobre a presença em campo de um fora-de-série. Sentimo-nos próximos de Zidane quando ele enfrenta uma marcação cerrada, quando divide a bola, quando a conduz e finalmente escapa de vários marcadores, cruzando da esquerda para colocá-la na cabeça do companheiro que marca o segundo gol do Real com muita facilidade. Ficamos próximos mesmo quando Zidane é expulso de campo, junto com o adversário com quem se desentendeu, já no fim da partida. O trabalho dos cineastas é magnífico e ficamos nos perguntando por que diabos ninguém teve a idéia de fazer um filme desses tendo Pelé ou Garrincha como personagem.