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Sexta-feira, 06 de Março de 2009, 20h:21

Incoerência no Senado

O país foi surpreendido negativamente pela escolha do ex-presidente Fernando Collor, atual senador por Alagoas, para a presidência da Comissão de Infraestrutura do Senado Federal. Dezessete anos depois de ter renunciado à presidência da República para não ser submetido a um processo de impeachment, no qual era acusado de envolvimento no esquema de corrupção de Paulo César Farias, o retorno de Collor ao comando de uma importante comissão técnica do Senado tem significado mais emblemático do que a própria eleição do ex-presidente. A eleição é resultado de uma complexa equação que envolve fatores nem sempre avaliáveis sob o ponto de vista da racionalidade política, ao passo que a condução a uma comissão parlamentar é, sim, uma atitude que implica uma espécie de esquecimento e de reabilitação. No comando da Comissão de Infraestrutura, uma das tarefas do senador Collor será fiscalizar as obras do principal programa de desenvolvimento do governo, o PAC. Mesmo num país que não admite penas perpétuas, é incompreensível que a memória nacional seja tão curta. No começo da década passada, o país se tomou de uma indignação cívica para denunciar e punir os participantes do que se julgava então ser o mais grave dos episódios de corrupção eleitoral e política a que o país assistira. As investigações acabaram chegando ao Planalto e envolveram diretamente o presidente. Ao renunciar, livrou-se ele de ser o primeiro chefe da nação a ter seu afastamento determinado num julgamento de impeachment. Cumprido o período de oito anos sem direitos políticos, o ex-presidente Collor retornou às disputas eleitorais, primeiro sem sucesso, depois com a eleição ao Senado pelo Estado de Alagoas. A própria indignação nacional perdeu-se no tempo e se converteu num processo de tolerância. A série de escândalos posteriores aos que levaram Collor à renúncia ajudou a fazer com que isso ocorresse. Por mais compreensíveis que sejam essas razões e os caminhos políticos que reconduziram Collor ao cenário político, eles não justificam sua escolha, agora por seus pares, para o comando de uma comissão parlamentar importante. Ao fazer isso, o mesmo parlamento que em 1992 considerava Collor indigno de governar o país, agora o tem como capaz de encaminhar temas tão delicados quanto os que tramitam e tramitarão na Comissão de Infraestrutura. O assustador no episódio é que o retorno triunfal de Collor ocorre no mesmo dia em que o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) foi afastado da Comissão de Constituição e Justiça por ter denunciado pela imprensa e na tribuna a corrupção de seu partido e os interesses fisiológicos que o movem no governo e no parlamento. Não é preciso ser revanchista nem ser moralista para estranhar que essa incoerência esteja sendo praticada no país. Nenhuma disputa partidária nem qualquer conflito de interesses justificam que a memória histórica do país seja aviltada e que o gesto da geração de 92 seja esquecido. “É incompreensível que a memória nacional seja tão curta”

Edição EDIÇÃO 16964




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