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Editoriais
Terça-feira, 02 de Março de 2010, 21h:35

Paradoxo em Canarana

Excesso de zelo costuma ser tão nocivo quanto sua falta. Alguns órgãos ainda não aprenderam a dosar ações de Estado no trato das questões indígenas, com a devida razoabilidade. Ontem, Canarana esteve a um passo de ser palco de grave enfrentamento entre índios do vizinho Parque Indígena do Xingu e a força policial local. Inconformados com a multa lavrada e a apreensão de colares, brincos, pulseiras e outros artesanatos confeccionados com penas de aves e ossos de animais silvestres numa operação feita no dia 10, por fiscais do Ibama, num pequeno ateliê local, guerreiros Kisêjê e Kayabi foram à Câmara Municipal na tentativa de negociação com o Ibama, com intermediação de autoridades, para o cancelamento da multa e da devolução do artesanato apreendido. Não houve entendimento e o que seria reunião transformou-se em protesto com sério desdobramento: funcionários do Ibama e um oficial da Polícia Militar foram impedidos de deixar o prédio e sofreram ameaças de serem levados à força para aldeia indígena. Esse grupo somente foi liberado graças a intermediação do juiz de direito local. A ação da Ibama em Canarana é a verdadeira imagem paradoxal. Enquanto artesanato indígena é vendido livremente nos aeroportos e shoppings, os índios artesãos do Alto Xingu são privados de colocarem seus produtos no mercado da cidade mais próxima de suas aldeias e local fora de sua reserva mais visitado por eles. O Ibama conhece bem a realidade em Canarana. A cidade é o referencial urbano aos povos xinguanos. Alunos de diversas etnias matriculados nas escolas locais são vizinhos de carteira de seus pares da sociedade envolvente. À noite, jovens casais circulam felizes pelas ruas em demonstração explícita de que a miscigenação está irreversivelmente em curso dentro e fora das aldeias. Mesmo com a forte presença em Canarana os povos xinguanos não abrem mão de suas origens, seus costumes e crenças. Por mais que avance a integração entre índios e seus vizinhos, ambos preservam suas identidades. O Ibama sabe dessa realidade e esse conhecimento deveria pautar suas ações, para evitar fato tão preocupante e negativo quanto a apreensão do artesanato naquela cidade. Antes da legislação que ampara a ação do Ibama e também antes mesmo do surgimento desse órgão ambiental, os povos xinguanos já estavam na calha do Xingu, onde brotou Canarana. A colonização delimitou espaço físico aos filhos primitivos da terra e eles obedecem essa regra, embora se vejam obrigados – a até mesmo tentados – a exercerem atividade remunerada para suprir necessidades. O Ibama é mero órgão de escalão secundário da União e cabe a ela disciplina-lo para que não repita operações piromaníacas que ferem o princípio do respeito que tem que nortear as relações do Estado com os povos indígenas. Os povos xinguanos não abrem mão de suas origens, seus costumes e crenças

Edição EDIÇÃO 16960




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