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Editoriais
Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008, 21h:33

Preocupações globais

A 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas foi inaugurada terça-feira em Nova York sob as perspectivas sombrias construídas pela crise financeira internacional. Presente nos discursos inaugurais o do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e de seu colega norte-americano, George W. Bush, a desordem mundial decorrente da convulsão dos mercados e das tentativas de normalizá-los precisa, sim, ser tratada num espaço global como o fornecido pela ONU. Com a autoridade de chefe de um Estado que sofreu severos prejuízos em crises anteriores, o presidente do Brasil foi incisivo ao afirmar, citando Celso Furtado, que é inadmissível que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas invariavelmente socializadas. A questão de quem arca com os prejuízos, que não pode ser ignorada, integra uma série de graves decisões a serem tomadas pelas nações do mundo, seja para debelar os efeitos da atual crise, seja para criar condições capazes de impedir que situações como essa se repitam em prejuízo de países e regiões. As afirmações do presidente Lula na ONU estão na linha histórica das preocupações brasileiras. Mais do que manifestação de um governo, é a posição tradicional de uma nação que pleiteia um lugar na comunidade internacional para defender as buscas pela paz, as ações pela justiça, o combate às desigualdades e à pobreza, a defesa dos direitos dos povos e a igualdade no comércio entre países e regiões. Neste sentido, nosso país sempre defendeu a existência de controles objetivos para evitar que países ou organizações se sobreponham aos direitos dos cidadãos e dos povos. No caso concreto do momento internacional, como lamentou o presidente, é inadmissível que “a euforia dos especuladores” e “a anarquia especulativa” se transformem “em angústia dos povos”. O Brasil, como várias outras nações entre as desenvolvidas e as emergentes, propugna não apenas por medidas paliativas, mas pela reconstrução da estrutura internacional “em bases inteiramente novas”. Nenhum mercado pode ser totalmente livre. Os mercados são tão importantes que precisam ser objeto da preocupação do Estado, em seu papel inafastável de regulador. Outra questão sobre a qual se referiu o presidente brasileiro, no contexto em que fracassaram as tentativas de acordos comerciais à sombra da Organização Mundial do Comércio, é a do protecionismo praticado pelos países ricos. É outro tema que, por seu caráter global, exige solução igualmente global. Nela também vigora uma sempre denunciada hipocrisia dos países ricos, que defendem a liberdade comercial para seus produtos, mas que mantêm seus próprios mercados sob um protecionismo sustentado por subsídios bilionários. Conscientemente promovem um desequilíbrio que é nefasto para os pobres. Fez bem o presidente da República em usar a prerrogativa histórica de fazer o primeiro discurso das sessões da Assembléia Geral para, com posições firmes, enfrentar esses temas de interesse global. A comunidade das nações não pode ficar à mercê de interesses raramente solidários de especuladores e de protecionistas. “A comunidade das nações não pode ficar à mercê de interesses de especuladores e de protecionistas”

Edição EDIÇÃO 16968




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